Nunca Fui Suficientemente Boa para Tiago: Verdades Sobre o Amor e as Diferenças Sociais
— Achas mesmo que isto vai resultar, Sofia? — A voz da mãe do Tiago cortou o silêncio da sala, fria como o mármore da mesa onde pousava as mãos perfeitamente arranjadas. O Tiago olhou para mim, nervoso, como se esperasse que eu respondesse por ele. Eu engoli em seco, sentindo o olhar dela a perfurar-me.
Naquele momento, percebi que nunca seria suficiente para eles. O meu vestido simples, comprado nos saldos do centro comercial, parecia ainda mais fora de lugar ao lado das pérolas e dos casacos de lã fina da família do Tiago. O cheiro a bacalhau com natas misturava-se com o perfume caro da mãe dele, e eu sentia-me cada vez mais pequena.
Conheci o Tiago numa noite de verão em Lisboa, no miradouro de Santa Catarina. Ele estava a rir-se com amigos, copo de cerveja na mão, e eu tropecei literalmente nele. Riu-se do meu jeito desastrado e convidou-me para me sentar. Falámos durante horas sobre música, sonhos e viagens que nunca tínhamos feito. Ele vinha de uma família abastada de Cascais; eu cresci num T2 em Chelas com a minha mãe, empregada de limpeza, e o meu irmão mais novo.
No início, parecia que nada disso importava. O Tiago dizia que adorava a minha autenticidade, que eu era “real” num mundo de aparências. Mas à medida que o tempo passava, os convites para jantares em restaurantes caros começaram a pesar. Eu sentia-me deslocada entre os amigos dele, todos com nomes compostos e histórias de férias em Courchevel ou Ibiza. Eu só conhecia a Costa da Caparica e as festas populares do bairro.
A primeira vez que fui apresentada à família dele foi um desastre anunciado. A mãe dele olhou-me de cima a baixo e perguntou:
— E os teus pais, Sofia? O que fazem?
Senti o rubor subir-me ao rosto. Respondi com orgulho:
— A minha mãe trabalha na limpeza e o meu pai… bem, ele já não está connosco.
Ela assentiu com um sorriso forçado e mudou de assunto rapidamente. O Tiago apertou-me a mão por baixo da mesa, mas eu já sentia o peso do julgamento.
Os meses seguintes foram uma sucessão de pequenas humilhações. A irmã dele fazia piadas subtis sobre as minhas roupas ou sobre o meu sotaque. O pai dele perguntava-me sempre se já tinha pensado em “tirar um curso superior”, como se a minha licenciatura em Serviço Social não contasse.
Uma noite, depois de mais um jantar tenso, discuti com o Tiago no carro.
— Porque é que nunca dizes nada quando eles me tratam assim? — perguntei-lhe, a voz embargada.
Ele suspirou:
— Sofia, eles são assim com toda a gente… Vais ver que com o tempo habituam-se.
Mas eu sabia que não era verdade. Eles eram assim comigo porque eu não era “uma deles”.
Comecei a evitar os convívios familiares. O Tiago tentava compensar com gestos românticos: flores no trabalho, mensagens apaixonadas. Mas eu sentia-me cada vez mais sozinha. Até os meus amigos começaram a notar:
— Ele faz-te feliz? — perguntou-me a Ana numa tarde no café do bairro.
Eu não soube responder. Amava-o, mas sentia que estava sempre a lutar contra uma maré impossível de vencer.
O ponto de rutura chegou no Natal. A mãe do Tiago ofereceu-me um livro sobre “boas maneiras à mesa” embrulhado num laço dourado. Toda a gente riu-se como se fosse uma piada inofensiva. Eu sorri por fora, mas por dentro chorei.
Nessa noite, quando voltámos para casa dele, explodi:
— Não aguento mais! Sinto-me sempre uma intrusa! Eles nunca vão aceitar-me!
O Tiago abraçou-me, mas senti-o distante.
— Sofia… Eu amo-te, mas não posso escolher entre ti e a minha família.
As palavras dele ficaram a ecoar na minha cabeça durante semanas. Afastei-me devagarinho. Voltei para casa da minha mãe e tentei reconstruir-me aos bocadinhos.
Os meses passaram. O Tiago tentou ligar-me algumas vezes, mas eu não atendi. Vi-o uma vez na rua com outra rapariga — uma loira elegante, provavelmente “do círculo deles”. Senti uma pontada no peito, mas também um alívio estranho.
Hoje olho para trás e pergunto-me: teria valido a pena continuar a lutar? O amor basta quando tudo à volta conspira contra nós? Ou será que há batalhas que simplesmente não são nossas para vencer?
E vocês? Já sentiram que nunca seriam suficientes para alguém — não por quem são, mas por onde vieram?