O Dilema de Dona Teresa: Entre o Amor e a Culpa

— Teresa, por favor, não faças isso outra vez — sussurrou o meu marido, António, enquanto eu pousava cuidadosamente o prato de sopa à frente da Avery, com um sorriso que só ela conseguia arrancar de mim. Zachary, sentado na sua cadeirinha ao lado, olhava-me com aqueles olhos grandes e castanhos, esperando o mesmo gesto. Mas eu hesitei.

Avery, com os seus oito anos, era a luz dos meus dias. Desde que nasceu, trouxe-me uma alegria que pensei já não ser possível sentir depois de tantos anos de rotina e silêncios nesta casa que comprámos com a ajuda dos meus pais e dos sogros. Lembro-me do dia em que a minha filha, Sofia, entrou pela porta com aquele bebé nos braços, e eu senti o peito a explodir de orgulho e ternura. Avery era curiosa, faladora, cheia de perguntas e de sonhos. Sempre que vinha cá a casa, corria para o meu colo, contava-me tudo sobre a escola, os amigos, os desenhos que fazia. Eu via nela uma continuação de mim mesma, uma esperança renovada.

Mas quando Zachary nasceu, dois anos atrás, tudo foi diferente. Não sei explicar. Talvez fosse o cansaço, talvez o medo de não conseguir amar outro neto como amava a Avery. Ele era um bebé calado, chorava muito, e eu nunca consegui decifrar o que queria. Sofia dizia que era normal, que cada criança é diferente, mas eu sentia-me distante, quase fria. E isso doía-me mais do que qualquer outra coisa.

— Teresa, ele é só um bebé — insistia António, baixinho, enquanto Zachary começava a bater com a colher na mesa, impaciente.

— Eu sei, António, eu sei… — respondi, sentindo a culpa a apertar-me o peito. — Mas não consigo. Não é igual. Não é justo, mas não é igual.

Avery olhou para mim, com aquele olhar atento que só ela tem.

— Avó, posso mostrar-te o desenho que fiz na escola? — perguntou, já a saltar da cadeira.

— Claro, querida, mostra lá — disse, tentando ignorar o olhar triste de Zachary, que agora choramingava baixinho.

Sofia entrou na cozinha nesse momento, com o rosto cansado de quem já não dorme há semanas.

— Mãe, podes ficar com eles esta tarde? Preciso mesmo de descansar um pouco — pediu, quase em súplica.

Assenti, mas o coração apertou-se ainda mais. Ficar com Avery era sempre um prazer, mas com Zachary… sentia-me perdida. Ele não falava muito, não sorria como a irmã, e eu não sabia como chegar até ele.

Depois do almoço, levei-os ao jardim. Avery correu para o baloiço, rindo alto, enquanto Zachary ficou parado, a olhar para as flores. Aproximei-me dele, tentei pegar-lhe ao colo, mas ele afastou-se, desconfiado.

— Queres brincar, Zachary? — perguntei, forçando um sorriso.

Ele abanou a cabeça e continuou a olhar para o chão. Senti uma raiva irracional a crescer dentro de mim. Por que não era fácil? Por que não conseguia amá-lo como amava a Avery?

O tempo passou devagar. Avery falava sem parar, mostrava-me folhas, pedras, inventava histórias. Zachary limitava-se a observar, em silêncio. Quando Sofia voltou, suspirou de alívio.

— Obrigada, mãe. Preciso mesmo de ti — disse, abraçando-me.

Sorri, mas por dentro sentia-me uma fraude. Não era a avó que ela pensava que eu era. Não era justa com os meus netos.

À noite, sentei-me com António na sala, o silêncio pesado entre nós.

— Teresa, tens de tentar. Ele é teu neto também. Não podes continuar assim — disse ele, com uma tristeza que me magoou.

— Eu sei, António. Mas não sei como. Sinto-me uma estranha ao pé dele. Com a Avery tudo é fácil, natural. Com o Zachary… parece que há uma parede entre nós.

— Talvez seja porque ele é diferente. Talvez precise de ti de outra forma. Já pensaste nisso?

Fiquei a pensar nas palavras dele. Talvez estivesse a tentar encaixar Zachary no molde da Avery, a exigir dele o mesmo brilho, a mesma alegria. Mas ele era outro ser, com outro ritmo, outro mundo.

Os dias passaram, e a culpa tornou-se uma sombra constante. Sempre que via Zachary, sentia-me a falhar. Sofia começou a notar.

— Mãe, o que se passa contigo e o Zachary? — perguntou um dia, depois do jantar.

— Nada, filha. Só… não sei lidar com ele. Não sei o que fazer — confessei, a voz embargada.

— Ele é só um bebé, mãe. Precisa de ti. Não precisa que sejas perfeita, só precisa que estejas lá.

Chorei nessa noite, sozinha na cozinha. Senti-me a pior avó do mundo. Lembrei-me da minha própria avó, da forma como ela fazia diferença entre mim e os meus primos. Sempre me doeu, sempre me senti menos. E agora, sem querer, estava a repetir o mesmo erro.

No domingo seguinte, Sofia trouxe os miúdos para almoçar. Avery entrou a correr, como sempre, mas Zachary ficou à porta, hesitante. Ajoelhei-me ao nível dele.

— Olá, Zachary. Queres vir brincar comigo? — perguntei, tentando não soar desesperada.

Ele olhou para mim, desconfiado, mas depois deu-me a mão. Senti uma onda de emoção a atravessar-me. Fomos para o jardim, e sentei-me com ele na relva. Ficámos ali, em silêncio, a ver as formigas a trabalhar. Não forcei conversa, não tentei que ele fosse como a irmã. Só estive ali, com ele.

Avery juntou-se a nós, e pela primeira vez vi Zachary sorrir. Um sorriso tímido, mas verdadeiro. O meu coração derreteu-se um pouco. Talvez fosse este o caminho. Estar presente, sem exigir, sem comparar.

Mas a culpa não desapareceu. Sempre que dava mais atenção à Avery, sentia o peso do olhar de Zachary. Sempre que tentava aproximar-me dele, sentia-me artificial, forçada. António tentava ajudar, mas eu sabia que era um problema meu, uma ferida antiga que não sabia como sarar.

Uma tarde, enquanto Sofia e o marido discutiam na sala — mais uma vez sobre dinheiro, sobre as contas da casa, sobre as ajudas que tinham recebido dos pais —, fiquei sozinha com os miúdos. Avery desenhava, Zachary brincava com blocos. Sentei-me ao lado dele, em silêncio. De repente, ele estendeu-me um bloco azul.

— Avó — disse, pela primeira vez, olhando-me nos olhos. — Ajuda.

O meu coração parou. Peguei no bloco, ajudei-o a encaixar as peças. Ele sorriu. Senti as lágrimas a subir, mas engoli-as. Talvez nunca venha a amar Zachary da mesma forma que amo a Avery. Mas posso aprender a amá-lo à minha maneira, no tempo dele, no espaço dele.

À noite, escrevi no meu diário: “O amor não é igual para todos. Mas é amor, mesmo assim? Serei eu uma má avó por sentir diferente? Ou será que, no fundo, todos temos os nossos preferidos, mesmo sem querer?”

E vocês, já sentiram isto? Já tiveram medo de não ser justos com quem mais amam? O que fariam no meu lugar?