“Pagamos Separado!” – Um Encontro Que Mudou Tudo
— Então… pagamos separado? — A pergunta dele ficou suspensa no ar, como se o tempo tivesse parado naquele restaurante pequeno em Campo de Ourique. O garfo tremeu na minha mão. Senti o olhar de Dona Amélia, a dona do restaurante, pousar em nós, curiosa. Por um segundo, desejei ser invisível.
Nunca pensei que uma simples frase pudesse doer tanto. Não era pelo dinheiro — era pelo gesto, pelo que significava. Lembrei-me das palavras da minha mãe naquela manhã:
— Filha, lembra-te: homem que é homem paga o jantar. Não te deixes enganar por modernices!
Mas ali estava eu, sentada à frente do Miguel, um rapaz simpático que conheci no Tinder há duas semanas. Trocámos mensagens durante dias, partilhámos memes, confidências e até sonhos parvos. Achei que tínhamos química. Achei que ia ser diferente.
O jantar começou bem. Falámos de tudo: da crise da habitação, dos preços absurdos das rendas em Lisboa, das saudades do verão na Nazaré. Rimos quando ele contou como quase foi atropelado por um elétrico porque estava distraído a olhar para o telemóvel. Eu contei-lhe do meu cão, o Tobias, e de como a minha avó insiste em dar-lhe bacalhau às sextas-feiras.
Mas depois… depois veio o silêncio estranho. Aquele silêncio que se instala quando as expectativas começam a desmoronar-se.
— Desculpa, mas não gosto muito de dividir contas — arrisquei, tentando sorrir.
Ele encolheu os ombros.
— Acho justo. Somos adultos, não é? Cada um paga o seu.
Senti-me pequena. Lembrei-me de todas as conversas com as minhas amigas sobre encontros falhados, sobre homens que não querem compromissos, sobre a solidão de quem tenta encontrar alguém num mundo onde tudo parece descartável.
A minha cabeça começou a girar. Oiço a voz do meu pai:
— No meu tempo, um homem fazia questão de pagar tudo. Era sinal de respeito.
E a da minha irmã mais nova:
— Oh pá, isso já não existe! Cada um paga o seu e pronto. Não faças filmes.
Mas eu fazia filmes. Sempre fiz. Cresci numa família onde os jantares de domingo eram sagrados e onde se discutia tudo à mesa: política, futebol, amores e desamores. Onde se gritava e chorava e ria com a mesma intensidade.
Olhei para o Miguel e vi alguém diferente do rapaz das mensagens. Vi alguém cansado, talvez desiludido também. Perguntei-me se ele sentia o mesmo desconforto que eu.
— Sabes — disse ele de repente —, nunca sei o que esperam de mim nestas situações. Se pago tudo, dizem que sou machista. Se não pago, dizem que sou forreta.
Fiquei sem palavras. Nunca tinha pensado nisso desse lado.
O jantar acabou num tom estranho. Pagámos separado. Ele despediu-se com dois beijos na face e um sorriso tímido.
— Gostei de te conhecer — disse ele.
— Eu também — menti.
Caminhei até ao metro com um nó no estômago. O frio da noite lisboeta cortava-me a cara e as dúvidas cortavam-me por dentro.
Cheguei a casa e a minha mãe estava à espera na sala.
— Então? Como correu?
Sentei-me ao lado dela no sofá velho, aquele onde tantas vezes chorei por amores perdidos e sonhos adiados.
— Correu… — hesitei — correu como tinha de correr.
Ela olhou para mim com aquele olhar de quem sabe mais do que diz.
— Filha, às vezes esperamos demais dos outros. E esquecemo-nos de olhar para nós.
Fui para o quarto e sentei-me na cama. Peguei no telemóvel e vi uma mensagem do Miguel:
“Desculpa se fui estranho no fim. Gostava de te ver outra vez.”
Fiquei ali a olhar para o ecrã, sem saber o que responder. Pensei em tudo o que me ensinaram sobre amor, respeito, igualdade… e percebi que estava perdida entre tradições antigas e realidades novas.
No dia seguinte, no trabalho, contei tudo à Inês, a minha colega e confidente.
— Achas que fui demasiado exigente? — perguntei-lhe.
Ela riu-se.
— Achas mesmo que é pelo jantar? Isso é só um pretexto para não te entregares. Tens medo de te magoar outra vez.
Fiquei calada. Talvez ela tivesse razão.
Os dias passaram e continuei a pensar naquele encontro. Pensei nas vezes em que me anulei para agradar aos outros, nas vezes em que engoli sapos para manter a paz na família ou nos relacionamentos. Pensei nas expectativas que carrego às costas — as minhas e as dos outros.
Uma noite, durante mais um jantar de domingo em casa dos meus pais, a discussão voltou ao tema dos relacionamentos modernos.
— Hoje em dia ninguém quer saber de ninguém! — exclamou o meu tio António. — Só pensam em si próprios!
A minha avó abanou a cabeça:
— No meu tempo era tudo diferente…
Olhei para eles e percebi que todos estavam presos às suas próprias ideias do que é certo ou errado. E eu? Onde ficava eu no meio disto tudo?
Peguei no telemóvel e escrevi ao Miguel:
“Queres tomar um café esta semana?”
Ele respondeu quase de imediato:
“Quero muito.”
Encontrámo-nos num café perto do Saldanha. O ambiente era mais leve desta vez. Falámos abertamente sobre expectativas, medos e desilusões.
— Sabes — disse-lhe —, acho que ando sempre à procura de sinais de que algo vai correr mal. Talvez seja mais fácil desistir antes de tentar.
Ele sorriu:
— Eu também tenho medo. Mas se não arriscarmos nunca vamos saber.
Saí daquele café diferente. Não sabia se ia resultar com o Miguel ou não. Mas percebi uma coisa: não posso viver sempre à espera da aprovação dos outros ou das regras antigas da minha família.
Às vezes é preciso pagar separado — não só no jantar, mas na vida. Cada um tem de assumir as suas escolhas e os seus medos.
Agora pergunto-me: quantas vezes deixamos de viver algo bonito só porque temos medo de sair do guião? E vocês? Já sentiram este conflito entre o que esperam de vocês e aquilo que realmente querem?