O Presente Que Mudou Tudo: Entre o Orgulho, a Família e o Fim
— Mariana, não podes aceitar isso! — gritou a minha mãe, com as mãos trémulas a segurar o pano da loiça. O cheiro a café queimado enchia a cozinha, mas ninguém parecia importar-se. O meu pai olhava para o chão, calado, enquanto eu tentava encontrar palavras para responder.
— Mãe, é só um presente… — tentei argumentar, mas ela interrompeu-me logo.
— Só um presente? Achas mesmo que os pais do Miguel te estão a dar um apartamento só porque gostam de ti? — A voz dela soava amarga, quase como se estivesse a cuspir cada sílaba. — Eles querem mostrar que têm mais dinheiro do que nós, querem que tu fiques a dever-lhes!
O Miguel estava sentado ao meu lado, com o maxilar cerrado. Desde que os pais dele tinham anunciado, no jantar de noivado, que nos iam oferecer um apartamento em Lisboa como prenda de casamento, tudo tinha mudado. O meu pai já mal falava comigo. A minha mãe não parava de arranjar desculpas para não ir a casa dos sogros. E eu sentia-me presa entre dois mundos.
Lembro-me perfeitamente desse jantar. O senhor António, pai do Miguel, levantou o copo e disse:
— Achámos que seria bonito começar a vossa vida juntos com um lar vosso. Por isso, comprámos-vos um apartamento em Campo de Ourique.
A sala ficou em silêncio. A minha mãe sorriu amarelo. O meu pai tossiu e olhou para o relógio. Eu senti uma onda de calor subir-me ao rosto. O Miguel apertou-me a mão por baixo da mesa, mas eu sabia que ele estava tão desconfortável quanto eu.
Depois desse dia, tudo se tornou uma competição silenciosa. Os meus pais começaram a falar em pedir um empréstimo para nos ajudarem também. O meu pai até sugeriu vender o carro antigo para contribuir com algum dinheiro para mobilar a casa.
— Não quero que fiquem a pensar que somos uns coitadinhos — disse ele uma noite, enquanto fumava à janela.
Eu tentava acalmar os ânimos, mas sentia-me cada vez mais sufocada. O Miguel dizia que os meus pais estavam a exagerar.
— Eles deviam era ficar felizes por termos esta oportunidade — dizia ele. — Não percebo porque é que complicam tudo.
Mas eu percebia. Cresci numa família onde o orgulho era tudo. O meu pai trabalhou toda a vida como eletricista, a minha mãe como empregada de limpeza numa escola primária. Nunca tivemos muito, mas sempre houve dignidade naquilo que fazíamos. Aceitar um presente tão grande dos sogros era quase como admitir que não éramos suficientes.
As semanas passaram e as discussões intensificaram-se. A minha mãe começou a dizer coisas cruéis sobre o Miguel:
— Ele só pensa nele próprio! Nem sequer tentou perceber como isto nos faz sentir!
Eu defendia-o, mas por dentro começava a duvidar de tudo. Será que ele realmente não percebia? Ou será que não queria perceber?
O Miguel também mudou. Começou a falar do apartamento como se fosse só dele:
— Quando estivermos na nossa casa… Quando eu decorar o escritório…
Eu sentia-me uma convidada na minha própria vida.
Um sábado à tarde, fui ver o apartamento com ele e os pais dele. A mãe do Miguel mostrava-me as divisões com entusiasmo:
— Aqui podes pôr uma mesa grande para receberes os teus amigos! E este quarto é perfeito para quando tiverem filhos…
Eu sorria e acenava, mas por dentro sentia-me cada vez mais pequena. Não era aquilo que eu queria. Não daquela maneira.
Nessa noite, liguei à minha melhor amiga, a Sofia.
— Sinto que perdi o controlo da minha vida — confessei-lhe entre lágrimas.
Ela ficou em silêncio durante uns segundos e depois disse:
— Mariana, tu tens de decidir se queres viver para agradar aos outros ou para seres feliz.
As palavras dela ficaram-me na cabeça durante dias.
O casamento aproximava-se e eu sentia-me cada vez mais ansiosa. Os meus pais estavam frios comigo. O Miguel parecia distante. Até as coisas mais simples — escolher as flores, decidir o menu — transformavam-se em discussões intermináveis.
Uma noite, depois de mais uma discussão sobre os móveis da sala, explodi:
— Isto não é o casamento que eu queria! Não é esta vida que eu sonhei!
O Miguel olhou para mim como se eu fosse uma estranha.
— Então diz-me lá o que queres, Mariana! Porque eu já não percebo nada!
Fiquei em silêncio. Pela primeira vez em meses, ouvi o meu próprio coração.
No dia seguinte, fui ter com os meus pais. Sentei-me à mesa da cozinha e disse-lhes:
— Não vou casar.
A minha mãe desatou a chorar. O meu pai ficou branco como a cal.
— Mariana… — começou ele, mas eu interrompi-o.
— Não posso continuar assim. Não quero viver presa entre o vosso orgulho e as expectativas dos outros. Quero ser feliz à minha maneira.
Saí de casa sem olhar para trás. Liguei ao Miguel e pedi-lhe para nos encontrarmos no jardim onde demos o nosso primeiro beijo.
Quando cheguei lá, ele já estava à minha espera.
— Sabes porque é que me apaixonei por ti? — perguntei-lhe, com lágrimas nos olhos. — Porque eras simples. Porque me fazias sentir em casa em qualquer lado. Mas agora… agora sinto-me perdida.
Ele tentou pegar-me na mão, mas eu afastei-me.
— Preciso de tempo para mim — disse-lhe baixinho.
O Miguel não disse nada. Apenas assentiu com a cabeça e afastou-se lentamente.
Nos dias seguintes senti-me vazia, mas também estranhamente livre. Os meus pais demoraram a aceitar a minha decisão, mas aos poucos começaram a perceber que eu precisava de viver por mim própria.
Arranjei um quarto numa casa partilhada em Lisboa e comecei de novo. Foi difícil ao início — as saudades da família, do Miguel, dos sonhos que tínhamos juntos — mas aprendi a gostar da minha própria companhia.
Hoje olho para trás e percebo que aquele presente foi apenas o catalisador de tudo aquilo que estava mal na minha vida: as expectativas dos outros, o medo de desiludir quem amo, a dificuldade em dizer “não”.
Às vezes pergunto-me: quantas vezes deixamos de ser nós próprios só para agradar aos outros? E será que vale mesmo a pena sacrificar a nossa felicidade pelo orgulho alheio?