Quando a Casa Deixa de Ser um Lar: O Silêncio de Adam e as Festas de Inês

— Inês, já viste as horas? — perguntei, tentando manter a voz firme, mas sentindo o coração a bater descompassado. O relógio marcava quase três da manhã e, mais uma vez, a sala estava cheia de gente, copos espalhados, gargalhadas altas e música que fazia vibrar as paredes do nosso velho apartamento em Lisboa.

Ela olhou para mim por cima do ombro, um sorriso desdenhoso nos lábios pintados de vermelho. — Halina, relaxe. É só uma festa. O Adam não se importa, pois não? — e lançou-lhe um olhar, como se esperasse que ele a defendesse.

O Adam, sentado no canto do sofá, com um copo de cerveja meio cheio na mão, desviou o olhar. Não disse nada. Não disse nada, como sempre. O meu filho, que em pequeno era tão falador, agora parecia ter perdido a voz. Senti uma dor aguda no peito, uma mistura de raiva e tristeza. Como é que ele podia permitir isto? Como é que ele não via que a casa estava a desmoronar-se à nossa volta?

Lembro-me de quando o Adam trouxe a Inês cá a casa pela primeira vez. Era uma rapariga bonita, cheia de vida, com um riso contagiante. Gostei dela, confesso. Achei que ia trazer alegria à vida do meu filho, que sempre foi tão reservado. Mas nunca imaginei que aquela alegria se transformasse em desordem, em noites sem fim, em vizinhos a bater à porta a reclamar do barulho.

— Mãe, vai dormir. Eu trato disto — murmurou o Adam, finalmente, mas a voz dele era tão baixa que mal se ouvia por cima da música.

— Tratas? — perguntei, sentindo as lágrimas a quererem saltar-me dos olhos. — Tratas como? Ficas aí sentado enquanto ela transforma a nossa casa num bar?

A Inês riu-se, aproximando-se de mim. — Halina, a sério, não seja tão antiquada. Hoje em dia toda a gente faz festas em casa. O Adam gosta, não é?

O Adam não respondeu. Limitou-se a encolher os ombros, como se não tivesse opinião. E eu, mais uma vez, senti-me sozinha naquela casa que já não reconhecia.

Os dias passaram e as festas continuaram. Às vezes eram só dois ou três amigos, outras vezes parecia que metade de Lisboa estava na nossa sala. O cheiro a álcool, a comida espalhada, os risos estridentes. Os vizinhos começaram a evitar-me no elevador. A dona Rosa, do terceiro andar, chegou a ameaçar chamar a polícia. Eu tentei falar com o Adam, tentei explicar-lhe que aquilo não podia continuar.

— Filho, isto não é vida. Tu não eras assim. Não te reconheço — disse-lhe uma noite, quando finalmente conseguimos estar sozinhos.

Ele olhou para mim, os olhos cansados, as olheiras fundas. — Mãe, deixa estar. Vai passar. A Inês só está a divertir-se. Eu… eu não quero problemas.

— Não queres problemas? Mas já os tens! — gritei, incapaz de me controlar. — O teu casamento está a afundar-se e tu finges que não vês!

Ele levantou-se, passou as mãos pelo cabelo. — Não percebes, mãe. Se eu disser alguma coisa, ela vai-se embora. E eu… eu não quero ficar sozinho.

Foi como um murro no estômago. O meu filho, tão forte, tão independente, agora preso pelo medo da solidão. Senti-me impotente. Queria protegê-lo, queria abaná-lo, fazê-lo ver que aquilo não era amor, era dependência. Mas calei-me. Porque, no fundo, quem sou eu para me meter na vida dele?

As semanas passaram e a situação só piorou. Comecei a evitar estar em casa. Ia dar longos passeios pelo bairro, sentava-me no banco do jardim a ver as crianças a brincar, a ouvir os pássaros. Sentia-me velha, ultrapassada, como se já não houvesse lugar para mim naquele mundo de festas e ruído.

Uma noite, voltei para casa mais cedo. A porta estava entreaberta. Entrei devagar, o coração apertado. A sala estava vazia, mas ouvia vozes vindas do quarto. Aproximei-me, sem querer ouvir, mas incapaz de parar.

— Inês, por favor, hoje não. Estou cansado — dizia o Adam, a voz embargada.

— Sempre a mesma conversa! — gritou ela. — Se não queres festa, vai dormir para casa da tua mãe! Eu faço o que me apetece!

Ouvi um barulho de copos a partir. O Adam saiu do quarto, passou por mim sem me olhar. Fui atrás dele até à cozinha.

— Filho, não podes continuar assim. Isto não é vida — disse-lhe, baixinho.

Ele encostou-se ao balcão, os olhos vermelhos. — Mãe, eu não sei o que fazer. Não quero perder a Inês, mas já não aguento mais.

— Tens de falar com ela. Tens de lhe dizer o que sentes. Não podes sacrificar a tua felicidade só para não ficar sozinho.

Ele abanou a cabeça, desesperado. — E se ela me deixar? E se eu nunca mais encontrar ninguém?

Abracei-o, sentindo-o tremer nos meus braços. — És meu filho. És forte. Mereces ser feliz. Não deixes que o medo te prenda.

Nessa noite, não dormi. Fiquei a pensar em tudo o que tinha acontecido, em tudo o que podia acontecer. Será que devia intervir? Será que devia confrontar a Inês, dizer-lhe que estava a destruir o meu filho? Ou devia deixar que eles resolvessem os próprios problemas, mesmo que isso significasse ver o Adam a sofrer?

Os dias seguintes foram um tormento. O Adam andava cada vez mais calado, mais ausente. A Inês, pelo contrário, parecia cada vez mais animada, como se nada a afetasse. Uma noite, ouvi-os a discutir. Gritos, portas a bater, insultos. Senti-me a enlouquecer. Queria fugir, queria desaparecer.

Finalmente, numa manhã de sábado, o Adam veio ter comigo à cozinha. Sentou-se à minha frente, os olhos inchados de tanto chorar.

— Mãe, eu não aguento mais. Vou pedir o divórcio.

Senti um alívio misturado com tristeza. Abracei-o, disse-lhe que estava ali para o que precisasse. Ele chorou no meu ombro, como quando era criança.

A Inês saiu de casa dois dias depois, deixando um rasto de copos partidos e memórias amargas. O Adam ficou em silêncio durante semanas. Eu tentei animá-lo, tentei mostrar-lhe que a vida continua. Mas ele parecia ter perdido a vontade de viver.

Hoje, meses depois, a casa está finalmente em paz. Mas o silêncio pesa. O Adam ainda não voltou a ser o mesmo. Às vezes, olho para ele e pergunto-me se fiz bem em não intervir mais cedo. Se devia ter sido mais firme, mais corajosa. Ou se, pelo contrário, devia ter deixado tudo nas mãos deles.

Será que alguma vez vamos conseguir reconstruir o que se perdeu? Será que o Adam vai voltar a sorrir? Ou será que, no fundo, todos temos de aprender a viver com as nossas escolhas, mesmo quando nos magoam?

E vocês, o que fariam no meu lugar? Até onde deve ir o amor de mãe?