Nunca deixes uma amiga sozinha em tua casa: O eco das advertências da minha mãe

— Não abras a porta, Mariana! — gritou a minha mãe do outro lado do corredor, com aquela urgência que só as mães sabem ter. Eu já tinha a mão na maçaneta, pronta para deixar entrar a minha melhor amiga, a Joana, que vinha sempre estudar comigo depois das aulas. — Nunca deixes uma amiga sozinha em casa, ouviste? — repetiu ela, com os olhos fixos nos meus, como se quisesse gravar aquelas palavras na minha pele.

Na altura, achei aquilo um disparate. Que mal podia haver em confiar na Joana? Crescemos juntas no bairro de Benfica, partilhámos segredos, sonhos e até o lanche da escola. Mas aquela advertência ficou-me cravada na memória, como uma pedra no sapato. Sempre que me sentia tentada a confiar cegamente em alguém, lá vinha a voz da minha mãe, sussurrada ou gritada, a lembrar-me dos perigos invisíveis.

Os anos passaram. Fui para a universidade em Lisboa, conheci o Rui — aquele sorriso tímido e o jeito desajeitado de quem nunca sabe onde pôr as mãos. Apaixonámo-nos depressa demais, casámos cedo demais. A minha mãe avisou-me: — Não te precipites, Mariana. O amor é bonito, mas a vida é dura. — Ignorei-a, como sempre.

Quando nasceu o nosso filho, o Tomás, senti-me mais sozinha do que nunca. O Rui trabalhava horas infinitas numa empresa de informática em Oeiras e eu ficava em casa, entre fraldas e papas, a ver os dias passarem pela janela do nosso apartamento no Lumiar. As amigas foram desaparecendo, cada uma para o seu lado. Só a Joana ficou.

Ela vinha visitar-me quase todas as semanas. Trazia bolos caseiros e novidades do mundo lá fora. Eu abria-lhe a porta com alívio — finalmente alguém com quem conversar! — e deixava-a sozinha na sala enquanto ia buscar café ou mudar o Tomás. Nunca pensei duas vezes nisso.

Até ao dia em que tudo mudou.

Era uma tarde chuvosa de novembro. O Rui tinha dito que ia chegar tarde; havia uma entrega importante no trabalho. A Joana apareceu sem avisar, com um sorriso estranho e um saco de compras. — Trouxe vinho! — disse ela, abanando a garrafa como se fosse um troféu.

Sentámo-nos no sofá, rimos das nossas desgraças e brindámos à sobrevivência da maternidade. O Tomás dormia no quarto ao lado. A certa altura, fui à cozinha buscar mais copos e ouvi risos abafados vindos do corredor. Estranhei — só estávamos nós as duas em casa. Voltei devagarinho e vi a Joana ao telemóvel, a falar baixo:

— Sim, ele está quase a chegar… Não te preocupes… —

Quando me viu, ficou vermelha como um tomate e desligou rapidamente.

— Era só o meu irmão — disse ela, mas os olhos fugiram dos meus.

O resto da tarde passou arrastado. A Joana parecia inquieta, mexia-se muito no sofá e evitava olhar para mim. Quando finalmente saiu, fiquei com um nó no estômago que não consegui desfazer.

Nessa noite, o Rui chegou mais cedo do que o costume. Trazia um cheiro estranho — perfume feminino misturado com o dele. Fingi não notar. Jantámos em silêncio; ele estava distante, ausente.

Os dias seguintes foram um tormento. A Joana deixou de aparecer e o Rui começou a receber mensagens misteriosas no telemóvel. Uma noite, enquanto ele tomava banho, não resisti à tentação: peguei no telefone dele e vi as conversas com um número sem nome.

“Adorei ontem.”
“Ela não desconfia de nada.”
“Quero-te outra vez.”

O mundo desabou-me aos pés. O número era da Joana.

Senti-me traída por ambos: pelo homem com quem partilhei a vida e pela amiga que cresceu comigo desde criança. Lembrei-me das palavras da minha mãe — nunca deixes uma amiga sozinha em casa — e percebi finalmente o peso daquela advertência.

Confrontei o Rui naquela mesma noite:
— Há quanto tempo? — perguntei-lhe, com a voz trémula.
Ele baixou os olhos:
— Foi só uma vez… Eu estava confuso… Tu estavas sempre cansada…

A raiva subiu-me à cabeça:
— E achaste boa ideia trair-me com a minha melhor amiga?

Ele tentou justificar-se, mas as palavras já não tinham valor nenhum para mim.

No dia seguinte liguei à Joana:
— Como foste capaz?
Do outro lado ouvi apenas silêncio e depois um soluço abafado:
— Desculpa… Eu não queria… Foi tudo tão rápido…

Desliguei sem dizer mais nada.

Os meses seguintes foram um inferno de solidão e dúvidas. O Rui pediu-me perdão vezes sem conta; prometeu mudar, jurou que foi um erro sem importância. Mas como se volta a confiar depois de uma traição destas? Como se olha para o filho nos olhos sabendo que o mundo seguro que lhe querias dar já não existe?

A minha mãe veio ajudar-me durante esse tempo difícil. Um dia sentámo-nos à mesa da cozinha e ela contou-me finalmente porque repetia tanto aquele aviso:
— Quando eu era nova, perdi uma amiga assim… O teu pai apaixonou-se por ela e eu fiquei sozinha com um bebé nos braços. Nunca quis que passasses pelo mesmo.

Chorei nos braços dela como uma criança. Percebi que há dores que atravessam gerações e que os conselhos das mães são feitos de cicatrizes antigas.

Hoje vivo sozinha com o Tomás num pequeno apartamento em Setúbal. O Rui vê-o aos fins-de-semana; eu reconstruo-me aos poucos entre as rotinas da escola e os passeios à beira-mar. Ainda sinto falta da Joana às vezes — da amiga que pensei ter para sempre — mas aprendi a confiar mais em mim do que nos outros.

Às vezes pergunto-me: será que alguma vez conseguimos escapar ao destino das nossas mães? Ou estamos condenadas a repetir os mesmos erros, geração após geração? E vocês, já sentiram o peso dos conselhos antigos nas vossas próprias vidas?