Partida sem Volta: Uma História de Maternidade, Dor e Perdão

— Mariana, não podes fazer isto! — A voz da minha mãe ecoava pelo corredor frio do hospital de Santa Maria, em Lisboa. O cheiro a desinfetante misturava-se com o perfume barato que ela usava desde sempre. Eu sentia o corpo dorido, a cabeça pesada, e o coração… esse parecia já não me pertencer.

Olhei para ela, olhos vermelhos de tanto chorar. — Mãe, eu não consigo. Não consigo ser mãe agora. Não tenho nada para lhe dar. — As palavras saíam-me entrecortadas, como se cada sílaba me arrancasse um pedaço da alma.

O meu filho chorava ao meu lado, enrolado numa manta azul clara. Tinha os olhos fechados e a pele enrugada dos recém-nascidos. Senti uma onda de amor e culpa ao mesmo tempo. Como é que se pode amar tanto alguém e ainda assim sentir que não se é capaz de ficar?

A minha mãe aproximou-se da cama, agarrou-me a mão com força. — Mariana, pensa bem. O que é que as pessoas vão dizer? O teu pai já está furioso. A tua irmã nem quis vir cá. Vais mesmo deixar o teu filho aqui?

Fechei os olhos. Vi flashes da minha infância: o pai a gritar porque tirei um 14 a Matemática; a mãe a chorar porque o dinheiro não chegava; a minha irmã mais velha a fugir de casa aos 17 anos. Cresci num bairro social em Chelas, onde todos sabiam tudo sobre todos e ninguém perdoava nada.

Quando engravidei do Miguel, foi como se tivesse assinado uma sentença. O pai do bebé, o Rui, desapareceu assim que soube. “Não estou preparado para isto”, disse-me ele ao telefone, numa noite chuvosa de novembro. Nunca mais atendeu as minhas chamadas.

Durante nove meses vivi entre a vergonha e o medo. A barriga crescia e os olhares também. No supermercado, as vizinhas cochichavam: “Lá vai a Mariana, mais uma desgraçada.” No autocarro, sentia os olhares pesados, como se cada um deles fosse um tijolo a esmagar-me o peito.

No hospital, depois do parto, senti-me vazia. O médico sorriu: “Parabéns, Mariana. É um menino saudável.” Eu sorri de volta, mas por dentro só queria desaparecer.

— Não posso levá-lo para casa, mãe. Não posso — repeti, quase num sussurro.

Ela largou-me a mão e saiu do quarto sem olhar para trás. Fiquei sozinha com o Miguel. Peguei-lhe ao colo pela primeira vez e chorei como nunca tinha chorado antes.

— Desculpa, meu amor. Desculpa — sussurrei-lhe ao ouvido.

Naquela noite não dormi. Olhei para ele durante horas, a tentar decorar cada traço do seu rosto minúsculo. Pensei em fugir com ele, apanhar um comboio para o Porto ou para Faro, começar uma vida nova onde ninguém nos conhecesse. Mas sabia que era impossível. Não tinha dinheiro, não tinha apoio, não tinha nada.

No dia seguinte, assinei os papéis para o deixar ao cuidado do Estado. A assistente social olhou-me com pena disfarçada de profissionalismo.

— Tem a certeza da sua decisão?

Assenti em silêncio.

Quando saí do hospital, senti um frio que não vinha só do inverno lisboeta. Era um frio por dentro, como se tivesse deixado lá dentro não só o meu filho mas também uma parte de mim.

Os dias seguintes foram um borrão de lágrimas e silêncios. Em casa, a minha mãe não me falava. O meu pai batia com as portas e resmungava sobre “vergonha” e “desgraça”. A minha irmã mandou-me uma mensagem curta: “Nunca pensei que fosses capaz disto.” Apaguei-a sem responder.

Tentei voltar à rotina: procurar trabalho, fingir que estava tudo bem quando ia ao café da esquina comprar pão. Mas nada era igual. As pessoas olhavam-me com mais desprezo do que antes. Uma vizinha chegou a dizer-me na cara: “Se não querias filhos, devias ter pensado antes.” Fugi dali a correr.

À noite sonhava com o Miguel. Sonhava que ele me chamava “mamã”, que corria para mim no parque da Bela Vista. Acordava sempre a chorar.

Meses passaram assim. Um dia recebi uma carta do tribunal: podia visitar o Miguel na instituição onde estava. Fui lá cheia de medo e esperança.

A instituição era fria e cheirava a sopa requentada. Vi-o brincar com outras crianças num tapete gasto. Quando me viu, olhou para mim sem me reconhecer. Senti uma dor aguda no peito.

— Olá, Miguel… — disse-lhe baixinho.

Ele continuou a brincar com um carrinho de plástico azul.

A educadora aproximou-se:
— Ele está bem adaptado… Mas ainda pode mudar de ideias sobre a adoção.

Olhei para ela sem saber o que dizer. Tinha saudades dele todos os dias, mas continuava sem saber como lhe dar uma vida digna.

Voltei para casa pior do que fui. A minha mãe esperava-me na cozinha.

— Foste vê-lo?

Assenti.

— E então?

— Ele não me reconheceu…

Ela suspirou fundo e pela primeira vez em meses sentou-se ao meu lado.

— Sabes… Eu também pensei em fugir quando tu nasceste — confessou ela de repente, olhando para as mãos trémulas. — O teu pai era violento naquela altura… Mas fiquei porque achei que era isso que uma mãe fazia.

Ficámos em silêncio muito tempo.

— Achas que algum dia ele me vai perdoar? — perguntei-lhe finalmente.

Ela encolheu os ombros.

— Talvez… Mas primeiro tens de te perdoar a ti própria.

As semanas passaram devagarinho. Comecei a ir à terapia social gratuita no centro de saúde do bairro. Lá conheci outras mulheres com histórias parecidas: mães solteiras abandonadas pelos companheiros; mulheres que perderam filhos; mulheres que nunca puderam ser mães.

Aos poucos fui percebendo que não estava sozinha na minha dor.

Um ano depois recebi uma carta: Miguel tinha sido adotado por uma família em Cascais. Diziam-me que estava bem e feliz.

Chorei muito nesse dia — de tristeza e de alívio ao mesmo tempo.

Hoje continuo a viver em Chelas, trabalho numa pastelaria e ajudo outras mulheres no centro social do bairro. Nunca mais vi o Miguel, mas penso nele todos os dias.

Às vezes pergunto-me: será que ele sente falta de mim? Será que algum dia vai querer saber quem sou? E eu… alguma vez vou conseguir perdoar-me verdadeiramente?

E vocês? Conseguiriam perdoar alguém como eu? Ou será que há coisas na vida que são mesmo imperdoáveis?