Nunca deixes entrar uma amiga solteira: a voz da minha mãe e a minha solidão
“Ana, ouve o que te digo: nunca deixes entrar uma amiga solteira em casa. Não sabes o que pode acontecer.” A voz da minha mãe ecoava-me na cabeça, mesmo enquanto eu tentava sorrir para Francisca, sentada à minha frente na sala, com o meu filho ao colo. O cheiro do café misturava-se ao aroma do leite morno e ao perfume doce da Francisca, tão familiar e, de repente, tão estranho.
“Estás bem, Ana? Pareces distante.”
Balancei a cabeça, tentando afastar os pensamentos. “Estou só cansada. O Tomás não me deixa dormir.”
Francisca sorriu, mas os olhos dela demoraram-se no meu marido, Miguel, que passava apressado pelo corredor. Senti um aperto no peito. Era absurdo, pensei. Francisca era minha amiga desde o liceu. Partilhámos segredos, chorámos juntas, rimo-nos até doer a barriga. Mas agora… agora havia algo diferente.
A culpa era da minha mãe. Desde que engravidei, ela repetia aquele provérbio antigo, quase como uma maldição: “Nunca deixes entrar uma amiga solteira além da soleira.” Dizia que as mulheres solteiras traziam inveja, desassossego, que podiam roubar a felicidade de uma casa. Eu ria-me dessas superstições. Até ao dia em que comecei a acreditar nelas.
Miguel começou a chegar mais tarde do trabalho. Dizia que era por causa dos projetos novos no escritório. Eu acreditava — ou queria acreditar. Mas depois reparei nos olhares rápidos entre ele e Francisca, nos risos partilhados à mesa do jantar, nas conversas sussurradas quando eu ia buscar fraldas ou aquecer o biberão.
Uma noite, depois de Francisca sair, confrontei Miguel:
— Gostas dela?
Ele olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido.
— Da Francisca? Ana, ela é tua amiga! O que se passa contigo?
Eu não soube responder. Só sabia que me sentia cada vez mais sozinha. O Tomás chorava sem parar, eu mal dormia, o meu corpo já não era o mesmo. Sentia-me invisível para Miguel e até para Francisca, que parecia cada vez mais próxima dele.
No domingo seguinte, Francisca apareceu com um bolo de laranja e um sorriso aberto.
— Vim ajudar-te com o Tomás! — disse ela.
Agradeci-lhe, mas por dentro sentia-me invadida. Observei-a enquanto embalava o meu filho com uma ternura quase maternal. Miguel entrou na sala e sentou-se ao lado dela no sofá. Riram-se de uma piada qualquer sobre os tempos da faculdade. Senti-me excluída na minha própria casa.
À noite, liguei à minha mãe.
— Mãe… achas mesmo que… que uma amiga solteira pode estragar um casamento?
Ela suspirou do outro lado da linha.
— Não é magia, filha. É só que… às vezes as pessoas querem aquilo que não têm. E tu estás vulnerável agora. Protege o teu lar.
Desliguei com lágrimas nos olhos. No dia seguinte, inventei uma desculpa para não receber Francisca. Ela insistiu:
— Ana, aconteceu alguma coisa? Sentes-te bem?
— Só preciso de descansar — menti.
Durante semanas evitei-a. Miguel perguntava por ela:
— A Francisca não tem vindo cá… Passou-se alguma coisa?
— Não — respondi seca.
Mas a verdade é que algo tinha mudado para sempre.
O Tomás fez seis meses e organizei um pequeno lanche em casa. Convidei meia dúzia de pessoas — menos Francisca. Quando ela soube pelas redes sociais, ligou-me:
— Ana… porque não me convidaste?
Houve um silêncio pesado entre nós.
— Achei que estavas ocupada — disse eu.
Ela ficou calada durante uns segundos intermináveis.
— O que se passa contigo? Sinto que me estás a afastar… Fiz alguma coisa?
As palavras dela magoaram-me mais do que eu queria admitir.
— Não… é só… preciso de espaço.
Desliguei antes que ela pudesse responder.
Nessa noite chorei sozinha na cozinha enquanto Miguel dormia no sofá com o Tomás ao colo. Senti-me miserável. Tinha perdido a minha melhor amiga por causa de um medo antigo, plantado pela voz da minha mãe e regado pela minha insegurança.
Os meses passaram e a distância entre mim e Francisca tornou-se um abismo. Miguel tentava animar-me:
— Tens de sair mais, ver as tuas amigas…
Mas eu já não tinha amigas. Só tinha a solidão e o eco daquela frase: “Nunca deixes entrar uma amiga solteira além da soleira.”
Um dia encontrei Francisca no supermercado. Ela estava diferente — mais magra, os olhos cansados.
— Olá, Ana…
O coração bateu-me descompassado.
— Olá…
Ficámos ali paradas entre as prateleiras dos cereais e dos iogurtes, sem saber o que dizer.
— Sinto a tua falta — disse ela por fim.
As lágrimas vieram-me aos olhos sem aviso.
— Desculpa… Fui parva…
Ela sorriu tristemente.
— Só queria ajudar-te. Nunca quis nada teu…
Abracei-a ali mesmo, entre os olhares curiosos das outras pessoas.
Voltámos a falar de vez em quando, mas nunca mais foi igual. A desconfiança ficou entre nós como uma sombra.
Hoje olho para o Tomás a brincar no tapete da sala e pergunto-me: quantas amizades se perdem por causa dos medos das nossas mães? Quantas vezes deixamos o amor ser vencido pela solidão?
E vocês? Já perderam alguém por causa de um medo antigo? Será que vale a pena proteger tanto o nosso lar se isso significa ficarmos sozinhos dentro dele?