“Passa tudo para o meu nome! Porque acreditaste nela? Ela anda a trair-te!” – A minha luta pela casa, pela minha filha e pela dignidade depois da traição do meu marido
— Passa tudo para o meu nome! — gritou o António, com os olhos vermelhos de raiva, enquanto batia com o punho na mesa da sala. — Não vou deixar que fiques com nada depois do que fizeste!
Fiquei ali, parada, com as mãos a tremer e o coração a bater tão forte que parecia que ia saltar-me do peito. A minha filha, a Inês, estava no quarto ao lado, provavelmente a ouvir tudo. O cheiro do café frio misturava-se com o cheiro amargo da traição que pairava no ar desde aquela noite em que encontrei as mensagens no telemóvel dele.
Nunca pensei que a minha vida pudesse mudar tanto de um momento para o outro. Sempre fui aquela mulher que fazia tudo pela família: trabalhava no hospital durante o dia, chegava a casa e ainda tinha forças para ajudar a Inês nos trabalhos de casa, preparar o jantar, ouvir os desabafos do António sobre o trabalho dele na Câmara Municipal. E agora estava ali, a ser acusada de coisas que nunca fiz, a ser ameaçada por aquele que jurei amar para sempre.
— Porque acreditaste nela? — perguntei-lhe, com a voz embargada. — Porque acreditaste na tua irmã, quando sabes que ela sempre teve inveja de mim?
A irmã dele, a Teresa, sempre foi uma presença tóxica na nossa vida. Desde o início do nosso casamento que ela fazia questão de me rebaixar, de insinuar que eu não era boa o suficiente para o irmão dela. E agora, depois de descobrir as mensagens dele com outra mulher — uma colega do trabalho, claro —, foi ela quem lhe encheu a cabeça de mentiras sobre mim.
— Ela anda a trair-te! — gritava a Teresa ao telefone, enquanto eu ouvia tudo da cozinha. — Não vês? Ela só quer ficar com a casa e com a miúda!
O António acreditou nela. Não em mim. Não na mulher que esteve ao lado dele durante quinze anos, nos bons e nos maus momentos. Não na mãe da filha dele. Mas sim na irmã que sempre quis ver-nos separados.
Naquela noite, depois de ele sair porta fora, sentei-me no chão da cozinha e chorei até não ter mais lágrimas. Senti-me sozinha como nunca antes. Oiço ainda hoje o eco dos meus próprios soluços naquela casa fria.
No dia seguinte, acordei com a Inês ao meu lado na cama. Tinha os olhos inchados e abraçou-me sem dizer nada. Ela sabia. As crianças sabem sempre mais do que pensamos.
— Mãe, vamos ficar bem? — perguntou-me ela, baixinho.
Quis mentir-lhe. Quis dizer-lhe que sim, que tudo ia ficar bem. Mas não consegui. Só consegui abraçá-la com força e prometer-lhe que ia lutar por nós.
Os dias seguintes foram um inferno. O António começou a aparecer em casa só para buscar roupas ou papéis. Cada vez que vinha, trazia consigo uma nuvem de raiva e ressentimento. A Teresa ligava-me todos os dias para me insultar ou ameaçar:
— Vais ver! Vais acabar na rua! O meu irmão vai tirar-te tudo!
Comecei a ter medo de abrir a porta. Tinha medo até de ir trabalhar, com receio de encontrar algum recado dele ou dela no carro. Os vizinhos começaram a olhar para mim de lado; as notícias correm depressa numa vila pequena perto de Coimbra.
O advogado dele enviou-me uma carta: queria metade da casa, metade das poupanças e guarda partilhada da Inês. Mas eu sabia que ele não queria saber da filha; queria apenas magoar-me.
A minha mãe tentou ajudar-me:
— Filha, volta para casa. Deixa essa casa para eles. Começa de novo.
Mas eu não conseguia desistir assim tão facilmente. Aquela era a minha casa também. Ali tinha visto a Inês dar os primeiros passos, ali tinha chorado e rido tantas vezes. Não podia deixar tudo para trás só porque alguém decidiu destruir tudo.
Comecei então a lutar. Procurei um advogado — o Dr. Manuel, amigo do meu pai desde os tempos da tropa — e contei-lhe tudo:
— Ele traiu-me, doutor. E agora quer tirar-me tudo.
O Dr. Manuel ouviu-me em silêncio e depois disse:
— Vai ser difícil, Ana. Mas não impossível. Tens de ser forte.
E fui. Fui mais forte do que alguma vez pensei ser capaz.
As audiências começaram pouco tempo depois. O António olhava para mim como se eu fosse uma estranha; a Teresa sentava-se atrás dele e lançava-me olhares de ódio. No tribunal ouvi coisas sobre mim que nunca imaginei ouvir:
— Ela é instável! — gritava o António ao juiz. — Não quero que a minha filha cresça com uma mãe assim!
Eu sentia-me pequena, esmagada por tanta mentira e manipulação. Mas olhava para a Inês e lembrava-me porque estava ali: por ela e por mim.
Os meses passaram devagar. Cada dia era uma batalha: pagar contas sozinha, lidar com as perguntas da Inês sobre o pai (“Porque é que ele não vem buscar-me?”), enfrentar os olhares dos vizinhos (“Coitada… foi trocada por outra”).
Houve dias em que quis desistir. Houve noites em que me sentei no chão da casa de banho e chorei em silêncio para não acordar a Inês.
Mas também houve momentos de esperança: quando consegui um aumento no hospital; quando vi a Inês sorrir outra vez ao brincar com as amigas; quando percebi que conseguia viver sem medo.
A Teresa continuava a tentar meter-se na nossa vida: ligava à escola da Inês para tentar saber coisas sobre nós; espalhava boatos na vila (“A Ana anda metida com outro!”). O António começou a afastar-se dela quando percebeu até onde ela era capaz de ir.
Um dia, ele apareceu em casa sem avisar. Estava diferente: mais magro, mais cansado.
— Ana… — disse ele, hesitante — Desculpa.
Olhei para ele durante muito tempo antes de conseguir responder.
— Desculpa porquê? Por teres acreditado nela? Por me teres traído? Ou por teres tentado tirar-me tudo?
Ele baixou os olhos.
— Por tudo… Eu… perdi-me.
Não senti raiva naquele momento. Senti pena dele — pena por alguém que deixou que o orgulho e as mentiras destruíssem tudo o que tínhamos construído juntos.
Aos poucos, as coisas foram acalmando. O tribunal deu-me razão: fiquei com a casa e com a guarda principal da Inês. O António começou finalmente a ser um pai presente; afastou-se da Teresa depois de perceber o mal que ela nos fez.
Hoje olho para trás e vejo uma mulher diferente daquela que chorava sozinha na cozinha há dois anos atrás. Sou mais forte, mais independente — mas também mais desconfiada.
Às vezes pergunto-me se alguma vez vou conseguir confiar em alguém outra vez; se algum dia vou conseguir amar sem medo de perder tudo de novo.
Mas olho para a Inês — agora já adolescente — e vejo nela toda a força que precisei para sobreviver.
E pergunto-vos: quantas vezes é preciso perder tudo para finalmente nos encontrarmos? Será possível reconstruir-nos depois de tanta dor? O que fariam vocês no meu lugar?