O Pai que Comia Papas de Aveia para o Filho Comer Bife – Uma História de Orgulho, Amor e Desilusão
— Outra vez papas de aveia, pai? — perguntou o Miguel, franzindo o nariz enquanto eu lhe servia o prato. O cheiro do bife a fritar na frigideira ainda pairava no ar da cozinha pequena do nosso apartamento em Almada. Eu sorri, tentando esconder o aperto no peito.
— O médico disse que me faz bem ao colesterol, filho. — Menti. A verdade era mais dura: a minha reforma mal dava para as contas e, se queria que o Miguel tivesse uma refeição decente antes da escola, tinha de me contentar com papas de aveia e pão seco.
Miguel tinha dezassete anos e um apetite de leão. Estava a acabar o secundário e sonhava entrar em Engenharia Informática na Universidade de Lisboa. Sempre lhe disse que podia ser o que quisesse, desde que estudasse. Mas nunca lhe contei que, para isso, eu próprio deixara de ser quase tudo.
A minha mulher, a Teresa, partira há cinco anos. Cancro. Desde então, éramos só nós dois. Eu reformado antecipadamente da Carris, depois de um acidente que me deixou com uma perna coxa e uma pensão miserável. O Miguel era tudo o que me restava.
— Pai, não te importas mesmo? — perguntou ele, já com o garfo espetado no bife suculento. — Se quiseres, dividimos.
— Come tu, rapaz. Precisas mais do que eu. — Forcei um sorriso e bebi um gole de café fraco. Por dentro, doía-me não poder dar-lhe mais. Doía-me ainda mais saber que ele começava a perceber.
Naquela noite, depois de lavar a loiça, sentei-me no sofá gasto da sala e liguei a televisão. O Miguel estava no quarto, a estudar. Ouvi-o falar baixinho ao telemóvel com a namorada, a Inês. Sorri ao ouvir-lhe o riso abafado. Pelo menos isso ainda lhe podia dar: uma casa quente e tranquila.
Mas nem sempre foi assim.
Lembro-me do dia em que o Miguel chegou a casa com as notas do primeiro período do 12º ano. Tinha tido 14 a Matemática. Para ele era pouco; para mim era um milagre.
— Desculpa, pai. — murmurou ele, cabisbaixo.
— Não tens de pedir desculpa por nada! — respondi, talvez demasiado alto. — Fizeste o teu melhor?
Ele assentiu.
— Então é isso que importa.
Mas eu sabia que não era suficiente para entrar no curso que queria. E sabia também que não podia pagar explicações.
Nessa noite, depois de ele se deitar, sentei-me à mesa da cozinha com a calculadora na mão e as contas todas espalhadas: luz, água, renda, supermercado… Faltavam sempre uns euros no fim do mês. Pensei em pedir ajuda ao meu irmão mais velho, o António, mas há anos que não falávamos desde aquela discussão por causa da herança da mãe.
A Teresa costumava dizer: “O orgulho é bonito mas não põe comida na mesa.” Senti-lhe a falta como nunca.
No dia seguinte, fui ao café do senhor Joaquim procurar trabalho extra. Ele olhou-me de cima a baixo.
— Ó Zé, tu já não tens idade para andar a carregar caixotes…
— Preciso de arranjar uns trocos para o miúdo — disse-lhe baixinho.
Ele suspirou e acabou por me deixar ajudar nas limpezas ao fim do dia. Pagava pouco, mas era melhor do que nada.
Durante meses fiz esse turno extra sem contar ao Miguel. Chegava a casa tarde, cansado e com dores na perna. Mas bastava ver-lhe o sorriso quando lhe comprava um livro novo ou um par de ténis para sentir que valia a pena.
Até ao dia em que ele descobriu.
Foi numa sexta-feira chuvosa. Cheguei encharcado e encontrei-o à porta do prédio à minha espera.
