O Presente Que Despedaçou a Minha Família: Uma Noite de Natal em Lisboa
— Não acredito que fizeste isto, mãe! — gritei, com a voz embargada, enquanto o papel de embrulho caía das minhas mãos para o chão da sala, já cheia de restos de fitas e laços vermelhos. O cheiro do bacalhau ainda pairava no ar, misturado com o aroma doce do arroz-doce que a minha avó Maria preparava todos os anos. Mas naquele instante, tudo parecia azedo.
A minha mãe, a Dona Teresa, olhou-me com aqueles olhos castanhos que sempre me intimidaram. — Filipa, não era minha intenção… — tentou justificar-se, mas a minha irmã mais nova, a Inês, já estava a chorar baixinho no sofá, agarrada ao pai.
O presente era um livro. Mas não era um livro qualquer. Era o diário do meu pai, António, que ele tinha escrito nos anos em que esteve desempregado e deprimido, depois de ter sido despedido da fábrica em Almada. A minha mãe tinha-o encontrado escondido na arrecadação e achou que seria bonito devolvê-lo ao meu pai como presente de Natal. Só que, por engano — ou talvez não —, entregou-o a mim.
Quando abri o embrulho e vi a capa gasta com o nome do meu pai escrito à mão, senti um frio na espinha. Folheei as páginas e li frases soltas: “Sinto-me um fracasso”, “A Teresa já não me olha da mesma forma”, “Tenho medo de não conseguir sustentar as minhas filhas”. O silêncio caiu sobre a sala como uma manta pesada.
— Isto era privado! — o meu pai levantou-se de rompante, tirando o diário das minhas mãos. — Como é que foste capaz?
A minha mãe começou a chorar. — Eu só queria… pensei que te ia fazer bem recordar como superaste tudo isso. Não sabia que ainda te magoava…
A Inês soluçava. — Porque é que nunca nos contaram nada disto? Sempre pensei que éramos uma família normal…
O meu irmão mais velho, o João, que raramente vinha a casa desde que se mudou para o Porto, levantou-se devagar e disse: — Talvez seja altura de deixarmos de fingir que está tudo bem. Eu também tenho coisas para dizer.
O meu coração batia descompassado. Olhei para os meus pais: a minha mãe encolhida na cadeira, o meu pai de costas para todos nós, com o diário apertado contra o peito. O João respirou fundo:
— Eu nunca quis ir para Engenharia. Fiz isso porque vocês queriam. E agora estou infeliz. Não tenho coragem de vos dizer isto há anos.
A minha mãe tapou a boca com as mãos. O meu pai virou-se devagar.
— Então porque não disseste nada? — perguntou ele, num tom mais calmo do que eu esperava.
— Porque sempre tive medo de vos desiludir — respondeu o João, com os olhos marejados.
A Inês levantou-se do sofá e atirou:
— Eu também tenho medo. Medo de não ser suficiente. De não conseguir entrar em Medicina como vocês esperam.
O relógio da sala bateu as dez e meia. Lá fora, Lisboa estava fria e húmida; as luzes da cidade piscavam através da janela embaciada. Senti-me pequena, esmagada pelo peso das expectativas e dos segredos nunca ditos.
A minha avó Maria tentou quebrar o gelo:
— Meus filhos, todos temos dores e medos. Eu própria nunca contei ao vosso avô que queria ser professora e não costureira. Mas guardarmos tudo só nos afasta uns dos outros.
O silêncio voltou, mas desta vez era diferente: era pesado, mas também carregado de possibilidades.
O meu pai sentou-se ao lado da minha mãe e pegou-lhe na mão. — Teresa, desculpa ter guardado isto só para mim. Tive vergonha durante muito tempo. Mas talvez esteja na hora de falarmos mais sobre estas coisas.
A minha mãe limpou as lágrimas e olhou para nós:
— Eu só queria que este Natal fosse especial… Não sabia que ia abrir tantas feridas.
Olhei à volta: a árvore de Natal tremia com a corrente de ar da janela mal fechada; as luzes piscavam como se também elas estivessem nervosas. Senti uma vontade enorme de fugir dali, mas também uma estranha esperança de que talvez aquela noite pudesse mudar alguma coisa.
O João aproximou-se de mim e abraçou-me. — Desculpa nunca ter estado presente — murmurou ao meu ouvido.
A Inês sentou-se ao nosso lado e encostou a cabeça no meu ombro. Ficámos assim uns minutos, em silêncio, enquanto os meus pais conversavam baixinho com a avó Maria.
Depois daquela noite, nada voltou a ser igual. Durante meses quase não nos falámos: cada telefonema era curto e tenso; os almoços de domingo foram cancelados; até os aniversários passaram em branco. A minha mãe mergulhou no trabalho; o meu pai começou a sair mais sozinho; o João voltou para o Porto sem se despedir direito; a Inês fechou-se no quarto com os livros.
Eu própria sentia-me perdida: culpada por ter lido aquelas palavras do meu pai, zangada por ninguém falar abertamente sobre os problemas da família, triste por ver tudo desmoronar-se por causa de um presente mal escolhido.
Um dia, meses depois do Natal, recebi uma mensagem do João: “Queres ir tomar um café?” Aceitei sem pensar duas vezes. Encontrámo-nos num café antigo perto do Rossio. Ele parecia mais magro e cansado.
— Tenho saudades vossas — disse ele, olhando para a chávena vazia.
— Eu também — respondi. — Mas não sei como voltar atrás.
Ele sorriu tristemente:
— Talvez não seja preciso voltar atrás. Talvez só tenhamos de aprender a seguir em frente… juntos.
Nessa noite liguei à minha mãe. Ela atendeu com voz hesitante:
— Filipa?
— Mãe… podemos falar?
Chorámos as duas ao telefone durante minutos intermináveis. Depois liguei ao meu pai; depois à Inês. Aos poucos fomos reconstruindo pontes: devagarinho, com muitos silêncios pelo meio, mas também com mais honestidade do que nunca.
No Natal seguinte voltámos a reunir-nos na mesma sala. Não havia presentes caros nem grandes surpresas: só uma mesa simples, risos tímidos e muitos abraços sentidos. O diário do meu pai ficou guardado numa gaveta; mas as conversas abertas tornaram-se mais frequentes.
Hoje olho para trás e pergunto-me: será que alguma vez conhecemos verdadeiramente aqueles que amamos? Ou será que passamos a vida inteira a esconder partes de nós por medo de magoar ou desiludir?
E vocês? Já sentiram esse medo dentro da vossa própria família? Como lidam com os segredos e as expectativas?