O Peso do Silêncio: Quando o Amor de Mãe Não Basta
— Não percebes, mãe? Toda a gente tem pais que ajudam! — O grito da Inês ecoou pela casa pequena, batendo nas paredes como um trovão inesperado. Eu estava sentada à mesa da cozinha, as mãos trémulas a segurar uma chávena de chá já frio. O cheiro do pão torrado misturava-se com o amargo da humilhação.
Olhei para ela, tão bonita e tão zangada, com os olhos brilhantes de lágrimas e raiva. Tentei falar, mas a voz saiu-me fraca, quase um sussurro:
— Inês, filha… Eu dei-te tudo o que tinha. Dei-te a minha vida.
Ela virou-me as costas, os ombros tensos. — Isso não chega agora! Preciso de dinheiro, mãe. Preciso de ajuda. Não quero ser a única do grupo que não tem nada. — A voz dela partiu-me o coração em mil pedaços.
Fiquei ali sentada, sozinha com o silêncio pesado. O relógio da parede marcava as horas como se me lembrasse de cada sacrifício feito: os anos a dar aulas na escola primária de Vila Nova de Gaia, as noites sem dormir para corrigir testes, os dias em que me privava de tudo para que à Inês nada faltasse. E agora, na reforma, com uma pensão que mal chega para pagar a renda e os medicamentos, ela diz-me que se envergonha de mim.
Lembro-me do dia em que o pai dela nos deixou. Inês tinha apenas sete anos e eu prometi-lhe que nunca lhe faltaria nada. Trabalhei até à exaustão. Recusei convites para sair, nunca viajei, nunca comprei roupa nova para mim. Tudo era para ela: os livros, as explicações, as roupas bonitas para as festas da escola. E agora… agora sou um peso.
— Mãe, não percebes? — Ela voltou à cozinha, olhos vermelhos. — Hoje em dia toda a gente tem pais que ajudam com a entrada para um apartamento, com o carro… Eu nem posso sair com os meus amigos porque não tenho dinheiro para nada! Eles perguntam-me porque é que tu não me ajudas…
— Inês… — tentei agarrar-lhe na mão, mas ela afastou-se.
— Não quero ouvir desculpas! — gritou. — Tenho vergonha! Vergonha de ti! — E saiu porta fora, deixando-me sozinha com o som da porta a bater.
Chorei baixinho, para não me ouvirem os vizinhos. Senti-me pequena, inútil. O telefone tocou — era a minha irmã, Teresa.
— Maria do Carmo? Está tudo bem?
Tentei disfarçar a voz embargada:
— Está tudo… mais ou menos.
— A Inês outra vez?
— Sim… Ela diz que tem vergonha de mim porque não posso ajudá-la como os outros pais.
Do outro lado ouvi um suspiro pesado.
— Tu sempre foste uma mãe exemplar. Ela vai perceber isso um dia.
Mas será? Será que algum dia vai perceber? Ou será que o mundo mudou tanto que já não há espaço para mães como eu?
Os dias passaram lentos. Inês evitava-me. Saía cedo, chegava tarde. Mal me olhava nos olhos. Uma noite ouvi-a ao telefone no quarto:
— A minha mãe? Esquece… Ela não pode ajudar com nada. Nem sei porque é que ainda tento… — A voz dela era fria, distante.
No dia seguinte tentei falar com ela ao pequeno-almoço.
— Inês, filha… Se precisares de falar comigo…
Ela nem levantou os olhos do telemóvel.
— Não vale a pena, mãe. Já percebi que não podes fazer nada por mim.
Aquelas palavras doeram mais do que qualquer bofetada. Senti-me invisível na minha própria casa.
Comecei a evitar sair à rua. Tinha vergonha dos olhares dos vizinhos, das perguntas sobre a Inês. No supermercado, a dona Rosa perguntou:
— Então e a sua menina? Já está a trabalhar?
Sorri amarelo:
— Está à procura…
O que não disse foi que Inês recusava empregos porque achava que eram “abaixo dela”. Queria algo melhor, algo digno do esforço que eu fiz por ela. Mas o mundo real não é assim tão generoso.
Uma tarde chuvosa recebi uma carta do banco: o aumento da renda ia deixar-me ainda mais apertada. Sentei-me na sala escura e chorei como uma criança perdida.
Nessa noite sonhei com o passado: eu e a Inês no parque, ela pequenina a correr atrás dos pombos, a rir-se para mim como se eu fosse o centro do universo dela. Acordei com o coração apertado de saudade.
No domingo seguinte fui à missa sozinha. Rezei por paciência e força. No regresso encontrei a vizinha Lurdes à porta:
— Ouvi barulho ontem à noite em sua casa… Está tudo bem?
Encolhi os ombros:
— São coisas de família…
Ela pousou-me uma mão no braço:
— Os filhos às vezes esquecem-se do quanto as mães dão por eles.
Assenti em silêncio.
À noite decidi escrever uma carta à Inês. Não sabia se ela iria ler, mas precisava de dizer tudo o que sentia:
“Minha filha,
Sei que te desiludi. Sei que gostavas de ter uma mãe diferente — uma mãe rica, talvez, ou pelo menos uma mãe capaz de te dar tudo o que pedes agora. Mas só tenho isto para te dar: amor e memórias de uma vida inteira dedicada a ti. Se algum dia perceberes o valor disso, estarei aqui. Sempre tua mãe.”
Deixei a carta na almofada dela e fui dormir cedo.
No dia seguinte encontrei-a sentada à mesa da cozinha com os olhos inchados de chorar.
— Mãe… Desculpa — murmurou ela, quase sem voz.
Sentei-me ao lado dela e abracei-a devagarinho.
— Eu só queria sentir que pertenço… Que sou igual aos outros… — confessou ela entre soluços.
— Filha… Ninguém é igual aos outros. E eu dei-te tudo o que pude dar.
Ela encostou-se ao meu ombro como fazia em criança.
— Tenho medo de falhar contigo…
Abracei-a mais forte.
— Nunca falhaste comigo só por não teres dinheiro ou sucesso imediato. O importante é seres boa pessoa e lutares pelo teu caminho.
Ela chorou mais um pouco e depois levantou-se para ir trabalhar num café perto de casa — não era o emprego dos sonhos dela, mas era um começo.
Os dias seguintes foram mais calmos. Inês começou a falar comigo outra vez, ainda com alguma distância mas menos raiva. Às vezes apanhava-a a olhar para mim com tristeza nos olhos — talvez arrependida das palavras duras que me atirou.
Hoje escrevo esta história sentada na mesma cozinha onde tantas lágrimas caíram sobre esta mesa de madeira gasta pelo tempo e pelo uso. Pergunto-me se algum dia as mães vão deixar de ser julgadas pelo dinheiro que têm ou deixam de ter para dar aos filhos. Será que algum dia o amor vai voltar a valer mais do que tudo o resto?
E vocês? Acham mesmo que o dinheiro pode substituir o amor e a dedicação de uma mãe?