Partida sem Volta: Uma História de Maternidade, Dor e Perdão
— Inês, não podes simplesmente fugir dos teus problemas! — A voz da minha mãe ecoava pelo corredor frio do hospital de Santa Maria, em Lisboa. O cheiro a desinfetante misturava-se com o perfume barato que ela usava desde sempre. Eu sentia as pernas a tremer, as mãos húmidas, o coração aos saltos. O meu filho chorava na incubadora, tão pequeno, tão indefeso. E eu? Eu só queria desaparecer.
“Será que alguma vez vou conseguir ser a mãe que ele merece?” — pensei, enquanto olhava para aquele ser minúsculo, envolto em tubos e fios. O pai dele, o Miguel, não estava ali. Nunca esteve verdadeiramente presente. Quando soube da gravidez, limitou-se a dizer:
— Isso é problema teu, Inês. Não vou estragar a minha vida por um erro.
O erro. Era assim que ele via o nosso filho. E eu? Eu sentia-me um erro ambulante desde os quinze anos, desde que o meu pai nos deixou para ir viver com outra mulher em Braga. A minha mãe nunca me perdoou por isso. Dizia que eu era igual a ele: fraca, egoísta, incapaz de enfrentar as dificuldades.
Naquela manhã de janeiro, Lisboa estava cinzenta e húmida. O hospital parecia um labirinto de corredores intermináveis. Lembro-me de ter olhado para o relógio: 8h47. O tempo parecia suspenso. Sentei-me na cadeira de plástico ao lado da incubadora e comecei a falar baixinho:
— Desculpa, meu amor. Desculpa por não conseguir ser forte. Desculpa por não saber amar-te como mereces.
As lágrimas caíam-me pelo rosto sem controlo. Uma enfermeira aproximou-se e pousou a mão no meu ombro.
— Precisa de ajuda? — perguntou com uma voz suave.
Quis gritar, quis fugir dali, mas limitei-me a abanar a cabeça. Não havia ajuda possível para quem se sentia tão perdida.
A minha mãe entrou no quarto com o rosto carregado de raiva e desilusão.
— Vais mesmo fazer isto? Vais abandonar o teu filho como o teu pai te abandonou a ti?
Aquelas palavras cortaram-me como facas. Senti-me pequena, suja, indigna de amor. Mas também sabia que não tinha forças para cuidar dele sozinha. Trabalhava num supermercado do bairro das Olaias, ganhava pouco mais do que o salário mínimo, vivia num quarto alugado com paredes húmidas e baratas a correrem pelo chão à noite.
O Miguel desaparecera do mapa. Os meus amigos afastaram-se quando perceberam que eu não era mais a Inês divertida das noites no Bairro Alto. Restava-me a minha mãe — e ela fazia questão de me lembrar todos os dias que eu era um fracasso.
Naquela noite, sentei-me na janela do quarto do hospital e olhei para as luzes da cidade. Perguntei-me se haveria alguém ali fora que sentisse a mesma dor, o mesmo vazio. Lembrei-me da infância em Setúbal, dos verões na praia com o meu pai antes de tudo desabar. Tinha saudades de acreditar que tudo era possível.
No dia seguinte, assinei os papéis para entregar o meu filho à adoção. A assistente social olhou-me nos olhos e disse:
— Tem a certeza do que está a fazer?
Não respondi. Apenas assinei, com a mão a tremer tanto que mal conseguia segurar na caneta.
A minha mãe não me perdoou. Deixou de me falar durante meses. No bairro, começaram os sussurros:
— Aquela é a Inês, aquela que abandonou o filho…
Perdi o emprego pouco depois. O senhorio expulsou-me porque não paguei duas rendas seguidas. Passei noites em pensões baratas na Baixa, outras vezes dormia no banco do jardim da Estrela. Sentia-me invisível — ou pior: sentia que todos me viam apenas como um monstro.
Um dia, encontrei a minha amiga Filipa no supermercado do bairro Alto.
— Inês… és mesmo tu? — perguntou ela, surpresa ao ver-me tão magra e desleixada.
— Sou eu… ou o que resta de mim — respondi com um sorriso triste.
Ela levou-me para casa dela naquela noite. Deu-me banho, roupa limpa e um prato de sopa quente.
— Não tens de passar por isto sozinha — disse ela enquanto me abraçava.
Chorei como já não chorava há meses. Pela primeira vez desde aquele dia no hospital, senti um pouco de calor humano.
Com o tempo, arranjei trabalho numa lavandaria em Campo de Ourique. Não era muito, mas permitia-me pagar um quarto pequeno numa casa partilhada com outras duas mulheres — a Ana e a Teresa, ambas com histórias tão difíceis como a minha.
Aos poucos fui reconstruindo uma rotina: acordar cedo, apanhar o autocarro 742, trabalhar até às seis da tarde, jantar sozinha no quarto enquanto via novelas na RTP1. Mas todas as noites sonhava com o meu filho: via-o crescer sem mim, perguntava-se porque é que a mãe não estava ali para lhe dar um beijo de boa noite.
Os anos passaram devagar. A minha mãe adoeceu — cancro nos pulmões — e fui chamada ao hospital de Santa Maria para me despedir dela.
— Inês… — murmurou ela com dificuldade — nunca te perdoei… mas também nunca perdoei a mim própria…
Segurei-lhe na mão e chorei em silêncio. No fundo, éramos duas mulheres partidas pelo abandono dos homens das nossas vidas — e incapazes de nos perdoar uma à outra.
Depois do funeral da minha mãe, decidi procurar o meu filho. Fui à Segurança Social pedir informações. Disseram-me que tinha sido adotado por uma família em Cascais — um casal sem filhos, professores universitários.
Durante semanas vagueei pelas ruas de Cascais à procura de rostos familiares. Imaginava-o a brincar nos jardins da vila, a correr pela praia do Guincho… mas nunca tive coragem de perguntar diretamente por ele.
Numa tarde de primavera, sentei-me num banco junto ao mar e escrevi-lhe uma carta:
“Meu querido filho,
Não sei se algum dia vais ler estas palavras ou se vais querer saber quem sou. Só quero que saibas que te amei desde o primeiro momento em que te vi — mas fui fraca demais para te dar tudo aquilo que merecias. Espero que tenhas encontrado amor e felicidade onde eu falhei.”
Nunca enviei essa carta. Guardei-a numa gaveta do quarto minúsculo onde ainda hoje vivo.
Agora tenho 38 anos. Trabalho numa pastelaria em Alfama e passo os dias a servir cafés e pastéis de nata a turistas estrangeiros que não imaginam as histórias escondidas atrás dos sorrisos das empregadas portuguesas.
Às vezes pergunto-me se algum dia terei coragem de procurar verdadeiramente o meu filho — ou se ele quererá saber quem é esta mulher partida pelo medo e pela culpa.
Será possível perdoarmo-nos pelos erros do passado? Ou será que há decisões que nos marcam para sempre? Gostava de saber o que fariam vocês no meu lugar.