Nos olhos da velha amiga: uma história de reencontro e redenção
— Não pode ser… Inês? — murmurei, quase sem voz, agarrada ao varão do autocarro 728, enquanto as luzes da cidade passavam rápidas pelas janelas embaciadas. Ela virou-se, hesitante, os olhos castanhos tão fundos e cansados que quase não a reconheci. Mas era ela. O mesmo olhar que me acompanhou durante toda a adolescência, o mesmo sorriso tímido que agora parecia ter desaparecido para sempre.
O autocarro sacudiu-se numa curva e, por um instante, o tempo parou. O meu coração batia descompassado. Tantos anos sem notícias, tantas noites em que me perguntei se ela estaria bem. E agora ali estava ela, sentada sozinha, com um casaco velho e as mãos trémulas sobre o colo.
— Inês… sou eu, a Marta. — arrisquei, sentando-me ao seu lado.
Ela olhou-me de relance, como se não quisesse acreditar. O silêncio entre nós era pesado, carregado de tudo o que nunca dissemos.
— Marta… — sussurrou, e eu vi lágrimas a formarem-se nos seus olhos. — Desculpa… não estava à espera…
— Não tens de pedir desculpa. — respondi, tentando sorrir. — Estás bem?
Ela encolheu os ombros. O autocarro parou em Alcântara e por um momento pensei que ela fosse sair a correr. Mas ficou.
— Não sei se estou bem. — disse finalmente. — Acho que nunca estive.
O meu peito apertou-se. Lembrei-me das tardes em minha casa, quando éramos miúdas e ela fugia para longe dos gritos do pai. Lembrei-me de como prometi nunca a abandonar — e de como falhei quando precisei de salvar a mim própria.
— Queres vir comigo tomar um café? — perguntei, quase suplicando por uma segunda oportunidade.
Ela hesitou, mas acenou que sim. Saímos juntas na próxima paragem. O frio da noite cortava-nos a pele enquanto caminhávamos em silêncio até à pastelaria da esquina.
Sentámo-nos junto à janela. Pedi dois galões e um bolo de arroz para cada uma. Inês olhava para as mãos, evitando o meu olhar.
— Sabes… — começou ela, com a voz embargada — às vezes penso que sou invisível. Que ninguém repara em mim. Nem mesmo tu…
Senti uma pontada de culpa tão forte que quase não consegui respirar.
— Eu reparei, Inês. Sempre reparei. Só não soube como ajudar.
Ela sorriu tristemente.
— Ninguém sabe. O meu pai ainda grita. Agora grita com a minha mãe, com o meu irmão… comigo já não grita porque já não estou lá. Mas o eco ficou cá dentro.
Ficámos em silêncio durante um longo minuto. O barulho das chávenas e das conversas alheias parecia vir de outro mundo.
— E a tua mãe? — perguntei baixinho.
Inês encolheu-se na cadeira.
— Aguenta tudo calada. Diz que é assim que as coisas são. Que as mulheres têm de ser fortes. Mas eu não quero ser forte assim, Marta. Eu só queria ser feliz.
As lágrimas começaram a cair-lhe pelo rosto magro. Peguei-lhe na mão por cima da mesa.
— Não tens de aguentar sozinha, Inês. Eu devia ter estado lá para ti…
Ela abanou a cabeça.
— Tu também tinhas os teus problemas. A tua mãe doente, o teu pai desempregado… Eu percebo porque te afastaste. Mas doeu tanto…
Senti-me pequena, impotente diante daquela dor antiga.
— Não quero perder-te outra vez. — disse-lhe, apertando-lhe a mão com força.
Ela olhou-me nos olhos pela primeira vez desde que nos reencontrámos no autocarro.
— Achas que ainda é possível recomeçar?
Sorri-lhe, apesar das lágrimas que me ardiam nos olhos.
— Acho que sim. Se estivermos juntas.
Ficámos ali sentadas até o café fechar. Falámos de tudo: dos sonhos adiados, das noites sem dormir, dos medos que nunca confessámos a ninguém. Pela primeira vez em muitos anos senti que estava exatamente onde devia estar.
Quando saímos para a rua, o vento parecia menos frio.
— Queres vir dormir a minha casa? — perguntei-lhe, quase sem pensar.
Ela hesitou apenas um segundo antes de acenar que sim.
Naquela noite dormimos juntas no meu velho sofá-cama, como fazíamos quando éramos adolescentes e o mundo parecia menos cruel. Antes de adormecer, ouvi-a sussurrar:
— Obrigada por não desistires de mim desta vez.
Abracei-a com força e prometi a mim mesma que nunca mais a deixaria sozinha.
Os dias seguintes foram difíceis. Inês tinha medo de sair à rua sozinha; tinha ataques de pânico sempre que ouvia vozes mais altas no prédio; chorava baixinho à noite para não me acordar. Mas eu estava lá: fazia-lhe chá quente, sentava-me ao seu lado no sofá e ouvia-a falar dos fantasmas do passado.
A minha mãe estranhou quando lhe disse que Inês ia ficar connosco por uns tempos.
— Tens a certeza? — perguntou-me ela numa noite, enquanto lavávamos a loiça juntas.
— Tenho. Ela precisa de nós agora mais do que nunca.
A minha mãe suspirou e olhou-me nos olhos.
— Só espero que não te magoes outra vez, filha.
Eu sabia ao que ela se referia: à última vez em que tentei ajudar alguém e acabei por me perder no processo. Mas desta vez era diferente. Desta vez eu sabia o preço da solidão — e não ia deixar Inês pagar esse preço sozinha.
Com o tempo, Inês começou a recuperar alguma alegria. Arranjou um trabalho numa livraria pequena no Bairro Alto; inscreveu-se num curso de fotografia; até começou a sair com um rapaz chamado Tiago, tímido mas gentil como ela.
Mas os fantasmas do passado não desaparecem assim tão facilmente.
Numa tarde chuvosa de novembro, recebi uma chamada da mãe dela:
— Marta… desculpa incomodar-te… mas a Inês não atende o telefone desde ontem à noite… Estou tão preocupada…
O pânico instalou-se em mim como uma faca no estômago. Corri para casa e encontrei Inês sentada no chão do quarto escuro, abraçada aos joelhos, os olhos vermelhos de tanto chorar.
— O meu pai ligou-me ontem — disse ela entre soluços — Disse que eu era uma ingrata, que estava a destruir a família… Eu não aguento mais isto, Marta…
Sentei-me ao lado dela e abracei-a com toda a força que tinha.
— Não estás sozinha, Inês. Nunca mais vais estar sozinha.
Naquela noite ligámos juntas para uma linha de apoio à vítima e marcámos uma consulta com uma psicóloga do centro de saúde local. Foi um passo pequeno mas decisivo na longa caminhada para a liberdade.
Hoje olho para trás e vejo como tudo podia ter sido diferente se eu tivesse tido coragem de ficar ao lado dela desde o início. Mas também sei que nunca é tarde para recomeçar — nem para pedir perdão.
Às vezes pergunto-me: quantas vidas podíamos salvar se tivéssemos coragem de estender a mão? Quantas amizades se perdem no silêncio da vergonha e do medo? Talvez nunca saiba as respostas certas — mas sei que hoje não virei as costas à minha amiga.