O Dia em que Expulsei o Meu Filho e a Minha Nora de Casa
— Não aguento mais, Rui! Isto não é vida! — gritei, a voz embargada, enquanto as minhas mãos tremiam sobre a mesa da cozinha. O relógio marcava quase meia-noite, mas o sono era impossível há meses. Mariana, sentada ao lado dele, desviou o olhar, os olhos vermelhos de tanto chorar.
Nunca imaginei que a minha casa, o meu refúgio em Almada, se transformaria num campo de batalha. Quando o Rui perdeu o emprego e me pediu para ele e a Mariana ficarem cá “só uns meses”, abri-lhes a porta sem hesitar. Era o meu filho, o meu menino. Mas os meses tornaram-se anos, e cada dia parecia mais pesado que o anterior.
No início, até foi bom. O Rui ajudava nas compras, a Mariana cozinhava pratos novos que enchiam a casa de aromas diferentes. Mas depois… depois tudo mudou. O Rui começou a chegar tarde, irritado, batia com as portas. Mariana fechava-se no quarto, evitava-me. As contas aumentaram, a comida desaparecia do frigorífico mais depressa do que eu conseguia repor. E eu? Eu sentia-me uma estranha na minha própria casa.
— Mãe, por favor… — começou o Rui, mas interrompi-o.
— Não me peças mais nada! Já dei tudo o que tinha para dar! — As lágrimas escorriam-me pelo rosto sem controlo.
Lembro-me do dia em que tudo desabou. Era domingo. O sol entrava pela janela da sala, mas dentro de mim só havia tempestade. Mariana estava na cozinha, mexendo o café com uma força desnecessária. O Rui estava no sofá, olhos colados ao telemóvel.
— Rui, podes ajudar-me com as roupas? — pedi.
Ele nem respondeu. Mariana suspirou alto.
— Se calhar era melhor arranjarmos um sítio só nosso — murmurou ela.
O Rui lançou-lhe um olhar fulminante.
— Achas que não quero? Achas que não ando à procura? — gritou ele.
Levantei-me de rompante.
— Chega! Não posso mais viver assim! Vocês têm de sair!
O silêncio caiu como uma pedra. Mariana chorou baixinho. O Rui ficou branco como a cal.
— Mãe… — sussurrou ele.
— Não me faças escolher entre ti e a minha sanidade — respondi, sentindo-me a pior mãe do mundo.
A notícia espalhou-se pela família como fogo em mato seco. A minha irmã Teresa ligou-me logo:
— Estás maluca? Vais pôr o teu filho na rua?
— Teresa, eu já não aguento… Eles não me respeitam! — tentei explicar.
— Mas são família! — insistiu ela.
O meu irmão António foi mais duro:
— Se fosse comigo, já tinham ido há muito tempo. Não deixes que abusem de ti!
No trabalho, andava distraída. Os colegas perguntavam se estava tudo bem. Como explicar-lhes que a minha casa era agora um campo minado?
Naquela noite, depois da discussão final, fechei-me no quarto e ouvi-os arrumar as coisas em silêncio. O som das malas a serem arrastadas pelo corredor ficou-me gravado na memória como um eco doloroso.
No dia seguinte, acordei cedo demais. A casa estava estranhamente silenciosa. Fui à cozinha: a caneca preferida do Rui ainda estava na prateleira de cima. Peguei nela e chorei como há muito não chorava.
Os dias seguintes foram um vazio difícil de preencher. A cada passo pela casa, sentia falta dos barulhos deles — mesmo das discussões. A Mariana mandou-me uma mensagem: “Obrigada por tudo. Desculpe se falhámos consigo.”
O Rui não disse nada durante semanas. O silêncio dele doía mais do que qualquer palavra dura.
A família dividiu-se: uns achavam que fiz bem em impor limites; outros diziam que nunca se expulsa um filho de casa. No supermercado, encontrei a mãe da Mariana:
— Espero que estejam orgulhosa — disse ela friamente. — A minha filha está num quarto alugado em Lisboa, a chorar todos os dias.
Senti-me esmagada pela culpa. Será que fui egoísta? Será que devia ter aguentado mais?
Um mês depois, o Rui apareceu à porta. Estava magro, olheiras fundas.
— Mãe… — disse apenas.
Abraçámo-nos em silêncio. Senti o coração apertado entre o alívio e a tristeza.
— Desculpa — murmurou ele. — Eu não sabia como sair daquela situação…
— Eu também falhei contigo — admiti. — Só queria paz na minha casa…
Sentámo-nos à mesa da cozinha, como tantas vezes antes. Falámos pouco; havia demasiado por dizer e demasiado por perdoar.
Agora olho para trás e pergunto-me: teria sido diferente se tivéssemos conversado mais cedo? Se eu tivesse pedido ajuda antes de explodir? Ou será que há momentos em que precisamos mesmo de escolher entre nós próprios e aqueles que amamos?
Será possível reconstruir uma família depois de uma decisão destas? Ou certas feridas nunca saram completamente?
E vocês? Já tiveram de escolher entre o vosso bem-estar e a vossa família? O que fariam no meu lugar?