O Preço do Silêncio: A História de Ivana e o Redescobrimento de Si Mesma

— Ivana, já te disse mil vezes que o jantar tem de estar pronto às oito! — gritou o Luís da sala, enquanto eu, com as mãos ainda molhadas da loiça, tentava controlar o tremor na voz.

A panela fervia, o cheiro do arroz queimado misturava-se com o da minha ansiedade. Olhei para o relógio: 19h57. Três minutos. Três minutos para não falhar, para não ouvir mais uma crítica, para não sentir aquele olhar de desdém que me fazia encolher por dentro. Mas o arroz queimou. E eu sabia o que vinha a seguir.

— Não consegues fazer nada direito, pois não? — disse ele, entrando na cozinha, a voz baixa mas cortante. — Nem para isto serves.

A minha vontade era gritar, atirar-lhe a panela, fugir dali. Mas limitei-me a baixar os olhos, a murmurar um pedido de desculpa, como tantas outras vezes. Senti as lágrimas a quererem saltar, mas engoli-as. Não podia mostrar fraqueza. Não podia dar-lhe esse prazer.

No silêncio da noite, depois de ele sair para fumar no quintal, sentei-me à mesa, sozinha, a olhar para o prato vazio. Oiço o riso dos vizinhos do lado, a televisão alta da Dona Graça, o miar do gato na rua. Tudo parece mais vivo do que eu. Pergunto-me quando foi que deixei de ser Ivana e passei a ser apenas “a mulher do Luís”.

Lembro-me de quando nos conhecemos, numa festa de São João em Braga. Ele era encantador, fazia-me rir, dizia que eu era especial. Os primeiros meses foram um sonho. Depois, vieram as pequenas críticas, os silêncios, os olhares de reprovação. No início, pensei que era normal, que todos os casais discutem. Mas as discussões tornaram-se rotina, e a rotina tornou-se prisão.

A minha mãe sempre dizia: “Ivana, casamento é para a vida toda. Aguenta, filha, é assim mesmo.” Mas será que é mesmo? Será que o amor é isto? Ou será que me enganei a mim mesma durante anos, só para não desiludir ninguém?

Uma noite, depois de mais uma discussão por causa de um copo partido, sentei-me no chão da casa de banho, abracei os joelhos e chorei como há muito não chorava. Oiço a voz da minha filha, a Inês, a perguntar baixinho:

— Mãe, estás bem?

Limpei as lágrimas à pressa, sorri o melhor que consegui.

— Estou, querida. Vai dormir, está bem?

Ela hesitou, mas acabou por ir. Fiquei ali, sozinha, a pensar na minha vida. O que é que estou a ensinar à Inês? Que uma mulher deve calar-se, aceitar tudo, mesmo quando dói? Que o silêncio é o preço da paz?

No dia seguinte, fui trabalhar como sempre. Sou assistente administrativa numa escola primária. Gosto do meu trabalho, das crianças, do barulho alegre dos corredores. Ali, sinto-me útil, respeitada. A minha colega, a Teresa, percebeu que eu estava diferente.

— Estás bem, Ivana? Pareces cansada.

— Não dormi muito bem, só isso.

Ela olhou para mim, séria.

— Se precisares de falar, estou aqui, sabes disso.

Agradeci, mas não disse nada. Não sabia por onde começar. Como explicar que a minha vida era uma mentira bem ensaiada?

As semanas passaram, e o peso no peito aumentava. O Luís tornou-se mais frio, mais distante. Começou a chegar tarde, a sair sem dizer para onde ia. Um dia, encontrei uma mensagem no telemóvel dele. Era de uma mulher chamada Sílvia. O coração caiu-me aos pés. Não era só o arroz queimado, o copo partido, a roupa mal passada. Era eu. Eu não era suficiente.

Confrontei-o naquela noite. O meu corpo tremia, mas a voz saiu firme:

— Quem é a Sílvia?

Ele olhou para mim, surpreso, depois irritado.

— Não te diz respeito. Se fosses uma mulher decente, eu não precisava de procurar fora de casa.

Senti uma raiva a crescer dentro de mim, uma força que não sabia que tinha.

— Não sou tua propriedade, Luís. Não tens o direito de me tratar assim.

Ele riu-se, um riso amargo.

— Vais fazer o quê? Vais embora? Não tens para onde ir. Nem coragem tens.

Fiquei em silêncio. Mas, naquela noite, tomei uma decisão. Não podia continuar assim. Não por mim, mas pela Inês. Ela merecia ver a mãe feliz, livre, inteira.

Comecei a juntar dinheiro às escondidas. Abri uma conta bancária só minha. Falei com a Teresa, contei-lhe tudo. Ela abraçou-me, chorou comigo.

— És mais forte do que pensas, Ivana. Não estás sozinha.

Procurei ajuda, falei com uma psicóloga. Foi difícil, doloroso. Tive de enfrentar os meus medos, as minhas culpas, os meus fantasmas. Mas, pouco a pouco, fui recuperando a minha voz, a minha vontade de viver.

Um dia, depois de mais uma discussão, peguei na Inês, numa mala com o essencial, e saí de casa. Fui para casa da Teresa. O Luís ligou, ameaçou, insultou. Mas eu não voltei atrás.

Os primeiros dias foram duros. Chorei muito, senti-me perdida. Mas, ao mesmo tempo, sentia uma leveza nova, uma esperança tímida. A Inês abraçava-me todas as noites, dizia:

— Gosto de te ver sorrir, mãe.

Arranjei um pequeno apartamento, com a ajuda da Teresa e da minha mãe, que, depois do choque inicial, acabou por me apoiar.

— O importante é que sejas feliz, filha. Eu devia ter-te ouvido melhor.

Aos poucos, fui reconstruindo a minha vida. Voltei a estudar à noite, tirei um curso de contabilidade. Conheci novas pessoas, fiz novas amizades. Descobri que sou capaz, que mereço ser feliz.

O Luís tentou reaproximar-se, pediu desculpa, prometeu mudar. Mas eu já não era a mesma. Disse-lhe que não havia volta atrás. Ele ficou furioso, mas eu mantive-me firme.

Hoje, olho para trás e vejo o quanto cresci. Não foi fácil. Houve dias em que quis desistir, em que o medo quase me venceu. Mas, por mim e pela Inês, continuei. Aprendi a gostar de mim, a valorizar-me. Sei que ainda tenho um longo caminho pela frente, mas agora caminho de cabeça erguida.

Às vezes, pergunto-me: quantas mulheres vivem presas ao medo, ao silêncio, à culpa? Quantas Ivana existem por aí, à espera de coragem para mudar? E tu, o que farias no meu lugar?