O que os nossos vizinhos pensavam: Entre muros, amores e segredos

— Não faças isso, Mariana! — gritou a minha mãe da cozinha, enquanto eu fechava a porta com força. O som ecoou pelo corredor, misturando-se com o cheiro do café acabado de fazer. O meu coração batia tão rápido que mal conseguia respirar. Tinha acabado de discutir com o Miguel, outra vez, por causa dos vizinhos.

Lembro-me de quando tudo era mais simples. Cresci em Vila Nova de Gaia, numa rua onde toda a gente se conhecia pelo nome e onde as conversas se faziam à janela. A minha mãe sempre me dizia: “Os rapazes são todos iguais, Mariana. Foca-te nos estudos.” Mas o destino trocou-lhe as voltas quando conheci o Miguel no liceu. Ele era diferente: tinha um sorriso tímido e olhos castanhos que pareciam ler-me a alma. Apaixonámo-nos devagar, entre cadernos rabiscados e tardes de estudo na biblioteca municipal.

Casámo-nos cedo, talvez cedo demais para alguns. “Vais ver que não dura”, murmurava a Dona Lurdes, a vizinha do lado, sempre com o avental manchado de farinha. Mas durou. Vieram a Matilde e o Tomás, e com eles a vontade de construir algo nosso — uma casa pequena mas cheia de luz, no terreno que os meus pais nos deram.

Foi aí que começaram os olhares, os sorrisos de canto e as conversas sussurradas atrás das cortinas. Um dia, enquanto regava as flores do jardim, ouvi a Dona Lurdes cochichar à Dona Emília:

— Eles estão a fazer aquilo para juntar a Matilde ao Filipe, aposto. Sempre quiseram unir as famílias.

Senti o sangue ferver-me nas veias. A Matilde tinha apenas oito anos! Como podiam pensar uma coisa dessas? Entrei em casa furiosa e contei tudo ao Miguel.

— Deixa-os falar — disse ele, tentando acalmar-me. — Sabes como são as pessoas aqui.

Mas não era só isso. O Filipe, filho da Dona Lurdes, era um miúdo calado, sempre metido no quarto a jogar computador. A Matilde nem sequer gostava dele; dizia que era “aborrecido como chuva em agosto”.

Os meses passaram e a casa foi crescendo. Cada tijolo parecia pesar mais com os boatos que circulavam pela rua. O meu pai começou a evitar sair à rua à hora do café; a minha mãe já não sorria tanto quando ia ao mercado.

Uma tarde, enquanto pintávamos as paredes do quarto da Matilde de amarelo-torrado, ela perguntou:

— Mãe, porque é que dizem que vou casar com o Filipe?

Fiquei sem palavras. Como explicar-lhe que as pessoas inventam histórias para preencher o vazio das suas próprias vidas? Abracei-a e disse apenas:

— Tu vais escolher quem quiseres amar, filha.

Mas os rumores não pararam. Chegaram até à escola: a Matilde começou a ser gozada pelos colegas. Voltava para casa em lágrimas, recusava-se a ir às festas de aniversário e fechava-se no quarto durante horas.

O Miguel tentou falar com a Dona Lurdes:

— Por favor, pare com isto. Está a magoar a nossa filha.

Ela encolheu os ombros:

— Não tenho culpa do que as pessoas dizem.

Foi nessa altura que descobri o segredo que mudaria tudo. Uma noite, ao arrumar papéis antigos na arrecadação, encontrei uma carta da minha mãe para o meu pai. Era de há mais de vinte anos:

“Sei que prometemos unir as famílias… mas não posso obrigar a Mariana a nada. Ela tem direito à sua felicidade.”

O choque foi tão grande que me sentei no chão frio da arrecadação, incapaz de chorar ou gritar. Afinal, havia mesmo um plano antigo para me casar com o irmão da Dona Lurdes! Mas os meus pais tinham escolhido deixar-me livre.

No dia seguinte, confrontei a minha mãe:

— Porque nunca me disseste nada?

Ela baixou os olhos:

— Porque quis proteger-te. Não queria que sentisses o peso das nossas escolhas.

Senti-me traída e aliviada ao mesmo tempo. Percebi então porque é que os boatos tinham começado: eram ecos de um passado nunca resolvido.

Decidi enfrentar tudo de frente. Convidei os vizinhos para um lanche em nossa casa. O Miguel achou que eu estava louca:

— Vais mesmo pôr toda a gente na mesma sala?

— Vou. Está na hora de acabar com isto.

No dia marcado, preparei bolos e café como se fosse Natal. A sala encheu-se de vozes nervosas e olhares desconfiados. Levantei-me e contei tudo: o plano antigo dos meus pais, a escolha que fizeram por mim e como isso tinha sido importante para eu ser feliz com o Miguel.

A Dona Lurdes ficou vermelha como um tomate maduro:

— Nunca pensei…

— Pois devia ter pensado — respondi, sem conseguir conter as lágrimas. — As palavras magoam mais do que imaginam.

Houve um silêncio pesado antes do meu pai se levantar:

— Todos erramos. Mas está na hora de deixarmos o passado onde ele pertence.

A partir desse dia, as conversas à janela mudaram de tom. A Matilde voltou a sorrir; o Tomás aprendeu a andar de bicicleta sem medo dos olhares curiosos; eu e o Miguel redescobrimos o prazer das pequenas coisas — um jantar em família, um passeio à beira-rio ao domingo.

Mas às vezes ainda me pergunto: quantas vidas são moldadas por aquilo que os outros pensam? E quantas felicidades são adiadas por segredos guardados tempo demais?