“Nunca fui vista: a história da filha esquecida”

— Outra vez arroz com frango? — perguntei, tentando esconder o cansaço na voz, enquanto via a minha mãe servir os pratos dos meus irmãos gémeos, Tomás e Tiago, com um sorriso que raramente me era dirigido.

Ela nem olhou para mim. — Se não gostas, podes fazer o teu próprio jantar, Mariana.

Senti o nó apertar-se na garganta. Não era sobre o jantar. Nunca foi. Era sobre tudo o que eu fazia para ser notada e o quanto isso parecia impossível desde que os gémeos nasceram. Tinha dez anos quando eles chegaram, e desde então, a minha existência parecia ter-se tornado um pano de fundo para a vida deles.

Lembro-me de como, antes, a minha mãe me penteava o cabelo com carinho, de como me levava ao parque e me ouvia falar sobre os meus desenhos. Agora, tudo era correria, fraldas, choros, e mais tarde, futebol, trabalhos de casa, festas de aniversário. Eu era a filha mais velha, a que devia compreender, ajudar, não dar trabalho. A que devia ser madura.

— Mariana, podes ir buscar as mochilas dos teus irmãos? — pediu ela, sem sequer levantar os olhos do telemóvel.

— Mãe, eu tenho teste amanhã. Preciso de estudar.

— Eles também têm, mas são mais novos. Precisas de dar o exemplo.

Suspirei, resignada, e fui buscar as mochilas. Pelo caminho, ouvi os gémeos a rirem-se no quarto. — Aposto que a mãe vai deixar-nos ver televisão depois do jantar — dizia o Tomás.

— Claro, ela faz tudo o que queremos — respondeu o Tiago, rindo.

Senti uma pontada de inveja. Não queria ser má irmã, mas era impossível não sentir que havia um favoritismo descarado. Quando tentei falar com a minha mãe sobre isso, ela disse apenas:

— Mariana, tu és crescida. Eles precisam mais de mim.

Mas quem cuidava de mim? Quem via quando eu chorava sozinha no quarto, ou quando tirava boas notas e ninguém reparava?

O tempo foi passando, e a sensação de invisibilidade só aumentava. No Natal, os gémeos recebiam presentes escolhidos a dedo, enquanto eu ganhava sempre meias ou um livro qualquer. Nos aniversários, as festas eram para eles. No meu, um bolo comprado à pressa e um “parabéns” apressado.

A gota de água foi numa tarde de domingo. Estava a estudar para um exame importante, quando ouvi a minha mãe gritar:

— Mariana! Os teus irmãos partiram um copo na cozinha. Vai limpar!

— Mãe, estou a estudar! — gritei de volta, já sem paciência.

Ela apareceu à porta, furiosa. — Não me fales nesse tom! Eles são mais novos, não percebem. Tu é que tens de ajudar.

— E quem me ajuda a mim? — perguntei, com a voz a tremer.

Ela ficou em silêncio por um segundo, como se não esperasse aquela resposta. — Mariana, não compliques. Sempre foste uma boa filha, não estragues agora.

Senti as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. — Eu só queria que me visses, mãe. Só isso.

Ela virou-me as costas e saiu do quarto. Ouvi-a a murmurar qualquer coisa sobre “dramas de adolescentes”.

Naquela noite, não consegui dormir. Ouvia os gémeos a ver televisão na sala, a minha mãe a rir-se com eles. Senti-me completamente sozinha. Peguei no telemóvel e escrevi uma mensagem à minha melhor amiga, Inês:

“Sinto que não pertenço a esta família.”

Ela respondeu quase de imediato: “Tu pertences, só não te sabem valorizar.”

No dia seguinte, decidi que não podia continuar assim. Esperei que estivéssemos todos à mesa do jantar e, com a voz a tremer, disse:

— Mãe, preciso de falar.

Ela olhou-me, impaciente. — Agora? Não vês que estamos a comer?

— É importante.

