Quando a Minha Namorada Conheceu a Minha Avó: Uma Noite Que Mudou Tudo
— Dário, tens a certeza que ela vai gostar de mim? — perguntou a Inês, com as mãos frias entrelaçadas nas minhas, enquanto subíamos as escadas do prédio antigo da minha avó. O cheiro a canela e café vinha do terceiro andar, misturado com o som abafado da televisão sempre ligada na RTP.
— Vai correr bem, prometo. A minha avó é um pouco… tradicional, mas tem um coração enorme. — tentei sorrir, mas sentia o estômago apertado. Sabia que a avó Anabela não era fácil de agradar, especialmente desde que o avô morreu e ela se tornou o pilar solitário da família.
Bati à porta. O trinco rodou com força e a avó apareceu, pequena mas imponente, com o cabelo branco apanhado num carrapito e o avental azul já gasto.
— Finalmente! — exclamou, puxando-me para um abraço apertado. Depois olhou para a Inês, dos pés à cabeça, como quem avalia um quadro antigo. — Então és tu que roubaste o coração do meu neto?
Inês sorriu, nervosa. — Espero que não o tenha roubado, só emprestado.
A avó soltou uma gargalhada seca. — Veremos, veremos. Entrem, está frio.
A sala estava quente demais, cheia de fotografias antigas e bibelôs. O cheiro a comida era intenso. A mesa estava posta para três, com a toalha de renda que só usava em ocasiões especiais.
— Senta-te aqui ao meu lado, menina — disse a avó, apontando para a cadeira junto dela. Eu sentei-me em frente, sentindo-me um miúdo outra vez.
O jantar começou com caldo verde e broa. A avó fazia perguntas rápidas:
— Então, Inês, de onde és? O que fazes? Os teus pais são de cá?
Inês respondeu com calma, mas percebia-se o desconforto. — Sou de Coimbra, trabalho numa editora em Lisboa… Os meus pais vivem lá também.
A avó franziu o sobrolho. — Editora? Isso é trabalho a sério? Não preferias ser professora ou enfermeira?
Eu tentei intervir. — Avó, hoje em dia há muitos trabalhos diferentes…
— Eu sei lá dessas modernices! — cortou ela. — No meu tempo é que era difícil. Mas pronto, cada um sabe de si.
O ambiente ficou tenso. Inês mexia no prato sem comer. Eu sentia-me dividido entre defendê-la e respeitar a avó.
Depois do jantar, enquanto eu ajudava a arrumar a cozinha, ouvi vozes baixas na sala. Voltei e vi a avó com uma caixa de fotografias antigas aberta em cima da mesa.
— Olha aqui, menina Inês — dizia ela — este era o meu marido quando voltou da guerra em Angola. Sofreu muito…
Inês olhava as fotos com interesse genuíno. — Deve ter sido difícil para si…
A avó suspirou fundo. — Mais do que imaginas. Perdi dois irmãos na guerra. E depois ainda tive de criar os meus filhos sozinha quando ele adoeceu.
Senti um nó na garganta. Nunca tinha ouvido a avó falar assim tão abertamente sobre o passado.
De repente, Inês perguntou: — E como foi criar filhos numa altura tão difícil?
A avó olhou-a nos olhos, séria. — Foi duro. Por isso é que não entendo esta juventude de agora… tudo lhes parece pouco. Não sabem o que é lutar.
Inês ficou calada por uns segundos e depois respondeu:
— Eu também luto todos os dias, Dona Anabela. Só que as batalhas mudaram.
A avó ficou em silêncio. O relógio da parede marcava nove horas quando decidi que era melhor irmos embora.
No caminho para casa, Inês estava calada. Finalmente disse:
— Não sei se a tua avó gostou de mim.
— Ela é assim com toda a gente… Precisa de tempo — tentei justificar.
Mas no dia seguinte recebi uma mensagem da minha mãe: “A tua avó não gostou nada da Inês. Diz que ela não tem fibra para ti.” Senti uma raiva surda crescer dentro de mim.
Durante semanas tentei convencer a avó do contrário. Levei flores, fiz-lhe companhia aos domingos, mas sempre que falava da Inês ela mudava de assunto ou fazia comentários passivo-agressivos:
— Olha que as meninas modernas não sabem fazer um cozido à portuguesa…
— Não te esqueças que família é para sempre, namoradas vão e vêm…
A pressão começou a afetar o meu relacionamento com a Inês. Ela sentia-se rejeitada e eu dividido entre o amor e o dever familiar.
Uma noite, depois de um jantar tenso em minha casa, Inês explodiu:
— Dário, eu não posso competir com a tua família! Sinto-me sempre à parte!
— Não é competição… Só preciso de tempo para que aceitem…
— E se nunca aceitarem? Vais escolher sempre eles?
Fiquei sem resposta. O silêncio entre nós tornou-se insuportável.
No Natal desse ano, decidi levar a Inês ao jantar de família apesar dos protestos da minha mãe e dos olhares reprovadores da avó. A tensão era palpável desde o momento em que entrámos na sala cheia de primos barulhentos e tias curiosas.
Durante o jantar, a avó fez questão de ignorar completamente a Inês. Quando chegou à sobremesa, levantou-se e disse alto:
— Há coisas que nunca mudam nesta família: respeito pelos mais velhos e tradição!
Senti-me humilhado por ela ter feito aquilo à frente de toda a gente. Inês levantou-se calmamente e saiu da sala sem dizer uma palavra.
Corri atrás dela para as escadas do prédio gelado.
— Desculpa… Eu devia ter protegido-te melhor.
Ela chorava baixinho. — Não posso continuar assim, Dário… Amo-te, mas não posso viver numa guerra constante.
Naquela noite percebi que estava prestes a perder as duas mulheres mais importantes da minha vida.
Passei dias sem falar com ninguém. A casa parecia vazia sem as mensagens da Inês ou os telefonemas insistentes da avó.
Finalmente decidi enfrentar a avó.
— Avó, preciso falar contigo.
Ela olhou-me com desconfiança enquanto eu me sentava à mesa da cozinha.
— Se é sobre aquela menina outra vez…
— É sobre mim! — interrompi. — Estou cansado desta guerra fria. Amo a Inês e quero que faças parte da minha vida com ela ou sem ela.
A avó ficou calada durante muito tempo. Depois disse:
— Sabes o que custa ver alguém de fora entrar na nossa família? Tenho medo de perder-te também…
Senti as lágrimas nos olhos pela primeira vez em anos.
— Não vais perder-me se me deixares ser feliz à minha maneira.
Ela suspirou fundo e finalmente disse:
— Traz lá essa menina cá outra vez… Mas desta vez quero conhecê-la como deve ser.
O reencontro foi tenso mas sincero. A avó não mudou de ideias de um dia para o outro, mas começou a ouvir mais e julgar menos. A Inês esforçou-se por entender as raízes daquela mulher dura mas cheia de amor mal disfarçado.
Hoje olho para trás e vejo como uma noite pode mudar tudo: expor feridas antigas, obrigar-nos a escolher caminhos difíceis e mostrar que amar é também aceitar as imperfeições dos outros.
Pergunto-me: quantos de nós já sacrificaram amores ou sonhos por medo de desiludir quem nos criou? Será possível unir dois mundos tão diferentes sem perdermos quem somos pelo caminho?