“Não tenho fome, só estou triste” – A minha luta com a pobreza e a vergonha na cantina da escola

— Não tens dinheiro para o almoço outra vez, Miguel? — perguntou a Dona Lurdes, a funcionária da cantina, com aquele tom de voz que parecia ecoar por todo o refeitório. Senti o olhar de todos os colegas cravar-se em mim, como se eu fosse um animal raro, ou pior, um caso perdido. O estômago embrulhou-se-me, mas não era fome. Era vergonha.

A fila atrás de mim crescia e eu só queria desaparecer. — Não estou com fome, Dona Lurdes. — murmurei, tentando sorrir, mas a voz saiu-me trémula. Ela olhou-me de lado, como quem já viu aquilo demasiadas vezes. — Diz à tua avó para vir cá falar comigo, está bem? — sussurrou, mas já era tarde. O João e o Ricardo riam-se baixinho, e a Inês desviou o olhar.

Saí dali a correr, com as lágrimas a arderem-me nos olhos. No pátio, sentei-me num canto e abracei as pernas. Ouvia os risos ao longe e sentia o peso do mundo nos ombros. Porque é que tinha de ser sempre eu? Porque é que o meu pai teve de ir embora? Porque é que a minha mãe nunca mais voltou de França?

A minha avó esperava-me à porta da escola, como sempre. Trazia o lenço azul na cabeça e o saco das compras na mão. — Então, Miguel? — perguntou, com aquele olhar doce mas cansado. Não consegui responder. Só lhe dei a mão e seguimos para casa.

O nosso apartamento era pequeno e húmido, no rés-do-chão de um prédio antigo em Almada. O cheiro a sopa de legumes misturava-se com o cheiro a mofo das paredes. A avó pousou as compras e sentou-se à mesa. — O que se passou hoje na escola? — perguntou baixinho.

— Nada… Só me esqueci do dinheiro do almoço. — menti, olhando para o chão.

Ela suspirou e tirou da carteira uma moeda de dois euros. — Amanhã levas isto. Mas Miguel, sabes que não posso fazer milagres… — A voz dela tremia. Senti-me ainda mais pequeno.

À noite, ouvi-a chorar baixinho no quarto ao lado. Fiquei acordado horas, a pensar em tudo o que não tinha coragem de lhe dizer: que me chamavam “pobrete”, que ninguém queria trocar cromos comigo porque eu nunca tinha os mais raros, que às vezes fingia não gostar de futebol só para não ter de explicar porque não tinha chuteiras.

No dia seguinte, levei os dois euros na mão fechada até à escola. Mas quando cheguei à cantina, o João estava lá à frente, a mostrar uma nota de vinte euros aos amigos. — Olha lá, Miguel! Isto é que é dinheiro a sério! — gritou ele, rindo-se alto.

Senti o rosto arder. Entreguei a moeda à Dona Lurdes e sentei-me sozinho numa mesa do fundo. O arroz estava frio e o frango seco, mas comi tudo sem levantar os olhos do prato.

Na aula de Português, a professora Teresa pediu-nos para escrevermos uma redação sobre “O que é felicidade”. Olhei para o papel em branco e pensei: felicidade era não ter medo de ir à escola; era não sentir vergonha por ser pobre; era ver a minha avó sorrir sem preocupação.

Quando entreguei a redação, vi lágrimas nos olhos da professora. No fim da aula chamou-me de parte.

— Miguel, posso falar contigo um bocadinho?

Assenti, nervoso.

— Sabes… também cresci sem muito dinheiro. Sei como é difícil sentir-se diferente. Mas acredita: tu vales muito mais do que aquilo que tens no bolso.

Quis acreditar nela, mas era difícil. O mundo parecia feito para quem tinha tudo.

As semanas passaram e as coisas pioraram em casa. A avó começou a tossir mais e faltava-lhe o ar quando subíamos as escadas. Uma noite acordei com ela caída no chão da cozinha. Liguei para o 112 com as mãos a tremer.

No hospital disseram-me que ela precisava de repouso e medicação cara. Faltavam-nos 60 euros para comprar tudo. Fui pedir ajuda à assistente social da escola.

— Miguel, vou ver o que posso fazer — disse ela, mas percebi logo pelo tom que não havia milagres.

Nessa tarde sentei-me no banco do jardim em frente à escola e chorei como nunca tinha chorado antes. Senti raiva do meu pai por nos ter abandonado; da minha mãe por nunca mais ter escrito; do mundo por ser tão injusto.

Foi então que a Inês se aproximou.

— Estás bem? — perguntou ela, sentando-se ao meu lado.

Encolhi os ombros.

— Não tens de fingir comigo — disse ela suavemente. — Eu também já passei dificuldades lá em casa…

Olhei para ela pela primeira vez sem vergonha. Falámos durante horas sobre tudo: sobre pais ausentes, sobre sonhos adiados, sobre como era duro crescer sem dinheiro.

A partir desse dia, comecei a sentir-me menos sozinho. A Inês partilhava comigo o lanche dela; às vezes estudávamos juntos na biblioteca porque em casa não havia silêncio nem luz suficiente.

A avó melhorou devagarinho graças à ajuda da professora Teresa, que organizou uma recolha entre os professores para pagar os medicamentos. Nunca me senti tão grato nem tão humilhado ao mesmo tempo.

No final do ano letivo houve uma festa na escola. Os meus colegas estavam todos vestidos com roupa nova; eu levava as calças remendadas pela avó e uma camisa herdada do primo Rui.

Quando chegou a hora dos prémios, chamaram-me ao palco: “Melhor redação do ano”. Ouvi aplausos tímidos e vi a avó sorrir na plateia, com lágrimas nos olhos.

Naquele momento percebi que talvez houvesse espaço para mim neste mundo — mesmo sem dinheiro no bolso.

Hoje sou adulto e olho para trás com uma mistura de orgulho e tristeza. Sei que muitos miúdos continuam a passar pelo mesmo todos os dias nas escolas deste país.

Será que algum dia vamos conseguir construir uma escola onde ninguém tenha vergonha de ser pobre? Será que algum dia vamos perceber que vale mais quem é do que quem tem?