Quando a Minha Sogra Se Tornou o Meu Maior Medo – A História de Uma Família Portuguesa
— Ana, não achas que já chega de sal? — A voz da Dona Lurdes cortou o silêncio da cozinha como uma faca afiada. Eu estava a preparar o jantar, as mãos a tremer ligeiramente, e tentei sorrir, mas o sorriso morreu antes de chegar aos lábios.
— Está bem assim, Dona Lurdes. O Rui gosta do bacalhau um bocadinho mais temperado — respondi, tentando manter a voz calma.
Ela bufou, aproximando-se do fogão. — O Rui gosta é das coisas como eu faço. Sempre gostou. Não é agora que vai mudar.
Olhei para o relógio. Faltavam dez minutos para ele chegar. Dez minutos até eu ter de fingir que estava tudo bem, que não me sentia uma estranha na minha própria casa. Desde que Dona Lurdes se mudara connosco, depois do enfarte do sogro, tudo mudara. O silêncio confortável entre mim e o Rui desaparecera, substituído por discussões sussurradas à noite e olhares de censura durante o dia.
Lembro-me do primeiro dia em que ela entrou pela porta com as malas. — Isto vai ser só por uns tempos, Ana — disse o Rui, a voz cheia de esperança. — Ela precisa de nós agora.
Eu tentei acreditar nisso. Tentei ser compreensiva. Mas os dias tornaram-se semanas, as semanas meses. E Dona Lurdes foi tomando conta de tudo: da cozinha, da sala, até do quarto do nosso filho, o Tiago.
— O Tiago devia dormir comigo hoje — disse ela certa noite. — Está constipado e tu não sabes lidar com febres como eu.
— Dona Lurdes, eu sou mãe dele — respondi, sentindo o sangue ferver-me nas veias.
Ela olhou-me de cima a baixo. — Mãe? Uma mãe que trabalha até tarde e deixa o filho com febre sozinho? Eu nunca fiz isso ao Rui.
O Rui entrou na sala nesse momento e ficou parado entre nós, como se não soubesse para que lado se virar.
— Ana, talvez seja melhor deixares a minha mãe cuidar do Tiago esta noite — disse ele, sem me olhar nos olhos.
Senti-me traída. Não era só a minha sogra que me roubava espaço; era também o meu marido que me roubava voz.
As noites tornaram-se longas. Eu deitava-me ao lado do Rui, mas sentia-me a quilómetros de distância dele. Ele adormecia rápido; eu ficava acordada a olhar para o teto, a pensar em tudo o que perdera: a intimidade, a alegria de chegar a casa, até o cheiro do meu próprio lar.
No trabalho, os colegas perguntavam se estava tudo bem. Eu sorria e dizia que sim. Mas por dentro sentia-me a afundar.
Uma tarde, depois de mais uma discussão sobre como eu lavava mal os pratos — “Na minha casa nunca ficaram com gordura!” — fechei-me na casa de banho e chorei baixinho para ninguém ouvir.
O Tiago começou a perguntar porque é que eu estava sempre triste. Tentei esconder-lhe tudo, mas as crianças sentem mais do que vemos.
— Mamã, tu já não brincas comigo como antes — disse ele um dia, os olhos grandes e sérios.
Apertei-o contra mim e prometi-lhe que ia mudar. Mas como? Se cada gesto meu era criticado? Se cada decisão era posta em causa?
A tensão chegou ao limite numa noite em que cheguei tarde do trabalho e encontrei Dona Lurdes sentada à mesa com o Rui e o Tiago. Estavam a rir-se de uma história qualquer. Senti-me uma intrusa na minha própria família.
— Chegaste tarde outra vez — disse ela, sem sequer levantar os olhos do prato.
— O trânsito estava impossível — tentei explicar.
— Pois… Se calhar devias pensar em trabalhar menos e cuidar mais da tua família — atirou ela.
Olhei para o Rui à espera de apoio. Ele desviou o olhar.
Nessa noite não consegui dormir. Levantei-me e fui até à sala. Sentei-me no sofá e chorei em silêncio. Senti uma mão no ombro: era o Tiago.
— Mamã, não chores… — sussurrou ele.
Abracei-o com força e percebi que não podia continuar assim. No dia seguinte, decidi falar com o Rui.
— Rui, precisamos de conversar — disse-lhe assim que acordou.
Ele suspirou, já à espera da conversa difícil.
— Não aguento mais isto. Sinto-me uma estranha em casa. Preciso que escolhas: ou ela volta para casa dela ou eu vou-me embora com o Tiago.
Ele ficou em silêncio durante muito tempo. Finalmente falou:
— Ana… Ela é minha mãe. Não posso mandá-la embora agora…
— E eu? Não sou tua mulher? Não sou mãe do teu filho? Não mereço respeito?
Ele passou as mãos pelo rosto, cansado.
— Eu amo-te… Mas ela está doente…
— E eu? Estou a ficar doente também! — gritei-lhe, incapaz de controlar as lágrimas.
Durante dias não nos falámos direito. Dona Lurdes percebeu que algo se passava e tornou-se ainda mais controladora: criticava tudo o que eu fazia, dizia ao Tiago que eu era egoísta por querer “separar a família”.
Um sábado de manhã, fiz as malas em silêncio. O Tiago olhava para mim assustado.
— Vamos passar uns dias em casa da tia Mariana — disse-lhe baixinho.
Quando saímos pela porta, Dona Lurdes nem olhou para mim. O Rui ficou parado no corredor, sem saber o que fazer.
Na casa da Mariana senti um alívio imediato. Ela ouviu-me sem julgar e abraçou-me com força.
— Ana, tens de pensar em ti e no Tiago primeiro. O Rui tem de perceber que não pode continuar assim — disse ela.
Os dias passaram devagar. O Tiago voltou a sorrir; eu comecei a respirar melhor. O Rui ligava todos os dias, mas eu não atendia sempre.
Finalmente ele apareceu à porta da Mariana.
— Ana… Preciso falar contigo — disse ele, os olhos vermelhos de tanto chorar.
Sentámo-nos na sala enquanto o Tiago brincava no quarto ao lado.
— Percebi agora o quanto te magoei… Não queria perder-te nem ao Tiago… Falei com a minha mãe. Ela vai voltar para casa dela assim que conseguir apoio da prima Rosa… Só te peço mais uma oportunidade…
Olhei para ele durante muito tempo antes de responder. Queria acreditar nele; queria voltar a sentir-me em casa na minha própria vida.
Voltámos para casa alguns dias depois. Dona Lurdes saiu sem dizer adeus; deixou apenas um bilhete frio na mesa da cozinha: “Fiz tudo pelo meu filho”.
O silêncio voltou à nossa casa, mas era um silêncio diferente: um silêncio cheio de esperança e medo ao mesmo tempo. Eu e o Rui começámos terapia de casal; prometemos nunca mais deixar ninguém meter-se entre nós assim.
Às vezes ainda acordo assustada com medo de perder tudo outra vez. Mas olho para o Tiago a dormir tranquilo e penso: será possível reconstruir aquilo que foi destruído? Ou certas feridas nunca saram completamente?