O Coração de uma Mãe: Entre a Vida e o Amor

— Mariana, tens de pensar em ti! — a voz do Miguel ecoava pela cozinha, trémula, quase a quebrar-se. Eu estava sentada à mesa, as mãos pousadas sobre a barriga já saliente, sentindo três corações a bater dentro de mim. O cheiro do café frio misturava-se com o aroma do pão torrado, mas nada disso me apetecia. Só conseguia pensar nas palavras do médico: “O seu coração não vai aguentar. Tem de escolher.”

— Não me peças isso, Miguel. Não consigo. — A minha voz saiu num sussurro, quase inaudível. Ele ajoelhou-se ao meu lado, pegou-me nas mãos com força.

— Mariana, se te acontecer alguma coisa… como é que eu fico? Como é que a Leonor fica sem mãe? — Os olhos dele estavam vermelhos, cansados de noites sem dormir. A nossa filha mais velha, Leonor, brincava na sala com as bonecas, alheia ao peso que pairava sobre nós.

Lembro-me do dia em que descobri que estava grávida de trigémeos. O choque, o medo, mas também uma alegria inexplicável. Sempre quis uma família grande, mas nunca imaginei que o destino me desse tudo de uma vez só. O problema era o meu coração: uma cardiopatia congénita que sempre me acompanhou como uma sombra silenciosa.

Na primeira consulta, a Dra. Teresa foi clara:

— Mariana, esta gravidez é um risco enorme. O seu coração já trabalha no limite. Com três bebés… não sei se vai aguentar.

Miguel apertou-me a mão nesse momento, mas eu só conseguia olhar para o monitor onde piscavam três pequenos pontos de luz. Três vidas. Três futuros.

As semanas passaram entre exames, consultas e noites em claro. A minha mãe vinha ajudar com a Leonor e tentava convencer-me:

— Filha, pensa na Leonor. Ela precisa de ti. Não podes pôr tudo em risco por bebés que ainda nem conheces.

— Mas mãe… são meus filhos também. Como é que se escolhe entre filhos?

O meu pai era mais calado, mas via-se nos olhos dele o medo de me perder. Uma noite ouvi-o dizer baixinho à minha mãe:

— Se a perdemos… eu não aguento.

A pressão aumentava todos os dias. Os médicos sugeriram reduzir a gravidez para apenas um bebé — um procedimento frio, clínico, mas que podia salvar-me a vida. Miguel estava dividido entre o medo e a esperança.

— Mariana, eu amo-te. Não quero perder-te. Mas também não quero ser eu a decidir quem vive ou morre…

Eu chorava sozinha à noite, sentindo os pontapés suaves dentro de mim. Falava com eles baixinho:

— Aguentem só mais um pouco… por favor…

A Leonor começou a perceber que algo não estava bem. Uma noite entrou no nosso quarto e perguntou:

— Mamã, porque é que choras tanto?

Abracei-a com força e disse-lhe:

— Porque às vezes o coração das mães dói de tanto amar.

Os meses avançaram e o meu corpo começou a ceder. Faltava-me o ar ao subir escadas, sentia tonturas constantes e o medo instalou-se em todos os cantos da casa. Miguel tornou-se mais protetor, quase sufocante.

— Não podes sair sozinha! — gritava ele quando me apanhava a tentar ir ao supermercado.

— Preciso de sentir que ainda sou eu… — respondi-lhe num acesso de raiva.

As discussões tornaram-se frequentes. A tensão era tanta que até a Leonor começou a ter pesadelos.

Uma noite acordei com dores fortes no peito. O Miguel levou-me ao hospital às pressas. Fui internada imediatamente.

A Dra. Teresa entrou no quarto com um ar grave:

— Mariana, chegou ao limite. Temos de decidir agora.

Olhei para Miguel, para os meus pais, para a Leonor que chorava agarrada à avó no corredor.

— Não vou desistir deles — disse finalmente. — Se for para morrer, morro como mãe deles.

O silêncio caiu sobre todos como uma sentença. Miguel chorou pela primeira vez à minha frente desde tudo aquilo começar.

Os dias seguintes foram um turbilhão de exames e preparativos para um parto prematuro. Cada médico tinha uma opinião diferente; cada familiar um medo diferente.

No dia do parto, lembro-me do cheiro a desinfetante, das luzes brancas do bloco operatório e do toque frio da mão da enfermeira.

— Coragem, Mariana — sussurrou ela ao meu ouvido.

Senti-me flutuar entre a vida e a morte enquanto ouviam-se os primeiros choros dos bebés: três vidas frágeis, três milagres improváveis.

Acordei horas depois na UCI, ligada a máquinas e rodeada por tubos. O Miguel estava ao meu lado, olhos inchados mas com um sorriso tímido.

— Sobreviveste… eles também…

As semanas seguintes foram uma luta diária: os bebés na incubadora, eu em recuperação lenta, a família dividida entre esperança e exaustão.

A minha mãe cuidava da Leonor em casa; o Miguel dividia-se entre o hospital e o trabalho; o meu pai fazia turnos para me fazer companhia nas noites solitárias.

Houve momentos em que pensei em desistir: dores insuportáveis, medo constante de não voltar para casa, culpa por ver a Leonor tão triste e perdida.

Mas cada vez que via os meus bebés — Tomás, Matilde e Duarte — lutar pela vida dentro das incubadoras minúsculas, sentia uma força inexplicável dentro de mim.

Um dia, enquanto segurava a mãozinha da Matilde pela primeira vez, chorei como nunca antes na vida. Senti que tudo tinha valido a pena.

Quando finalmente voltámos todos para casa — eu ainda frágil, os bebés pequenos mas guerreiros — houve uma paz estranha no ar. A família uniu-se como nunca antes; até as discussões deram lugar ao silêncio cúmplice dos sobreviventes.

A Leonor tornou-se irmã mais velha orgulhosa; os meus pais aprenderam a sorrir novamente; o Miguel olhava para mim como se visse um milagre todos os dias.

Hoje olho para trás e pergunto-me: teria feito diferente? Teria escolhido salvar-me em vez deles? Não sei responder. Só sei que o amor de mãe é feito de escolhas impossíveis e coragem sem limites.

E vocês? Até onde iriam por amor aos vossos filhos? O que fariam se tivessem de escolher entre o vosso coração e o deles?