Porta Fechada: Sinto-me Uma Estranha na Vida Deles
— Não podes simplesmente aparecer sem avisar, mãe. — A voz da Sofia ecoou fria no corredor, enquanto eu segurava um saco de bolos ainda quentes.
Fiquei ali, parada, com o cheiro doce a escapar do papel pardo, sentindo o peso das palavras dela mais do que o peso do saco. O Rui, o meu filho, olhou-me de relance, mas não disse nada. A minha neta, Leonor, estava sentada no chão da sala, a brincar com legos, alheia à tensão que pairava no ar.
— Eu só queria ver-vos… — murmurei, tentando sorrir. — Trouxe uns bolinhos para o lanche.
Sofia cruzou os braços. — Hoje não dá jeito. Temos planos.
O Rui desviou o olhar para o telemóvel. Senti um nó na garganta. Quando foi que deixei de ser bem-vinda na casa do meu próprio filho? Quando foi que a minha presença se tornou um incómodo?
Voltei para casa com os bolos intactos. Sentei-me à mesa da cozinha, a olhar para as paredes amarelas que pintei com tanto carinho quando o Rui era pequeno. Oiço ainda as gargalhadas dele a correr pelo corredor, as birras por causa dos legumes, as noites em que adormecia ao meu colo depois de um pesadelo. Agora, tudo isso parece pertencer a outra vida.
A primeira vez que senti esta distância foi há cerca de um ano. Sofia sempre foi reservada, mas depois do nascimento da Leonor tornou-se ainda mais protetora. Eu tentei ajudar — ofereci-me para ficar com a bebé quando voltaram do hospital, preparei refeições, lavei roupa. Mas cada gesto era recebido com um sorriso forçado ou um “não é preciso”.
Uma tarde, enquanto embalava a Leonor na varanda, ouvi Sofia a falar ao telefone na cozinha:
— A mãe dele está sempre aqui. Não me sinto à vontade na minha própria casa.
Senti-me pequena, intrusa. Desde então comecei a avisar antes de ir lá. Às vezes nem respondiam às mensagens. Outras vezes diziam que estavam ocupados.
O Rui nunca me confrontou diretamente. Sempre foi calado, como o pai dele. Mas agora parece ainda mais distante. Quando lhe pergunto se está tudo bem, responde sempre “sim”, mas não me olha nos olhos.
No Natal passado insisti em fazer o bacalhau com todos cá em casa. Sofia disse que preferiam ficar só os três. Passei a noite sozinha a ver televisão, com o prato vazio à minha frente e as luzes da árvore a piscar para ninguém.
A minha irmã Ana diz que tenho de aceitar: “Os filhos crescem, fazem a sua vida.” Mas não é suposto uma mãe ser deixada para trás assim. Não é suposto sentir-me uma estranha na vida deles.
Há dias em que penso se fiz alguma coisa errada. Fui demasiado presente? Demasiado exigente? Lembro-me de quando o Rui era adolescente e discutíamos por causa das notas ou das saídas à noite. Mas sempre fiz tudo por ele. Trabalhei anos numa fábrica de calçado para lhe dar uma vida melhor.
Uma tarde destas decidi ligar-lhe:
— Rui, gostava de passar um domingo convosco. Sinto falta da Leonor…
Do outro lado ouvi um suspiro.
— Mãe, a Sofia anda cansada… E eu também tenho tido muito trabalho…
— Mas eu posso ajudar! Fico com a Leonor para vocês descansarem…
— Não é preciso — cortou ele. — Depois combinamos.
Desliguei antes que ele ouvisse a minha voz tremer.
Comecei a sair mais de casa para não enlouquecer com o silêncio. Vou ao mercado falar com a D. Emília das frutas ou sento-me no banco do jardim a ver as crianças brincarem. Às vezes cruzo-me com vizinhas que se gabam dos netos: “A minha Mariana ficou cá este fim de semana!” Sorrio e minto: “A Leonor também vem muitas vezes.”
Mas a verdade é que só vejo a minha neta em fotos no Facebook ou quando passo à porta da escola e espreito discretamente.
Uma noite sonhei com o Rui em pequeno, a pedir-me colo depois de cair da bicicleta. Acordei com lágrimas nos olhos e uma sensação de vazio impossível de explicar.
No aniversário da Leonor comprei-lhe um vestido cor-de-rosa com unicórnios e escrevi um cartão: “Da avó Milena, com muito amor.” Esperei pelo convite para a festa que nunca chegou. No dia seguinte deixei o presente à porta deles e fui embora antes que alguém abrisse.
Às vezes penso em bater à porta e exigir respostas: “O que fiz eu para merecer isto?” Mas depois lembro-me do olhar cansado do Rui e do tom cortante da Sofia e perco a coragem.
A Ana diz que devia viajar, fazer coisas para mim. Mas como é que se aprende a viver sem os nossos?
Uma tarde chuvosa recebi uma mensagem do Rui: “A Leonor está doente. Podes vir cá ficar com ela amanhã?” O coração disparou no peito. Preparei sopa de cenoura e comprei rebuçados para a tosse.
Quando cheguei lá, Sofia estava pálida e nervosa:
— Obrigada por vires… Eu tenho mesmo de ir trabalhar.
Fiquei sozinha com a Leonor pela primeira vez em meses. Ela olhou-me desconfiada ao princípio, mas depois deixou-se embalar nos meus braços enquanto lhe lia histórias antigas.
Ao fim do dia, quando Sofia voltou, encontrou-nos adormecidas no sofá. Olhou-nos por um instante antes de me acordar:
— Obrigada… mesmo.
Vi nos olhos dela algo diferente — talvez cansaço, talvez gratidão.
No dia seguinte voltaram ao silêncio habitual. Mas aquela tarde ficou comigo como uma réstia de esperança.
Será que algum dia voltarei a ser parte da vida deles? Ou serei sempre esta figura à porta fechada?
Às vezes pergunto-me: quantas mães vivem assim, à espera de um telefonema ou de um gesto? Será isto o preço de amar demasiado?