Não te apresses com o casamento, Elvira! – A fuga de uma noiva da família dominante do noivo
— Elvira, não te esqueças de que a tua mãe nunca teria coragem de fazer o que tu estás prestes a fazer — sussurrou a minha sogra, Dona Amélia, enquanto me apertava o braço com uma força surpreendente para uma mulher da sua idade. O salão da quinta estava repleto de convidados, todos à espera do grande momento. O cheiro a flores frescas misturava-se com o nervosismo que me subia à garganta. O vestido branco parecia pesar toneladas, e cada passo que dava em direção ao altar era como se me afastasse de mim própria.
O meu pai, António, olhava-me com um misto de orgulho e preocupação. “Filha, tens a certeza? O Rui é um bom rapaz, e a família dele… bem, são pessoas de respeito.” Eu sorri, mas por dentro gritava. O Rui era, de facto, um bom rapaz. Trabalhador, educado, sempre pronto a ajudar. Mas a família dele… Ah, a família dele. Desde o início do namoro, Dona Amélia fazia questão de me lembrar que, ao casar com o filho, eu passava a ser “uma de nós”. Isso significava aceitar as tradições, os jantares de domingo, as opiniões não solicitadas sobre tudo — desde a cor das cortinas até à forma como eu deveria educar os filhos que ainda nem tinha.
Lembro-me do primeiro jantar em casa deles. O pai do Rui, Senhor Manuel, olhou-me de cima a baixo e perguntou: “Sabes cozinhar bacalhau à Brás? Aqui em casa, gostamos das coisas à moda antiga.” Sorri, engoli em seco e disse que sim, embora nunca tivesse feito tal prato. Naquela noite, chorei no quarto, sentindo-me uma impostora.
Os meses que antecederam o casamento foram um verdadeiro teste à minha sanidade. Dona Amélia queria escolher tudo: o vestido, as flores, até a música da primeira dança. “Elvira, querida, tu não percebes destas coisas. Deixa comigo, eu já organizei três casamentos na família!” O Rui, sempre conciliador, pedia-me paciência. “A minha mãe só quer ajudar, amor. Não leves a mal.”
Mas eu levava. Levava tudo a peito. Cada decisão que me era tirada era como um pedaço de mim que desaparecia. A minha mãe, Maria, tentava animar-me. “Filha, casamento é mesmo assim. A família dele é tradicional, mas vais ver que te habituas.” Mas eu não queria habituar-me. Queria ser eu própria, não uma versão moldada à imagem da família do Rui.
Na véspera do casamento, tive uma discussão feia com a Dona Amélia. “Elvira, não te esqueças de que, a partir de amanhã, és responsável pelo bom nome desta família. Espero que estejas à altura.” Senti um nó na garganta. “E se eu não estiver?”, perguntei, quase num sussurro. Ela olhou-me com desdém. “Então nunca devias ter aceite casar com o meu filho.”
Nessa noite, não dormi. Olhei para o vestido pendurado, para as fotografias de infância, para o anel de noivado. Pensei em fugir. Pensei em ficar. Pensei em tudo o que perderia se desistisse, mas também em tudo o que perderia se continuasse.
Na manhã do casamento, acordei com o coração aos pulos. A casa estava cheia de gente, todos a correr de um lado para o outro. A minha irmã, Inês, entrou no quarto e sentou-se ao meu lado. “Estás bem?” Olhei para ela, incapaz de mentir. “Não sei se consigo. Sinto que estou a perder-me, Inês.”
Ela apertou-me a mão. “A vida é tua, Elvira. Não deixes que ninguém a viva por ti. Se não queres isto, ainda vais a tempo.”
As palavras dela ecoaram na minha cabeça enquanto me preparava. O Rui mandou-me uma mensagem: “Estou à tua espera no altar. Amo-te.” Senti-me ainda mais sufocada. O amor dele era real, mas seria suficiente para aguentar o peso da família dele?
Quando cheguei à igreja, o olhar de Dona Amélia era de triunfo. O Rui sorria, nervoso. O padre começou a cerimónia, mas eu mal ouvia as palavras. O suor escorria-me pelas costas. Quando chegou o momento de dizer “sim”, hesitei. O silêncio caiu sobre a igreja. Senti todos os olhares em mim. O Rui apertou-me a mão, confuso.
— Elvira? — sussurrou ele.
Olhei para ele, para os pais dele, para os meus. Vi o futuro desenhar-se à minha frente: domingos intermináveis, discussões sobre trivialidades, a minha voz cada vez mais baixa, até desaparecer por completo.
— Desculpa, Rui. Não posso — disse, com a voz a tremer.
O choque foi imediato. Dona Amélia levantou-se, furiosa. “Isto é uma vergonha! Como te atreves a humilhar o meu filho desta maneira?” O meu pai tentou intervir, mas ela não o deixou. “A tua filha nunca foi digna do nosso Rui!”
O Rui olhou-me, magoado. “Porquê, Elvira? Não me amas?”
Chorei. “Amo-te, Rui. Mas não me amo a mim própria quando estou contigo. Não posso viver a vida que querem para mim. Preciso de encontrar o meu caminho.”
Saí da igreja, sentindo-me leve e pesada ao mesmo tempo. O vento frio bateu-me no rosto, misturando-se com as lágrimas. A Inês veio ter comigo, abraçou-me. “Fizeste o que era certo por ti.”
Os dias seguintes foram um turbilhão. A família do Rui espalhou boatos, a minha mãe chorava de vergonha, o meu pai tentava proteger-me. Perdi amigos, ganhei outros. Passei noites em claro, a duvidar de mim própria. Mas, aos poucos, fui recuperando a minha voz. Voltei a pintar, a sair com amigas, a rir sem medo de ser julgada.
Um dia, encontrei o Rui na rua. Ele parecia mais velho, cansado. “Espero que sejas feliz, Elvira. Eu vou tentar ser também.” Sorri-lhe, com gratidão. “Obrigada, Rui. Mereces alguém que te ame sem medo.”
Agora, quando olho para trás, sei que fiz o que tinha de ser feito. Não foi fácil. Ainda hoje, às vezes, sinto o peso do julgamento, mas aprendi a viver com ele. Porque, no fim, a vida é demasiado curta para ser vivida segundo as expectativas dos outros.
Pergunto-me: quantas Elviras há por aí, presas em vidas que não escolheram? E tu, já te sentiste assim alguma vez? O que farias no meu lugar?