— Onde estiveste? — perguntou desconfiado.
Tentei inventar uma desculpa qualquer mas ele não acreditou.
— Estás a trabalhar nas limpezas do café? Porquê? Não precisas de fazer isso por mim!
— Claro que preciso! — gritei-lhe sem querer. — És meu filho! Quero dar-te tudo o que puderes sonhar!
Ele olhou-me nos olhos e vi ali uma mistura de raiva e tristeza.
— Não quero que te sacrifiques assim! Não quero ser um peso!
Ficámos os dois ali parados à chuva durante minutos intermináveis. Depois ele entrou em casa sem dizer mais nada.
Nessa noite não jantámos juntos. Senti-me derrotado como nunca antes.
Os dias seguintes foram frios e silenciosos entre nós. O Miguel começou a sair mais vezes com os amigos e eu temi perdê-lo para sempre.
Até que uma noite ele entrou na sala e sentou-se ao meu lado no sofá.
— Pai… desculpa ter sido injusto contigo. Eu só… tenho medo de te perder também.
Abracei-o como se fosse ainda um miúdo pequeno e chorei baixinho para ele não ouvir.
Passaram-se meses assim: eu a tentar dar-lhe tudo e ele a tentar mostrar-me que não precisava de tanto sacrifício. Mas como explicar-lhe que um pai nunca deixa de querer proteger um filho?
Quando chegou o dia dos exames nacionais, vi-o sair de casa nervoso mas determinado. Esperei ansiosamente pelo resultado como se fosse eu quem ia ser avaliado.
Quando finalmente chegou a carta da universidade, abri-a com as mãos trémulas enquanto ele me olhava ansioso.
— Entrei! — gritou ele num salto. — Entrei em Engenharia Informática!
A alegria foi tanta que me esqueci das dores todas do corpo e até das contas por pagar naquele mês.
Mas a felicidade durou pouco.
Pouco tempo depois de começar as aulas, o Miguel começou a vir menos vezes a casa. Arranjou um part-time numa loja para ajudar nas despesas e dizia sempre que estava cansado demais para jantar comigo.
Senti-me orgulhoso mas também vazio. A casa parecia maior e mais fria sem ele.
Um domingo à tarde tentei ligar-lhe para saber se vinha jantar. Atendeu com voz apressada:
— Não posso hoje, pai. Tenho de estudar para um teste importante…
Desligou antes de eu conseguir dizer-lhe que tinha feito arroz de pato como ele gostava.
Os meses passaram e as chamadas tornaram-se cada vez mais raras. No Natal desse ano, veio jantar connosco mas passou quase todo o tempo ao telemóvel com os amigos ou fechado no quarto.
Depois do jantar sentei-me sozinho na sala a olhar para a árvore de Natal vazia de presentes e cheia de recordações antigas.
Foi então que percebi: talvez tivesse dado tudo ao Miguel menos aquilo que realmente importava — tempo juntos, conversas sinceras, partilha das pequenas alegrias da vida.
Na noite da passagem de ano escrevi-lhe uma carta:
“Filho,
Sei que tentei dar-te tudo o que podia materialmente, mas talvez tenha falhado no resto. Só queria que soubesses que estou sempre aqui para ti, mesmo quando não pareço precisar de nada.”
Deixei-a em cima da secretária dele antes de ir dormir.
Na manhã seguinte encontrei um bilhete dele na cozinha:
“Pai,
Obrigado por tudo o que fizeste por mim. Prometo tentar estar mais presente.”
Não sei se algum dia voltaremos a ser tão próximos como antes. Mas aprendi que o amor não se mede pelos sacrifícios feitos em silêncio nem pelas refeições partilhadas ou não partilhadas à mesa.
Agora pergunto-me: será que valeu mesmo a pena abdicar tanto por quem amamos? Ou será que devíamos aprender a amar-nos também um pouco mais? E vocês… já sentiram isto na vossa família?