Quando a Minha Ex-Sogra Tocou à Minha Porta: O Passado Que Nunca Morre
— Vais mesmo abrir a porta? — sussurrei para mim mesma, com o coração a bater descompassado. A campainha soava insistente, como se cada toque fosse um lembrete do passado que eu tanto tentei enterrar. Olhei pelo olho mágico e quase não acreditei: Dona Amélia, a minha ex-sogra, estava ali, encharcada pela chuva, mas com aquele mesmo olhar de superioridade que sempre me fez sentir pequena.
Abri a porta devagar. — Boa tarde, Dona Amélia. — A minha voz saiu trémula, mas firme. Ela entrou sem pedir licença, como se ainda tivesse algum direito sobre a minha casa ou sobre mim.
— Mariana, precisamos de conversar — disse ela, pousando a mala no tapete como quem marca território. O cheiro do seu perfume forte misturava-se com o cheiro húmido da rua. Senti um nó no estômago.
— Sobre o quê? — perguntei, tentando manter a compostura. Ela olhou-me de cima a baixo, como fazia sempre que queria lembrar-me do meu lugar.
— Sobre o Rui. Ele está a passar por uma fase difícil. Achei que devias saber — disse ela, com aquele tom frio e calculista que me fazia sentir culpada até quando não tinha culpa de nada.
O nome dele ainda me doía. Rui foi o meu primeiro amor, o meu marido durante seis anos. Mas também foi o homem que nunca teve coragem de se impor à mãe. Lembro-me de noites em claro, chorando baixinho para não acordar a nossa filha, Inês. Dona Amélia sempre fez questão de me lembrar que eu nunca seria suficiente para o filho dela.
— Não sei como posso ajudar — respondi, tentando esconder o tremor nas mãos. Ela sentou-se no sofá sem ser convidada e cruzou as pernas.
— O Rui perdeu o emprego. Está deprimido. E tu sabes como ele é frágil… — começou ela, mas interrompi-a.
— Frágil? Ele sempre foi forte quando se tratava de me magoar — atirei, surpreendendo-me com a minha própria coragem. Ela franziu o sobrolho.
— Não venhas com essas histórias agora. O passado já passou — disse ela, como se fosse fácil apagar anos de humilhação.
Lembrei-me da primeira vez que fui apresentada à família do Rui. Dona Amélia olhou para mim e disse: “És bonita… para quem vem de uma família tão simples.” Senti-me um objeto de exposição, alguém que nunca estaria à altura das expectativas dela.
Durante o casamento, cada visita dela era um teste à minha paciência. Criticava a comida, a decoração da casa, até a forma como eu educava a Inês. O Rui limitava-se a encolher os ombros e dizia: “É só a minha mãe, não ligues.” Mas como não ligar quando as palavras dela eram lâminas afiadas?
A gota de água foi no Natal de 2019. Dona Amélia apareceu sem avisar e trouxe consigo uma lista de defeitos meus para partilhar à mesa. “A Mariana não sabe cozinhar bacalhau como deve ser”, “A Inês devia vestir-se melhor”, “O Rui está mais magro desde que casou”. Senti-me tão humilhada que fugi para a casa de banho e chorei em silêncio.
O Rui nunca me defendeu. Quando finalmente confrontei-o, ele disse: “Ela é assim mesmo. Não vale a pena discutir.” Foi nesse momento que percebi que estava sozinha naquela família.
O divórcio foi inevitável. Dona Amélia fez questão de tornar tudo mais difícil: espalhou boatos na vizinhança, ligou para os meus pais a dizer que eu era uma ingrata e tentou convencer o Rui a lutar pela guarda da Inês. Felizmente, o tribunal viu quem realmente era capaz de cuidar da nossa filha.
Agora, anos depois, ela estava ali na minha sala, como se nada tivesse acontecido.
— Mariana, sei que tivemos as nossas diferenças… — começou ela, mas interrompi-a novamente.
— Diferenças? A senhora destruiu o meu casamento! Fez-me sentir inútil durante anos! — As lágrimas começaram a escorrer-me pelo rosto antes que eu pudesse controlar.
Ela ficou em silêncio por um momento. Pela primeira vez vi hesitação nos seus olhos.
— Eu só queria o melhor para o meu filho… — murmurou ela.
— E eu? Nunca pensou no que era melhor para mim? Para a Inês? — perguntei, sentindo uma raiva antiga misturada com tristeza.
Ela desviou o olhar para as mãos trémulas. — O Rui sente falta da filha. Podias deixar que ele a visse mais vezes…
Senti um aperto no peito. A Inês tinha agora dez anos e via o pai nos fins de semana alternados. Mas ele raramente aparecia; quando vinha, estava ausente, perdido nos próprios problemas.
— Ele pode vê-la sempre que quiser — respondi baixinho. — Mas tem de querer estar presente.
Dona Amélia levantou-se abruptamente. — Eu tentei ajudar! Sempre tentei! — gritou ela, mas soou mais como um pedido de desculpa do que uma acusação.
— A senhora nunca percebeu que ajudar nem sempre é controlar — respondi, limpando as lágrimas.
Ela ficou parada à porta durante alguns segundos antes de sair sem dizer mais nada. Fechei a porta atrás dela e deslizei até ao chão, soluçando baixinho.
Naquela noite, sentei-me ao lado da Inês enquanto ela fazia os trabalhos de casa.
— Mãe, quem era aquela senhora? — perguntou ela inocentemente.
— Era só alguém do passado, filha — respondi, acariciando-lhe o cabelo.
Fiquei ali sentada muito tempo depois dela adormecer, pensando em tudo o que tinha acontecido. Será possível perdoar alguém que nunca pediu desculpa? Ou será que algumas feridas simplesmente nunca saram?
Às vezes pergunto-me: quantas vidas são destruídas por palavras não ditas e gestos mal interpretados? E será que algum dia conseguimos realmente libertar-nos do passado?