O preço do sangue: entre o dever e o perdão
— Não há cá mais meninos, Inês. Ou pagas a renda ou sais de casa. — A voz do meu pai, António, ecoava fria no corredor estreito do nosso apartamento em Almada. Eu tinha acabado de fazer dezoito anos. O bolo ainda estava na mesa, os restos da festa misturados com o cheiro a café e tabaco. Olhei para ele, esperando um sorriso, um abraço, qualquer coisa que me dissesse que era amada. Mas ele só me estendeu um papel, com um valor escrito a caneta: 150 euros por mês. — É o que custa o teu quarto, filha. A vida não é fácil para ninguém.
Lembro-me de ter ficado sem palavras. A minha mãe, Maria, já tinha morrido há três anos. Desde então, o meu pai parecia ter-se tornado pedra. Eu era filha única, e a casa, que antes era cheia de risos, ficou fria e silenciosa. Trabalhei num café depois das aulas, juntei moedas para pagar a renda, e cada mês era uma luta. Os meus amigos não percebiam. — O teu pai é maluco! — dizia a Joana, a minha melhor amiga. — Isso não se faz a uma filha. — Mas eu não sabia o que era normal. Só sabia que não queria dormir na rua.
Os anos passaram. Acabei o secundário, entrei na faculdade à noite, continuei a trabalhar. O meu pai nunca me perguntou como estava, nunca me deu um abraço. Só queria o dinheiro no fim do mês. Quando, aos vinte e dois, consegui um emprego melhor e aluguei um quarto em Lisboa, ele nem sequer me ajudou a levar as malas. — Cada um por si, Inês. Vais ver que é assim que se aprende a viver.
Durante anos, tentei não pensar nele. Tinha raiva, mas também uma saudade estranha. Via pais e filhas a passear no parque, a rir, e sentia um vazio. Tive namorados, mas nunca consegui confiar totalmente em ninguém. — O teu pai deixou marcas, Inês — dizia a Joana. — Tens de aprender a perdoar. — Mas como se perdoa alguém que nunca pediu desculpa?
A vida foi passando. Casei-me com o Rui, um homem bom, paciente, que me ensinou a acreditar outra vez. Tivemos uma filha, a Leonor, e jurei a mim mesma que nunca lhe faria sentir o que eu senti. A nossa casa era pequena, mas cheia de amor. O meu pai? Não o vi durante quase dez anos. O Natal era sempre difícil. A Leonor perguntava pelos avós, e eu inventava histórias. — O avô António está longe, filha. — Mas a verdade é que ele estava a vinte minutos de autocarro, e eu não tinha coragem de o procurar.
Até ao dia em que ele apareceu à minha porta. Era uma tarde de inverno, chovia a potes, e ouvi bater à porta. Abri e vi um homem envelhecido, magro, com os olhos fundos. — Inês… — disse ele, a voz tremida. — Preciso de falar contigo.
O Rui estava na sala, a Leonor a brincar no chão. Senti o coração a bater descompassado. — O que fazes aqui? — perguntei, tentando manter a voz firme. Ele olhou para mim, envergonhado. — Perdi o emprego, a reforma não chega… Estou sem dinheiro. Não tenho para onde ir. — Baixou a cabeça. — Pensei que talvez… pudesses ajudar-me.
Senti uma raiva antiga a subir-me à garganta. — Ajudar-te? Como tu me ajudaste a mim? Quando precisei de ti, mandaste-me pagar renda ou sair de casa! — O Rui levantou-se, preocupado. — Inês, calma… — Mas eu não conseguia parar. — Anos a fio, tratei-me como uma estranha! Agora vens pedir-me ajuda?
O meu pai começou a chorar. Nunca o tinha visto assim. — Eu sei que errei, filha. Mas estava perdido… Depois da tua mãe morrer, não sabia o que fazer. Achei que te estava a ensinar a ser forte. Mas só te magoei. — A voz dele era um sussurro. — Não tenho mais ninguém.
Ficámos em silêncio. O Rui olhou para mim, a Leonor parou de brincar. — Mãe, quem é este senhor? — perguntou, inocente. Senti um nó na garganta. — É o teu avô, Leonor.
Os dias seguintes foram um turbilhão. O meu pai ficou no sofá, encolhido, quase sem falar. Eu evitava-o, mas à noite ouvia-o chorar baixinho. O Rui tentava apaziguar. — Ele está arrependido, Inês. Não podes guardar esse ódio para sempre. — Mas eu não sabia como largar aquela dor.
Uma noite, sentei-me ao lado dele. — Porque é que me fizeste aquilo, pai? Porque é que nunca me deste um abraço, nunca me disseste que me amavas? — Ele olhou para mim, os olhos cheios de lágrimas. — Tinha medo, filha. Medo de te perder, medo de não ser suficiente. Depois da tua mãe, só sabia ser duro. Achei que era assim que se protegia alguém. — Abanou a cabeça. — Fui um idiota.
Chorámos juntos. Pela primeira vez, senti que ele era humano, frágil, tão perdido como eu tinha estado. Aos poucos, fomos falando mais. A Leonor adorou o avô, e ele começou a sorrir outra vez. Mas dentro de mim, a ferida ainda doía.
Os vizinhos começaram a comentar. — Agora tens o velho em casa? — perguntava a Dona Rosa, do segundo andar. — Depois do que ele te fez? — Em Portugal, toda a gente tem opinião sobre a família dos outros. Senti vergonha, raiva, mas também uma estranha compaixão. — É meu pai, Dona Rosa. Não o posso deixar na rua.
O tempo foi passando. O meu pai ajudava como podia, fazia o jantar, contava histórias à Leonor. Um dia, trouxe-me uma caixa velha. — Isto é para ti, filha. — Lá dentro estavam cartas da minha mãe, fotografias, recordações de quando eu era pequena. — Guardei isto tudo, mas nunca tive coragem de te mostrar. — Senti as lágrimas a correr. — Obrigada, pai.
Aos poucos, fui perdoando. Não porque ele merecesse, mas porque eu precisava de paz. A raiva era um peso que me impedia de ser feliz. Um dia, sentei-me com ele na varanda, a ver o pôr do sol. — Sabes, pai, sempre quis que me dissesses que me amavas. — Ele pegou na minha mão, com os olhos húmidos. — Amo-te, Inês. Sempre te amei, só não sabia como mostrar.
Hoje, olho para trás e vejo o quanto sofri, o quanto nos magoámos. Mas também vejo que a família é feita de erros, de perdão, de tentativas falhadas de amar. O meu pai não foi o pai que eu precisava, mas foi o pai que tive. E agora, no fim da vida dele, posso escolher: continuar a carregar o passado ou construir um novo começo.
Às vezes pergunto-me: quantos de nós vivem presos ao que nos fizeram, incapazes de perdoar? Será que o sangue basta para sermos família, ou é preciso mais? E vocês, o que fariam no meu lugar?