O Peso do Regresso: Uma Mãe Entre Dois Mundos
— Mãe, não podes continuar a viver assim! — gritou a Mariana, com os olhos marejados de lágrimas, enquanto eu tentava esconder as minhas mãos trémulas atrás das costas. O eco da sua voz ressoou na cozinha fria do pequeno apartamento que aluguei em Almada, depois de vinte anos a viver em França.
A minha filha olhava para mim como se eu fosse uma criança perdida. E talvez fosse. Porque, apesar dos meus cinquenta e dois anos, sentia-me mais frágil do que nunca. O regresso a Portugal era suposto ser o meu recomeço, mas tudo o que encontrei foi uma nova forma de solidão.
Quando me divorciei do António, há mais de duas décadas, jurei a mim mesma que a Mariana teria uma vida melhor do que a minha. Fui para Lyon com ela nos braços, sem falar uma palavra de francês, sem dinheiro, apenas com a esperança teimosa de mãe. Trabalhei em limpezas, cozinhas, fábricas — tudo o que aparecia. Aguentei humilhações, saudades, noites sem dormir. Mas nunca me permiti chorar à frente dela.
Agora, sentada à mesa da minha filha, vejo-a adulta, casada com o Pedro — um rapaz simpático mas distante — e sinto que perdi o fio à meada da minha própria vida. Eles têm o seu mundo: empregos estáveis, amigos, planos de férias. Eu sou um corpo estranho na casa deles, um incómodo temporário.
— Não é assim tão simples — tentei responder, mas a voz saiu-me rouca. — Arranjar casa agora está impossível. Os preços estão pela hora da morte e o meu ordenado mal chega para as contas.
Mariana suspirou e desviou o olhar para o Pedro, que mexia no telemóvel sem se envolver. — Podemos ajudar-te com alguma coisa — disse ela, mas percebi logo que era mais obrigação do que vontade.
Lembrei-me dos meus pais, já falecidos, e da casa onde cresci em Setúbal. Tantas vezes sonhei regressar àquele lar, mas agora só restam memórias e dívidas antigas. O meu irmão João herdou tudo e pouco quer saber de mim. Quando lhe liguei a pedir ajuda, respondeu seco:
— Cada um tem a sua vida, Teresa. Não posso resolver os teus problemas.
Aquela frase ficou-me cravada no peito como uma farpa. Sempre fui eu a sacrificar-me pela família: cuidei dos meus pais até ao fim, ajudei o João quando ficou desempregado. Agora, ninguém tem tempo para mim.
As noites são as piores. Deito-me no sofá-cama do pequeno quarto arrendado e ouço os vizinhos discutirem através das paredes finas. Sinto falta do cheiro dos campos franceses ao amanhecer, do silêncio das ruas geladas onde caminhava para o trabalho. Lá era estrangeira; aqui sou uma estranha na minha própria terra.
No supermercado, conto as moedas antes de pagar. A reforma ainda está longe e os trabalhos de limpeza são cada vez mais raros. Uma vez encontrei a dona Rosa, uma vizinha de infância:
— Teresa! Estás tão diferente… Então voltaste? — perguntou ela com aquele tom meio piedoso.
— Voltei — respondi, forçando um sorriso. — Mas não sei se fiz bem.
Ela abanou a cabeça: — Isto aqui está cada vez pior. Os nossos filhos vão todos embora… E tu voltas?
Senti-me ridícula. Tinha fugido para dar uma vida melhor à Mariana e agora era eu quem precisava de ajuda.
Os conflitos com a Mariana começaram a aumentar. Pequenas coisas: o leite fora do prazo no frigorífico, as roupas espalhadas pela casa, o Pedro a reclamar do barulho da televisão à noite.
— Mãe, tens de perceber que isto não é só tua casa — disse ela um dia, num tom frio que nunca lhe conheci.
— Eu sei… Não quero incomodar — respondi baixinho.
Mas incomodava. Sentia-o no olhar do Pedro quando chegava tarde do trabalho ou quando ocupava demasiado tempo na casa de banho. Sentia-o na forma como Mariana evitava conversas profundas comigo.
Uma noite, depois de mais uma discussão sobre dinheiro — sempre o dinheiro — fechei-me no quarto e chorei como há anos não chorava. Senti-me inútil, descartável. Pensei em voltar para França, mas já não tinha forças nem idade para recomeçar outra vez.
No dia seguinte, Mariana entrou no quarto sem bater:
— Mãe… desculpa por ontem. Eu só… isto é difícil para todos nós.
Olhei para ela e vi a menina que levei pela mão para o primeiro dia de escola em Lyon. Quis abraçá-la, mas ela manteve-se à distância.
— Vou tentar encontrar outro sítio para ficar — disse-lhe. — Não quero ser um peso.
Ela abanou a cabeça: — Não és um peso… Só precisamos de espaço.
Espaço… Como se o espaço resolvesse tudo.
Comecei a procurar quartos para alugar em sites e grupos do Facebook. Os preços eram absurdos: 400 euros por um cubículo sem janela; 600 por um T0 partilhado com estudantes barulhentos. Liguei para agências imobiliárias e ouvi sempre a mesma resposta:
— Tem recibos? Fiador? Contrato fixo?
Nada disso tinha. Só tinha vontade de ter um canto meu onde pudesse respirar sem pedir licença.
Numa tarde chuvosa, sentei-me num banco do jardim perto da casa da Mariana e vi crianças a brincar sob o olhar atento das mães jovens. Senti inveja daquela leveza que já não me pertencia.
O telefone tocou: era o João.
— Olha… estive a pensar no que disseste — começou ele, hesitante. — Talvez possas ficar uns tempos na casa velha em Setúbal… Está meio degradada, mas é melhor do que nada.
O coração bateu mais forte. A casa dos meus pais! Talvez ali pudesse recomeçar outra vez…
— Obrigada, João… Nem sabes quanto isto significa para mim.
Ele resmungou qualquer coisa sobre contas por pagar e desligou depressa demais.
Fui ver a casa no fim-de-semana seguinte. Estava cheia de pó e humidade; as janelas empenadas deixavam entrar o vento frio do Tejo. Mas era minha — ou quase minha.
Passei dias a limpar, a pintar paredes com as mãos doridas e os joelhos gastos pelo tempo. Cada canto trazia recordações: risos de infância, discussões dos meus pais, o cheiro do pão quente ao domingo.
Mariana veio ajudar-me um sábado à tarde. Ficámos as duas sentadas no chão da sala vazia, rodeadas de caixas velhas.
— Lembras-te disto? — perguntei-lhe, mostrando-lhe uma fotografia dela em pequena no jardim da casa.
Ela sorriu pela primeira vez em semanas: — Lembro… Era feliz aqui.
— Eu também — confessei.
O silêncio instalou-se entre nós, confortável pela primeira vez desde o meu regresso.
Agora vivo sozinha na casa dos meus pais. Não é perfeita: chove dentro da cozinha quando há tempestade; às vezes falta gás; outras vezes falta companhia. Mas é o meu refúgio.
A Mariana visita-me aos fins-de-semana com o Pedro e às vezes trazem notícias boas: talvez venha aí um neto; talvez consiga finalmente aquele emprego melhor; talvez possamos todos ser família outra vez.
Às vezes pergunto-me se fiz bem em voltar ou se teria sido mais fácil ficar longe e guardar apenas as memórias boas. Mas depois olho para o sol a pôr-se sobre o rio e penso: será que algum dia encontramos mesmo o nosso lugar? Ou será que passamos a vida toda à procura dele?
E vocês? Já sentiram que não pertencem nem aqui nem ali? O que fariam no meu lugar?