O Segredo de Mariana: Entre o Amor de Mãe e as Feridas do Passado
— Mãe, por favor, preciso mesmo que fiques com o Tomás. Não tenho mais ninguém. — A voz da Inês tremia do outro lado da linha, e eu senti o coração apertar como se alguém me tivesse dado um murro no peito.
O relógio marcava quase meia-noite. O meu marido, António, já ressonava no sofá, exausto depois de mais um dia na agência de viagens que juntos gerimos há mais de trinta anos. Eu olhava para ele e pensava: “Como é que chegámos aqui? Como é que a nossa filha, a menina dos nossos olhos, agora me pede ajuda como se estivesse sozinha no mundo?”
— Claro, filha. O Tomás pode vir já amanhã. — respondi, tentando soar calma, mas por dentro sentia-me a desmoronar. Havia algo na voz dela que me inquietava. Não era só cansaço. Era medo. Era vergonha.
Na manhã seguinte, o Tomás chegou com uma mochila às costas e os olhos vermelhos. Tinha apenas seis anos, mas parecia carregar o peso do mundo nos ombros. Inês não entrou em casa. Ficou à porta, nervosa, olhando para o chão.
— Mãe, eu… eu vou ficar uns dias no hospital. Não te preocupes, é só para fazer uns exames. — disse ela, evitando o meu olhar.
— Exames? Mas estás doente? — perguntei, sentindo o pânico subir-me à garganta.
— Não é nada de grave. Depois explico-te tudo. — E virou costas antes que eu pudesse insistir.
Fechei a porta devagar e olhei para o Tomás. Ele não disse nada. Limitou-se a sentar-se no tapete da sala e a brincar com um carrinho velho que tinha ficado cá de quando era bebé. Senti uma tristeza funda. O silêncio dele era ensurdecedor.
Durante os dias seguintes tentei manter a rotina: pequeno-almoço com torradas e leite com chocolate, desenhos animados de manhã, passeios ao parque à tarde. Mas o Tomás não sorria. À noite, ouvia-o chorar baixinho no quarto de hóspedes.
Uma noite, não aguentei mais e fui ter com ele.
— Tomás, o que se passa? Tens saudades da mãe?
Ele encolheu os ombros e murmurou:
— A mãe chora muito quando pensa que eu não vejo.
Fiquei sem palavras. O António entrou no quarto nesse momento e sentou-se ao meu lado.
— O teu pai também sente muito a tua falta — disse ele, tentando animá-lo.
O Tomás olhou para nós com uns olhos enormes e perguntou:
— O pai vai voltar?
Foi como se alguém me tivesse dado uma bofetada. Eu sabia que o genro tinha saído de casa há meses, mas Inês nunca quis falar sobre isso. Sempre dizia: “É complicado, mãe.”
Naquela noite não dormi. Fiquei a pensar em tudo o que não sabia sobre a vida da minha filha. Sempre achei que tínhamos uma relação próxima — afinal, demos-lhe tudo: um apartamento quando casou, apoio quando nasceu o Tomás… Mas agora percebia que havia um muro entre nós.
No terceiro dia recebi uma chamada do hospital.
— Dona Mariana? Aqui é a enfermeira Ana do Hospital de Santa Maria. A sua filha pediu para avisar que vai ficar internada mais uns dias.
— Mas ela está bem? — perguntei, aflita.
— Está estável, mas precisa de repouso absoluto. Se quiser visitá-la amanhã à tarde…
O António insistiu para irmos juntos. No caminho até ao hospital quase não falámos. Cada um perdido nos seus pensamentos.
Quando entrámos no quarto da Inês, ela parecia mais frágil do que nunca. Os olhos fundos, as mãos trémulas.
— Mãe… pai… desculpem não vos ter contado tudo antes…
Sentei-me ao lado dela e peguei-lhe na mão.
— Conta-nos tudo, filha. Por favor.
Ela respirou fundo e começou:
— O Miguel foi-se embora há três meses. Disse que não aguentava mais as discussões… Eu tentei esconder-vos porque não queria preocupar-vos… Depois comecei a sentir-me mal… tonturas, dores no peito… Fui ao médico e disseram-me que estou com depressão severa.
Senti as lágrimas a correrem-me pela cara sem conseguir controlar.
— Oh filha… porque é que nunca nos disseste nada?
Ela encolheu-se na cama como uma criança assustada.
— Porque sempre quis ser forte para vocês… Sempre tive medo de vos desiludir…
O António levantou-se abruptamente:
— Isto é culpa minha! Sempre fui demasiado exigente contigo! Sempre quis que fosses perfeita!
A Inês chorava baixinho e eu abracei-a com todas as forças que tinha.
Nessa noite voltámos para casa em silêncio. O Tomás dormia profundamente quando chegámos. Sentei-me na cozinha e fiquei ali horas a olhar para as paredes brancas, tentando perceber onde é que tudo tinha começado a correr mal.
No dia seguinte liguei à minha irmã Teresa. Precisava de desabafar com alguém.
— Mariana, tu sempre foste uma mãe dedicada… Mas às vezes os filhos escondem-nos coisas para nos protegerem… ou porque têm vergonha…
As palavras dela ecoaram na minha cabeça durante dias.
Quando a Inês finalmente voltou para casa, parecia outra pessoa: mais magra, mais calada. O Tomás correu para ela e abraçou-a com tanta força que até me vieram as lágrimas aos olhos.
Durante semanas tentei aproximar-me da minha filha. Cozinhava-lhe os pratos preferidos da infância: arroz de pato, bacalhau à Brás… Sentávamo-nos à mesa mas raramente falávamos sobre o que tinha acontecido.
Uma tarde apanhei-a a chorar na varanda.
— Inês… tens de falar comigo… não podes guardar tudo aí dentro…
Ela olhou para mim com uma tristeza infinita:
— Mãe… eu sinto-me tão sozinha… Às vezes penso que não sou boa mãe… Que falhei em tudo…
Abracei-a com força:
— Ninguém nasce ensinado a ser mãe ou pai… Eu também falhei muitas vezes contigo… Mas estamos aqui umas para as outras…
A partir desse dia começámos a falar mais abertamente sobre tudo: sobre o Miguel, sobre os medos dela, sobre as minhas próprias inseguranças enquanto mãe e mulher.
O António também mudou: passou a ir buscar o Tomás à escola todos os dias e começou a brincar com ele como nunca tinha feito antes.
A nossa família nunca voltou a ser igual — mas talvez tenha ficado mais verdadeira.
Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas famílias vivem presas em silêncios e segredos por medo de desiludir quem amam? E será que alguma vez conhecemos realmente aqueles que nos são mais próximos?