Ninguém Vai Tirar o Meu Dignidade: A História de Maria de Setúbal Que Sobreviveu a Tudo
— Maria, não podes continuar assim! — gritou a minha mãe, com a voz embargada, enquanto eu arrumava as minhas poucas roupas numa mala velha. O cheiro a café queimado misturava-se com o silêncio pesado da nossa casa em Setúbal, e eu sentia o coração a bater tão forte que parecia querer saltar do peito.
— Mãe, eu não tenho escolha. O pai já não me fala há semanas, e tu… tu olhas para mim como se eu fosse um fardo. — As palavras saíam-me entrecortadas, quase sussurradas, mas carregadas de mágoa.
Ela virou-me as costas, enxugando uma lágrima teimosa. O meu irmão, João, nem sequer apareceu para se despedir. Desde que perdi o emprego na fábrica de conservas, tudo mudou. O dinheiro começou a faltar, as discussões aumentaram, e a vergonha de não conseguir ajudar em casa tornou-se insuportável. O meu pai, homem de poucas palavras e muitos silêncios, limitava-se a olhar para mim com desdém, como se a culpa de tudo fosse minha.
Naquela noite, saí de casa com a mala na mão e o orgulho ferido. Caminhei pelas ruas de Setúbal, sentindo o frio a entranhar-se nos ossos. Não sabia para onde ir, mas sabia que não podia voltar. Passei a noite num banco do jardim, enrolada no meu casaco, a pensar em tudo o que tinha perdido. Oiço ainda hoje o eco das palavras do meu pai: “Enquanto viveres aqui, vais trabalhar. Não quero preguiçosos nesta casa.”
Mas eu não era preguiçosa. Tinha trabalhado desde os 16 anos, primeiro no café da Dona Rosa, depois na fábrica. Mas a fábrica fechou, como tantas outras, e de repente eu era só mais uma entre centenas de desempregados. Os vizinhos começaram a cochichar, a minha mãe evitava-me, e o João fingia que eu não existia.
Na manhã seguinte, fui bater à porta da minha amiga Inês. Ela abriu a porta com um sorriso triste, já a adivinhar o que se passava.
— Maria, entra. Não precisas de dizer nada. — E abraçou-me com força, como se quisesse colar os pedaços partidos do meu coração.
Fiquei em casa da Inês durante semanas. Ela dividia comigo o pouco que tinha, e juntas procurávamos trabalho. Mas não era fácil. Os patrões olhavam para mim com desconfiança, perguntavam-me porque tinha saído da fábrica, e eu sentia-me cada vez mais pequena. Um dia, depois de mais uma recusa, sentei-me no passeio e chorei. Chorei por tudo: pelo emprego perdido, pela família que me rejeitou, pela vergonha de depender dos outros.
— Não podes desistir, Maria. — disse-me a Inês, sentando-se ao meu lado. — Tu és mais forte do que pensas.
As palavras dela ficaram a ecoar-me na cabeça. Talvez fosse mesmo. Talvez ainda houvesse uma saída. Comecei a fazer limpezas em casas de senhoras ricas, a cuidar de crianças, a aceitar qualquer trabalho que aparecesse. O dinheiro era pouco, mas era meu. E, pela primeira vez em meses, senti um fio de esperança.
Mas a vida não me dava tréguas. Um dia, ao regressar a casa da Inês, encontrei a minha mãe à porta. Estava pálida, os olhos vermelhos de tanto chorar.
— Maria, o teu pai está doente. — disse, a voz quase inaudível. — O João não quer saber, e eu… eu não consigo sozinha.
Hesitei. Parte de mim queria gritar-lhe, perguntar-lhe onde estava ela quando eu precisei. Mas outra parte, aquela que ainda se lembrava dos domingos em família, dos risos à mesa, não conseguiu virar-lhe as costas.
Voltei a casa. O meu pai estava deitado, frágil como nunca o tinha visto. Olhou para mim, e durante um segundo vi nos seus olhos algo que nunca tinha visto: arrependimento.
— Maria… — murmurou, a voz rouca. — Desculpa.
Aquelas palavras, tão simples, foram como um bálsamo. Sentei-me ao lado dele, segurei-lhe a mão, e naquele momento soube que, apesar de tudo, ainda éramos família.
Os meses seguintes foram duros. Dividia o tempo entre os trabalhos e os cuidados ao meu pai. A minha mãe, mais calada do que nunca, começou a ajudar-me nas limpezas. O João continuava ausente, preso ao seu orgulho e à sua vida longe de nós. Mas eu não desisti. Não podia desistir.
Um dia, ao regressar de mais um trabalho, encontrei a minha mãe sentada à mesa, com uma carta nas mãos.
— É do João. — disse, sem me olhar. — Diz que sente muito, que não sabe como voltar.
Sentei-me ao lado dela. Pela primeira vez em muito tempo, chorámos juntas. Chorámos pelo que perdemos, pelo que ainda podíamos recuperar.
O meu pai acabou por morrer naquela primavera. No funeral, o João apareceu, de cabeça baixa. Não trocámos muitas palavras, mas naquele abraço silencioso senti que, apesar de tudo, ainda havia esperança.
Hoje, continuo a trabalhar. Não tenho muito, mas tenho o suficiente. A minha mãe vive comigo, e aos poucos vamos reconstruindo o que a vida nos tirou. O João telefona de vez em quando, e eu aprendi a perdoar. Não foi fácil, mas nunca deixei que me tirassem a dignidade.
Às vezes, pergunto-me: quantas Marias há por aí, a lutar todos os dias para não perderem quem são? E vocês, o que fariam se o mundo vos virasse as costas?