O Meu Dinheiro ou a Minha Liberdade? A História de Joana, que Teve Medo de Partir

— Joana, já transferiste o teu ordenado para a minha conta? — perguntou o Miguel, com aquela voz fria que me fazia estremecer por dentro.

Olhei para ele, sentado à mesa da cozinha, o jornal aberto à sua frente como se nada fosse. O cheiro do café misturava-se com o da torrada queimada, mas eu só sentia um nó no estômago. Era o terceiro dia do mês. Sempre o mesmo ritual. Desde o dia em que dissemos o “sim” na igreja de São Vicente, em Braga, eu entregava-lhe tudo. No início, pensei que era normal, que era assim que os casais funcionavam. Ele dizia: “É para o bem da família, Joana. Eu sei gerir melhor.” E eu, ingénua, acreditava.

Os anos passaram e fui-me apagando. Trabalhava como administrativa numa escola primária, sorria para os colegas e fingia que tudo estava bem. Mas dentro de mim crescia uma revolta silenciosa. Não tinha dinheiro para comprar um vestido novo ou para tomar um café com as amigas sem pedir autorização ao Miguel. Até para comprar um presente para a minha mãe no aniversário dela, tinha de justificar cada cêntimo.

A minha mãe sempre desconfiou. “Joana, filha, não me parece certo… O teu pai nunca me pediu o ordenado.” Mas eu defendia o Miguel. “Oh mãe, ele só quer o melhor para nós.”

Mas será que queria mesmo?

Certa noite, depois de mais uma discussão porque comprei um livro sem lhe dizer — “Desperdício! Para quê livros?” — fechei-me na casa de banho e chorei baixinho. Olhei-me ao espelho e quase não me reconheci. Os olhos fundos, a pele pálida, o sorriso perdido algures entre as contas da casa e as exigências do Miguel.

No trabalho, a minha colega Teresa percebeu que algo não estava bem.
— Joana, tens andado tão calada… Se precisares de falar…

Quis contar-lhe tudo, mas calei-me. Vergonha? Medo? Nem eu sabia.

O tempo foi passando e a pressão aumentava. O Miguel começou a controlar até as minhas mensagens no telemóvel. Uma vez apanhou-me a falar com a Teresa sobre um jantar de colegas e fez uma cena tão grande que fiquei dias sem dormir.

— Achas que eu sou parvo? Andas a esconder coisas de mim? — gritava ele.

— Não, Miguel… Era só um jantar do trabalho…

— Não vais! E acabou-se!

Senti-me uma criança castigada. Mas eu tinha 34 anos.

A gota de água foi quando descobri que ele tinha levantado dinheiro da nossa conta para apostar no jogo. Sempre me disse que era contra casinos e raspadinhas. Mas encontrei os talões no bolso do casaco dele enquanto lavava a roupa.

— Miguel, isto é o quê?

Ele tirou-me os talões das mãos e atirou-os para o lixo.
— Não te metas onde não és chamada!

Naquela noite dormi no sofá. O silêncio da casa parecia gritar comigo: “Sai daqui!” Mas eu sentia-me presa numa teia invisível feita de medo e culpa.

Comecei a juntar moedas num frasco escondido atrás dos pacotes de arroz na despensa. Era pouco — uns trocos aqui e ali — mas era meu. Só meu. Cada moeda era um pequeno acto de rebeldia.

A Teresa percebeu que algo estava mesmo mal quando cheguei ao trabalho com um olho inchado.
— Joana! O que aconteceu?

— Bati com a porta do armário… — menti.

Ela não acreditou. Levou-me ao gabinete dela e fechou a porta.
— Joana, não podes continuar assim. Tens família? Amigos? Precisas de ajuda?

Chorei tudo ali. Contei-lhe tudo: o dinheiro, os gritos, as humilhações, até aquele estalo que ele me deu porque cheguei tarde do supermercado.

A Teresa abraçou-me e disse:
— Não estás sozinha. Eu vou ajudar-te.

Com a ajuda dela e da assistente social da escola, comecei a planear a minha saída. Tinha medo — tanto medo! — mas também uma esperança tímida.

Na véspera de sair de casa, sentei-me à mesa da cozinha e olhei para o Miguel.
— Amanhã vou sair de casa. Quero a minha vida de volta.

Ele riu-se na minha cara.
— Vais viver do quê? Achas que alguém te quer? Sem mim não és nada!

As palavras dele doeram mais do que qualquer estalo. Mas eu já não era aquela Joana submissa de antes. Levantei-me devagar e disse:
— Prefiro ser nada sozinha do que ser ninguém contigo.

Na manhã seguinte, saí com uma mala pequena e o frasco das moedas no fundo da mochila. Fui para casa da minha mãe. Ela chorou quando me viu à porta.
— Filha… finalmente!

Os primeiros dias foram difíceis. Sentia-me perdida, culpada por ter deixado tudo para trás — até os meus gatos ficaram com ele porque ele não deixou levá-los.

Mas aos poucos fui recuperando. A Teresa ligava-me todos os dias. A minha mãe fazia-me chá ao fim da tarde e ouvia-me desabafar sem julgar.

Comecei a guardar parte do meu ordenado numa conta só minha. Comprei um vestido novo — azul escuro, como sempre quis — e fui tomar café com as amigas sem pedir licença a ninguém.

O Miguel tentou ligar-me várias vezes. Mandou mensagens: “Volta para casa.” “Sem ti não sou nada.” “Desculpa.” Mas eu não respondi.

Um dia encontrei-o na rua, perto do supermercado onde costumávamos ir juntos. Ele olhou para mim como se eu fosse uma estranha.
— Joana…

Olhei-o nos olhos e senti pena dele — mas não saudade.
— Adeus, Miguel.

Hoje olho para trás e pergunto-me: porque é que demorei tanto tempo a perceber que merecia mais? Porque é que tantas mulheres ainda vivem presas ao medo?

E tu? O que farias se tivesses de escolher entre o teu dinheiro… ou a tua liberdade?