Perdoa-me, Inês – Sussurrou a Sogra Entre Lágrimas – Deus Já Me Castigou: A Sogra Olhou o Neto e Chorou
— Não entendes mesmo, pois não, Inês? — A voz da minha sogra ecoou pela cozinha, trémula, mas carregada de uma raiva antiga. — Sempre foste boa demais para nós, sempre com esse ar de quem sabe tudo.
Eu estava de costas para ela, as mãos a tremerem enquanto lavava a loiça do jantar. O meu filho, Tomás, brincava na sala com os carrinhos, alheio à tensão que pairava no ar. O meu marido, Rui, tinha saído para trabalhar no turno da noite. Ficávamos só nós duas, presas numa casa demasiado pequena para tanto ressentimento.
— Não é isso, Dona Amélia — tentei responder, mas a voz saiu-me fraca. — Só quero paz nesta casa. Só quero que o Tomás cresça feliz.
Ela riu-se, um riso seco, quase cruel. — Paz? Achas que alguma vez houve paz nesta família? Desde que entraste aqui só há discussões! O Rui nunca foi assim antes de ti.
Apertei os olhos com força. Quantas vezes já ouvira aquelas palavras? Quantas vezes me culpei por tudo o que corria mal? Lembrei-me do dia em que conheci Rui, na faculdade em Coimbra. Ele era tímido, mas tinha um sorriso doce. Apaixonámo-nos depressa demais, casámo-nos cedo demais. E logo percebi que o casamento não era só entre nós dois — era também com a mãe dele.
No início tentei agradar-lhe. Levava-lhe bolos, ajudava-a nas limpezas, ouvia as histórias dela sobre o marido que partira cedo demais e o filho que era tudo para ela. Mas nunca fui suficiente. Sempre havia um defeito: o arroz estava demasiado solto, o Tomás devia usar camisolas mais quentes, eu devia trabalhar menos e cuidar mais da casa.
Uma noite, depois de uma discussão particularmente dura sobre o jantar — “O bacalhau está salgado como as tuas lágrimas!” — fechei-me na casa de banho e chorei baixinho. O Rui bateu à porta:
— Inês, não ligues à minha mãe. Ela é assim com toda a gente.
— Mas eu não sou toda a gente! — gritei-lhe, surpreendendo-me com a minha própria fúria. — Eu sou tua mulher! E estou cansada de lutar por um lugar nesta casa!
Ele abraçou-me, mas senti-o distante. Como se tivesse medo de escolher entre mim e ela.
Os meses passaram e as discussões tornaram-se rotina. O Tomás começou a perguntar porque é que a avó estava sempre zangada comigo. Um dia, ouvi-o dizer à avó:
— A mãe chora muito por tua causa.
Ela ficou calada, mas vi-lhe os olhos marejados de lágrimas. Pensei que talvez mudasse. Mas não mudou.
Até ao dia em que tudo desabou.
Era uma tarde chuvosa de novembro. O Rui chegou a casa mais cedo do trabalho, pálido como nunca o tinha visto.
— Inês… preciso falar contigo.
Sentei-me à mesa da cozinha, o coração aos pulos. A Dona Amélia apareceu à porta, desconfiada.
— O que se passa? — perguntou ela.
O Rui olhou para mim e depois para ela.
— Mãe… já chega disto tudo. Eu sei do segredo.
Ela empalideceu ainda mais do que ele.
— Que segredo? — perguntei eu, sentindo um frio na espinha.
O Rui respirou fundo:
— Mãe… eu sei que foste tu que escreveste aquelas cartas anónimas à Inês quando estávamos noivos. Sei que foste tu que ligaste ao meu trabalho a dizer que ela não era mulher para mim. Sei de tudo.
O silêncio caiu pesado sobre nós. A Dona Amélia começou a tremer. As lágrimas correram-lhe pelo rosto enrugado.
— Fiz tudo pelo teu bem… — sussurrou ela. — Não queria perder-te como perdi o teu pai…
Senti uma raiva surda a crescer dentro de mim. Todos aqueles anos de dúvidas, de insegurança… tinham sido alimentados por ela.
— Dona Amélia… — comecei eu, mas a voz falhou-me.
Ela caiu de joelhos no chão da cozinha, soluçando alto.
— Perdoa-me, Inês! Deus já me castigou! Estou sozinha nesta casa cheia de vozes do passado… Só queria proteger o meu filho…
O Tomás apareceu à porta da sala, assustado com os gritos e os choros.
— Avó? Mamã?
A Dona Amélia olhou-o como se visse um fantasma. Abriu os braços para ele, mas ele hesitou antes de se aproximar.
O Rui ajoelhou-se ao lado da mãe e abraçou-a. Eu fiquei parada, sem saber o que fazer. Parte de mim queria abraçá-la também; outra parte queria fugir dali para sempre.
Os dias seguintes foram estranhos. A Dona Amélia evitava-me, mas via-a muitas vezes a olhar para o Tomás com uma tristeza profunda nos olhos. Um dia encontrei-a sentada no quarto dele, a acariciar-lhe o cabelo enquanto ele dormia.
— Ele é tão parecido contigo quando eras pequeno… — murmurou ela ao Rui. — Só queria que fosse feliz…
O Rui suspirou:
— Então deixa-nos ser felizes à nossa maneira, mãe.
Ela assentiu em silêncio.
Com o tempo, as coisas acalmaram-se um pouco. Mas nunca voltaram ao normal — talvez porque nunca tinham sido normais. A Dona Amélia tornou-se mais reservada; eu tornei-me mais forte. O Rui começou finalmente a defender-me quando era preciso.
Mas as feridas ficaram lá. Às vezes olho para o Tomás e pergunto-me se ele vai lembrar-se destes anos difíceis quando crescer. Se vai perdoar-nos por não termos conseguido protegê-lo melhor das nossas dores e dos nossos medos.
Hoje, enquanto escrevo isto sentada na varanda da nossa casa nova — finalmente só nossa — ouço o Tomás rir no jardim com os amigos da escola. A Dona Amélia vem visitá-lo de vez em quando; já não discute comigo, mas também já não tenta aproximar-se muito.
Às vezes pergunto-me: será que algumas feridas saram mesmo? Ou aprendemos apenas a viver com elas?
E vocês? Acham que o perdão é suficiente para reconstruir uma família? Ou há coisas que nunca voltam ao lugar?