Os gémeos olharam para mim, curiosos. O meu pai, sempre ausente, levantou os olhos do jornal.

— Eu sinto que não faço parte desta família — disse, finalmente. — Sinto que sou invisível, que só sirvo para ajudar e nunca para ser ajudada. Sinto que não me amas como amas o Tomás e o Tiago.

O silêncio caiu sobre a mesa como uma pedra. A minha mãe ficou vermelha, o meu pai pigarreou.

— Mariana, isso é um disparate — disse ela, finalmente. — Claro que te amo. Mas tens de perceber que os teus irmãos são mais pequenos, precisam de mais atenção.

— E eu? Nunca precisei? Nunca precisei de ti? — perguntei, a voz a falhar-me.

O Tomás murmurou: — Não chores, Mariana.

O Tiago olhou para mim, assustado. — Desculpa se fizemos alguma coisa…

— Não é culpa vossa — disse-lhes, limpando as lágrimas. — Só queria que a mãe me visse.

A minha mãe levantou-se da mesa, furiosa. — Não vou ouvir mais isto. Estás a ser ingrata. Fazemos tudo por ti, tens tudo o que precisas. Há crianças que nem casa têm!

O meu pai tentou acalmar a situação, mas a minha mãe já tinha saído da sala. Os gémeos ficaram calados, sem saber o que dizer.

Naquela noite, ouvi a minha mãe a falar com o meu pai na cozinha:

— Não sei o que se passa com a Mariana. Sempre foi tão boa menina. Agora só faz dramas.

— Talvez precise de mais atenção — disse o meu pai, surpreendendo-me.

— Não tenho tempo para tudo! — exclamou ela. — Os gémeos dão tanto trabalho…

— Mas ela também é nossa filha.

Fiquei a ouvir, o coração apertado. No dia seguinte, a minha mãe não me falou. Os gémeos evitavam-me. O meu pai saiu cedo para o trabalho. Senti-me ainda mais sozinha.

Na escola, a Inês tentou animar-me. — Tens de te impor, Mariana. Não deixes que te tratem assim.

Mas como? Como é que se luta por amor?

Os dias passaram, e a distância entre mim e a minha mãe só aumentava. Ela falava comigo apenas o indispensável. Os gémeos estavam mais calados, como se tivessem medo de me magoar. O meu pai tentava ser neutro, mas era óbvio que não sabia lidar com a situação.

Um dia, cheguei a casa e encontrei a minha mãe a chorar na cozinha. Fiquei parada à porta, sem saber o que fazer.

— Mãe?

Ela olhou para mim, os olhos vermelhos. — Não sei o que fazer contigo, Mariana. Sinto que te estou a perder.

Sentei-me ao lado dela. — Eu só queria que me ouvisses. Que me visses. Sinto que não sou importante para ti.

Ela suspirou. — Não é verdade. Só… às vezes sinto-me tão cansada. O teu pai trabalha tanto, os gémeos dão tanto trabalho… E tu sempre foste tão independente, achei que não precisavas de mim.

— Todos precisamos de ser amados, mãe. Até os filhos crescidos.

Ela abraçou-me, finalmente. Chorei no seu ombro, como não fazia há anos.

A partir desse dia, as coisas começaram a mudar, devagarinho. A minha mãe esforçava-se por me incluir mais, perguntava-me sobre a escola, sentava-se comigo a ver televisão. Os gémeos também tentavam não me sobrecarregar tanto. O meu pai, pela primeira vez, levou-me ao cinema, só nós os dois.

Mas a ferida ficou. Ainda hoje, sinto que sou a filha esquecida, a que teve de gritar para ser ouvida. A família nunca mais foi a mesma. Os jantares são mais tensos, há silêncios que antes não existiam. Sinto que perdi alguma coisa, mas também ganhei outra: a coragem de lutar por mim.

Às vezes pergunto-me: será que fiz bem em falar? Ou teria sido mais fácil continuar invisível? Quantos de vocês já se sentiram assim, a lutar por um lugar na própria família?