Quando a Filha Diz Que Vai Embora: O Desabafo de uma Mãe Portuguesa

— Mãe, preciso falar contigo. Agora. — A voz da Inês tremia, mas os olhos estavam firmes, quase desafiadores. Eu estava a lavar a loiça do jantar, as mãos ainda molhadas, quando ela entrou na cozinha sem sequer tirar o casaco. O relógio marcava quase onze da noite. O meu coração disparou, como sempre que ela chega tarde e com aquele ar de quem carrega o mundo às costas.

— O que se passa, filha? — perguntei, tentando esconder o nervosismo. Ela hesitou um segundo, depois largou a mala no chão com um estrondo.

— Vou sair de casa. Do Pedro. Já não aguento mais. — Disse isto num fôlego só, como quem arranca um penso rápido para não sentir dor.

O silêncio caiu entre nós como uma cortina pesada. O som da água a pingar na pia era agora um trovão nos meus ouvidos. Senti o chão fugir-me dos pés.

— Vais… vais deixar o Pedro? — repeti, como se as palavras pudessem mudar de significado se as dissesse devagar.

Ela assentiu, os olhos brilhantes de lágrimas contidas.

— Não posso mais, mãe. Não sou feliz. Sinto-me presa. Ele não me bate, não me grita… mas não me ouve, não me vê. Estou a desaparecer ali dentro.

Sentei-me à mesa, as pernas tremiam. Lembrei-me do dia em que ela nasceu, tão pequenina e frágil, e de como prometi protegê-la de tudo. Agora, ela queria fugir para o desconhecido e eu não sabia se devia segurá-la ou empurrá-la para a frente.

— E a Matilde? — perguntei baixinho, quase com medo da resposta. A minha neta de cinco anos era o sol daquela casa.

— Vai comigo. Não vou deixá-la para trás. — A voz dela era decidida, mas vi o medo por trás da força.

Ouvimos passos no corredor. O meu marido, António, apareceu à porta, já de pijama.

— Que se passa aqui? — perguntou desconfiado.

— A Inês vai sair de casa do Pedro — disse eu antes que ela pudesse responder.

O António ficou calado uns segundos. Depois explodiu:

— Mas tu és maluca? Vais meter-te sozinha em Lisboa com uma criança? Achas que a vida é fácil? E o que é que vais fazer à tua vida agora?

A Inês ergueu o queixo:

— Vou trabalhar, arranjar um sítio para nós as duas. Prefiro lutar do que continuar a morrer aos bocadinhos.

O António bufou e saiu da cozinha a resmungar sobre as mulheres de hoje em dia e a falta de respeito pelos valores antigos. Fiquei ali sentada com a Inês, cada uma perdida nos seus pensamentos.

Lembrei-me da minha própria mãe, que nunca teve coragem de sair do lado do meu pai, mesmo quando ele chegava bêbado e partia pratos contra a parede. Lembrei-me das noites em que me encolhia na cama a rezar para que tudo acabasse bem. E agora a minha filha queria quebrar esse ciclo — mas será que eu tinha coragem de apoiá-la?

— Tens onde ficar? — perguntei finalmente.

Ela abanou a cabeça.

— Vou ficar uns dias com a Joana, depois logo vejo. Não quero ser um peso para ti nem para o pai.

Senti uma pontada no peito. Como podia ela pensar que seria um peso para mim? Era minha filha! Mas também sabia que o António nunca aceitaria tê-la cá em casa com a neta por muito tempo. O orgulho dele era maior do que o amor próprio.

— Sabes que podes sempre voltar para casa… — disse eu baixinho.

Ela sorriu tristemente.

— Obrigada, mãe. Mas preciso mesmo de tentar sozinha desta vez.

Ficámos ali sentadas até tarde, a falar baixinho sobre empregos, rendas impossíveis em Lisboa, escolas para a Matilde e o medo do futuro. A cada palavra sentia-me mais velha e mais pequena diante da coragem da minha filha.

No dia seguinte, ajudei-a a fazer as malas. A Matilde olhava para nós com os olhos grandes e assustados.

— Vamos morar noutro sítio? — perguntou ela.

A Inês ajoelhou-se ao lado dela:

— Vamos sim, princesa. Vai ser uma aventura só nossa.

Abracei-as às duas com força, tentando guardar aquele momento no peito como quem guarda um segredo precioso.

Quando saíram pela porta, senti-me vazia por dentro. O António nem apareceu para se despedir. Passei o resto do dia a andar pela casa como uma alma penada, mexendo nas coisas da Inês como se pudesse trazê-la de volta assim.

Os dias seguintes foram um tormento. O António mal falava comigo; quando falava era só para resmungar sobre como tínhamos estragado tudo ao dar demasiada liberdade à Inês. Eu respondia-lhe com silêncios ou lágrimas escondidas na casa de banho.

A Inês ligava-me todos os dias à noite. Contava-me das entrevistas de emprego falhadas, das noites mal dormidas no sofá da Joana, das birras da Matilde por causa das mudanças. Eu tentava animá-la mas sentia-me impotente diante das dificuldades dela.

Uma noite, depois de desligar o telefone, desatei a chorar sozinha na cozinha. Senti raiva do António por não conseguir ser pai quando ela mais precisava; raiva da sociedade que ainda olha de lado para mulheres sozinhas; raiva de mim própria por não ter sido mais forte para apoiar a minha filha sem hesitações.

Os meses passaram devagarinho. A Inês conseguiu finalmente um trabalho numa loja de roupa no Chiado e alugou um pequeno T2 em Marvila. Fui visitá-la assim que pôde receber visitas. A casa era modesta mas cheia de luz e esperança. A Matilde já tinha amigos novos na escola e mostrava-me orgulhosa os desenhos colados no frigorífico.

Nessa tarde, enquanto tomávamos chá na varanda minúscula com vista para os telhados de Lisboa, a Inês olhou para mim com lágrimas nos olhos:

— Achas que fiz bem?

Abracei-a com força:

— Fizeste o que tinhas de fazer para seres feliz. E eu tenho muito orgulho em ti.

Voltando para casa nesse dia, senti finalmente paz no coração. O António nunca mais falou da Inês; limitou-se a fingir que ela não existia. Mas eu sabia que ela estava bem — e isso bastava-me.

Agora escrevo estas palavras sozinha na cozinha onde tudo começou. Penso nas escolhas difíceis que fazemos por amor e pergunto-me: quantas mães terão coragem de apoiar as filhas quando elas decidem quebrar as correntes? E quantas filhas terão coragem de recomeçar do zero?