Quando a Minha Casa Deixou de Ser Minha: O Desabafo de Linda

— Linda, isto está uma vergonha! — gritou Teresa da sala, a voz cortante como uma faca a atravessar o silêncio da manhã. Senti o sangue gelar-me nas veias. Estava na cozinha, a tentar preparar o pequeno-almoço para todos, mas as mãos tremiam-me tanto que quase deixei cair a chávena de café.

Olhei para o relógio: 7h15. Mais um dia a começar com acusações e olhares de desdém. Respirei fundo, tentando não chorar. “Aguenta, Linda. Não lhes dês esse prazer”, pensei para mim mesma.

Desde que o João trouxe a Teresa para casa, tudo mudou. A minha casa, onde cada canto tinha o meu toque, onde cada fotografia contava uma história da nossa família, tornou-se um campo minado. Cada passo que dou é observado, cada gesto é criticado.

— Mãe, podes vir cá um instante? — chamou o João do corredor, com aquela voz cansada que já não reconheço como sendo do meu filho alegre e brincalhão.

Fui ter com ele, limpando as mãos ao avental. Ele estava encostado à parede, olhos baixos.

— O que foi agora, João?

— A Teresa diz que o quarto não está limpo. Que há pó debaixo da cama… — murmurou, sem me olhar nos olhos.

— E tu acreditas nela? — perguntei, sentindo a mágoa subir-me à garganta.

Ele encolheu os ombros.

— Mãe, por favor… Não compliques. Só queremos viver em paz.

Paz. Que palavra estranha naquela casa onde já só existe tensão. Lembro-me de quando o João era pequeno e corria pelos corredores, rindo-se às gargalhadas. Agora, mal me dirige a palavra sem ser para me pedir alguma coisa ou para me dar um recado da Teresa.

Voltei para a cozinha e sentei-me à mesa. As lágrimas caíram-me silenciosas pelo rosto. Senti-me invisível, descartável. Como se já não tivesse lugar ali.

A Teresa entrou de rompante.

— Linda, já lhe disse várias vezes que não gosto do cheiro do seu perfume na roupa do João. Pode parar de usar aquele amaciador? — disse ela, com um tom de voz que misturava desprezo e impaciência.

Olhei-a nos olhos pela primeira vez em semanas.

— Esta é a minha casa — respondi, a voz trémula mas firme. — Sempre lavei a roupa assim.

Ela riu-se.

— Pois, mas agora somos nós que mandamos aqui. O João já não é um menino.

Senti um nó no estômago. “Mandamos aqui.” Quando foi que deixei de ser dona da minha própria casa?

Os dias passaram-se assim: pequenas humilhações diárias, olhares trocados à mesa, portas fechadas com força. O João ia-se afastando cada vez mais de mim. Já não tínhamos aquelas conversas longas ao serão. Agora só havia silêncios e pedidos apressados.

Uma noite, ouvi-os a discutir no quarto deles.

— Não aguento mais a tua mãe aqui! — dizia a Teresa, num sussurro furioso. — Ou ela vai embora ou eu vou!

O meu coração parou por instantes. Encostei-me à porta do meu quarto e chorei baixinho para ninguém ouvir.

No dia seguinte, o João veio ter comigo à cozinha.

— Mãe… precisamos falar.

Sentei-me à mesa, já a adivinhar o que vinha aí.

— A Teresa acha melhor… talvez seja melhor procurares um sítio só para ti. Eu ajudo-te com as rendas…

Olhei para ele, incrédula.

— Vais pôr-me fora da minha própria casa?

Ele desviou o olhar.

— Não é isso… Só queremos um pouco de espaço…

Levantei-me devagarinho. Senti as pernas fraquejarem.

— Esta casa foi construída por mim e pelo teu pai! Tudo o que tens foi graças ao nosso esforço! E agora queres que eu vá embora?

Ele não respondeu. Limitou-se a sair da cozinha, deixando-me sozinha com a minha dor.

Durante dias andei como um fantasma pela casa. A Teresa fazia questão de me ignorar ou de me dar ordens como se eu fosse uma empregada. O João evitava-me. Até os meus netos começaram a olhar para mim com estranheza, como se eu fosse uma intrusa.

Uma tarde, sentei-me no jardim e olhei para as flores que plantei com tanto carinho ao longo dos anos. Lembrei-me do António, o meu marido, e das nossas conversas sobre envelhecer juntos naquela casa cheia de vida e amor. Agora só havia frieza e ressentimento.

A minha irmã Maria veio visitar-me nesse dia.

— Linda, tu não podes continuar assim — disse ela, apertando-me as mãos. — Eles não têm direito de te tratar assim!

Chorei no ombro dela como uma criança perdida.

— Mas para onde vou? Esta é a minha casa…

Ela suspirou.

— Às vezes é preciso coragem para recomeçar noutro lugar. Não deixes que te destruam assim.

As palavras dela ficaram-me na cabeça durante dias. Comecei a procurar quartos para alugar na internet às escondidas. Cada anúncio parecia um atestado de derrota.

Uma noite, depois de mais uma discussão com a Teresa por causa do jantar — “O arroz está demasiado salgado!” — fechei-me no quarto e escrevi uma carta ao João:

“Meu filho,
Sei que já não sou bem-vinda nesta casa. Não quero ser um peso para ti nem para a tua família. Vou procurar outro lugar para viver. Espero que um dia percebas tudo o que fiz por ti e pelo teu bem-estar. Amo-te sempre,
Mãe”

No dia seguinte saí cedo de casa com uma mala pequena e fui para casa da Maria temporariamente. O João ligou-me várias vezes nesse dia, mas não atendi. Precisava de tempo para mim mesma, para lamber as feridas e tentar perceber onde tinha falhado como mãe.

Os dias passaram-se devagarinho na casa da Maria. Ela fazia tudo para me animar: levava-me ao café da vila, apresentava-me amigas dela, tentava convencer-me a inscrever-me em aulas de pintura ou bordados.

Mas eu sentia-me vazia por dentro. Tinha perdido tudo: o meu lar, o meu filho, os meus netos… Tudo por causa de uma mulher que nunca me aceitou verdadeiramente na vida deles.

Um dia recebi uma carta do João:
“Mãe,
Desculpa por tudo o que aconteceu. Sinto muito a tua falta aqui em casa. As crianças perguntam por ti todos os dias. A Teresa está grávida outra vez… Queria tanto que estivesses presente nesta fase das nossas vidas. Sei que errei ao não te defender mais vezes. Por favor volta para casa nem que seja só para nos visitares…”

Li aquelas palavras entre lágrimas e raiva contida. Como podia voltar? Como podia perdoar tão facilmente depois de tudo?

Fiquei dias sem responder-lhe. Até que um domingo decidi ir à missa da vila e rezei por força e clareza de espírito.

No final da missa encontrei Dona Amélia, uma senhora idosa conhecida por todos na aldeia pela sua sabedoria:

— Linda, minha filha… A vida às vezes obriga-nos a recomeçar quando menos esperamos. Mas nunca deixes que te roubem quem és nem o teu valor!

Abracei-a com gratidão e senti finalmente um pouco de paz dentro do peito.

Hoje vivo num pequeno apartamento alugado na vila vizinha. Não é a casa dos meus sonhos nem tem as memórias de uma vida inteira… mas é meu refúgio agora. O João visita-me às vezes com os netos e tento não guardar rancor nem mágoa — mas confesso que ainda dói muito.

Às vezes pergunto-me: será este o preço da dignidade? Até onde devemos ir para não perdermos quem somos? E vocês… já sentiram que perderam tudo aquilo por que lutaram uma vida inteira?