O Segredo do Sótão: Cartas que Mudaram a Minha Vida

— Não abras isso agora, Mariana! — gritou a minha irmã, Inês, da porta do sótão, com a voz trémula de quem teme o passado mais do que as aranhas ou o pó.

Mas eu já tinha o canivete na mão e o nó do velho cordel quase desfeito. O cheiro a mofo e madeira húmida misturava-se com a ansiedade que me subia pelo peito. O sótão da casa da nossa mãe era um lugar proibido desde pequenas, um território de caixas empilhadas, malas sem dono e recordações que ninguém queria enfrentar. Mas naquele dia, depois do funeral, alguma coisa em mim precisava de respostas.

— Inês, se não queres saber, podes sair — disse-lhe, tentando esconder o tremor na minha voz. — Eu preciso disto.

Ela hesitou, mas ficou. Sentei-me no chão frio, com a caixa entre as pernas. O pó levantou-se quando soprei na tampa, revelando as letras tortas escritas a marcador: “Rachunhos / fotos / coisas”. O português antigo da nossa mãe fazia-me sorrir e doer ao mesmo tempo.

Cortei o cordel. Dentro, havia cadernos de capa preta, fotografias desbotadas de festas de aldeia, um molho de selos que o meu pai colecionava com a obsessão de uma criança. E um maço de cartas, atadas com fita de cetim azul e envoltas em papel vegetal. No topo, a letra da minha mãe: “Para abrir só quando eu já não estiver”.

O silêncio entre mim e Inês era pesado. Ela olhava para mim como se eu fosse cometer um crime.

— Achas mesmo boa ideia? — sussurrou.

— Não sei — respondi. — Mas preciso de saber quem era a nossa mãe antes de ser só mãe.

Peguei na primeira carta. As mãos tremiam-me tanto que quase rasguei o papel fino. O remetente era um nome que nunca ouvira: António Figueiredo, Porto. O ano: 1978. Antes de eu nascer.

“Querida Maria Helena,

Hoje sonhei contigo outra vez. O teu riso ficou-me preso nos ouvidos como uma música triste…”

Li em voz alta até não conseguir mais. O António escrevia como quem ama e sofre ao mesmo tempo. Falava de encontros secretos na Foz, de promessas feitas à beira-mar, de uma vida que nunca chegou a acontecer.

— Quem é este António? — perguntei, olhando para Inês.

Ela encolheu os ombros, mas os olhos brilhavam de lágrimas contidas.

Continuei a ler as cartas. Havia paixão, raiva, despedidas e reencontros. Descobri que a nossa mãe tivera um grande amor antes do nosso pai. Um amor impossível, interrompido por uma gravidez inesperada — mas não era eu nem Inês. Era uma criança que nunca nascera.

O chão fugiu-me dos pés. Senti-me traída e ao mesmo tempo próxima daquela mulher que sempre fora um mistério para mim.

— Achas que o pai sabia? — perguntei.

Inês abanou a cabeça.

— O pai sempre foi ciumento… Lembras-te das discussões? Talvez fosse por causa disto.

De repente, tudo fazia sentido: os silêncios à mesa, os olhares perdidos da mãe para o vazio, as noites em que ela chorava baixinho no quarto ao lado.

No fundo da caixa havia mais: um diário da mãe dos anos 80, onde ela escrevia sobre a dor de perder um filho e a culpa de nunca ter contado ao marido. Havia também cartas do nosso pai — frias, cheias de cobranças e mágoas.

“Maria Helena,

Não entendo porque te afastas tanto. Sinto-te longe mesmo quando estás ao meu lado…”

A raiva cresceu dentro de mim. Porque é que nunca nos contaram nada? Porque é que tivemos de crescer numa casa cheia de segredos e silêncios?

Inês chorava agora abertamente.

— Sempre achei que havia algo errado connosco… Que éramos nós o problema…

Abracei-a. Pela primeira vez em anos, senti que éramos irmãs não só pelo sangue, mas pela dor partilhada.

Descemos do sótão com a caixa nas mãos. Na sala, o meu tio Jorge esperava-nos para discutir a herança. Mal nos viu com a caixa, franziu o sobrolho.

— O que é isso?

— Coisas da mãe — respondi seca.

Ele tentou tirar-me a caixa das mãos.

— Isso agora é de todos! — disse com aquela voz autoritária que sempre me irritou.

— Não é nada! — gritei. — Isto é da mãe! Da nossa história!

A discussão subiu de tom. A minha tia Lurdes entrou na sala aos gritos:

— Já chega! A vossa mãe morreu há três dias! Não têm vergonha?

O silêncio caiu como uma pedra. Senti-me pequena e perdida outra vez.

À noite, sentei-me sozinha no quarto da infância com as cartas espalhadas à minha volta. Li cada palavra como se procurasse respostas para perguntas que nem sabia fazer.

No dia seguinte, fui ao Porto procurar António Figueiredo. O nome estava nas Páginas Amarelas — ainda existiam! Liguei para o número fixo com as mãos a suar.

— Estou? António Figueiredo?

A voz do outro lado era rouca e cansada.

— Sim? Quem fala?

— Sou Mariana… filha da Maria Helena…

O silêncio foi tão longo que pensei que tinha desligado.

— A tua mãe… — disse ele finalmente, com uma ternura inesperada. — Era uma mulher extraordinária.

Marcámos encontro num café antigo na Foz. Quando o vi — um homem magro, cabelo branco desgrenhado — percebi que ali estava alguém que amara profundamente a minha mãe.

Falámos durante horas. Ele contou-me histórias da juventude dela: como dançava nos bailes populares, como sonhava fugir para Paris, como chorou quando perdeu o filho deles.

— Ela nunca deixou de me amar — disse ele baixinho. — Mas escolheu o vosso pai porque achava que era o certo… para vocês.

Saí dali com o coração em pedaços e uma nova admiração pela coragem da minha mãe. Percebi finalmente porque é que ela era tão reservada, tão cheia de medos e saudades.

Quando voltei à aldeia, sentei-me com Inês à beira-rio e contei-lhe tudo.

— A mãe fez o melhor que pôde — disse ela entre lágrimas. — Talvez seja isso ser mãe: escolher sempre os outros antes de si própria.

Olhei para o céu cinzento e perguntei-me quantas famílias vivem assim: presas em segredos antigos, em dores caladas, em amores proibidos.

Agora pergunto-me: será que algum dia conseguimos perdoar os nossos pais por serem humanos? E vocês? Já descobriram algum segredo na vossa família capaz de mudar tudo?