“Não sou tua criada!” — Como me perdi e me reencontrei depois de vinte anos de casamento

“Não sou tua criada!” — gritei, com a voz embargada, enquanto a chuva batia forte nas janelas do nosso apartamento em Benfica. O Miguel olhou-me, surpreendido, como se não entendesse de onde vinha aquela fúria. Mas eu sabia. Sabia demasiado bem. Foram vinte anos de silêncios engolidos, de jantares feitos à pressa, de camisas passadas sem um obrigado, de noites em claro com os miúdos doentes e ele a dormir no sofá, alheio ao caos da casa.

“Teresa, não percebo este drama todo. Só perguntei o que fizeste hoje”, disse ele, com aquele tom frio que me fazia sentir invisível. O João e a Mariana, os nossos filhos, estavam fechados nos quartos, provavelmente a fingir que não ouviam. Mas eu sabia que ouviam tudo. Sempre ouviram.

Lembro-me do início. Tinha 24 anos quando casei com o Miguel. Era tudo tão simples: um casamento na igreja de Santa Maria, arroz a voar, promessas sussurradas ao ouvido. Ele era divertido, encantador, fazia-me rir até às lágrimas. Eu sonhava com uma vida cheia de amor e respeito. Mas os sonhos são frágeis. Com o tempo, o riso foi dando lugar ao cansaço, às contas por pagar, às discussões sobre quem ia buscar os miúdos à escola.

A minha mãe sempre dizia: “Teresa, uma mulher tem de saber aguentar.” E eu aguentei. Aguentei quando o Miguel começou a chegar tarde do trabalho, cheirando a cerveja e desculpas esfarrapadas. Aguentei quando a sogra criticava o meu arroz de pato — “A minha filha faz melhor” — e eu sorria, engolindo o orgulho. Aguentei quando perdi o emprego na loja do bairro porque “não dava para conciliar com as crianças”. Aguentei tudo.

Mas naquela noite chuvosa, alguma coisa partiu dentro de mim. Senti-me pequena, esmagada pelo peso dos anos e das expectativas. Fui à casa de banho e olhei-me ao espelho: olhos inchados, cabelo despenteado, rugas que não conhecia. Quem era aquela mulher? Onde estava a Teresa que sonhava em ser professora, que adorava dançar fado nas noites de verão?

No dia seguinte, acordei antes de todos. Preparei o pequeno-almoço em silêncio. O Miguel saiu sem me olhar nos olhos. A Mariana pediu boleia para a escola e eu disse-lhe que fosse de autocarro — pela primeira vez na vida disse não. Senti-me culpada e livre ao mesmo tempo.

No supermercado, encontrei a Ana, uma antiga colega da faculdade. “Estás tão diferente”, disse ela. Sorri sem vontade. Falámos dos velhos tempos, das festas na Costa da Caparica, dos sonhos adiados. Quando cheguei a casa, sentei-me no sofá e chorei como há muito não chorava.

Os dias seguintes foram um turbilhão de emoções. O Miguel começou a reparar na minha distância. “Estás estranha”, dizia ele. “Andas com alguém?” Ri-me amargamente. Como se alguém quisesse uma mulher cansada e desfeita como eu.

A Mariana começou a chegar mais tarde a casa. O João fechou-se ainda mais no quarto. A casa parecia um campo de batalha silencioso. Uma noite, ouvi-os discutir na cozinha:

— A mãe está diferente — sussurrou o João.
— Achas que vai-se divorciar? — perguntou a Mariana.
— Não sei… mas ela parece mais feliz assim.

Essas palavras ficaram-me na cabeça durante dias. Será que era isso? Será que para ser feliz tinha mesmo de largar tudo?

Comecei a sair sozinha aos sábados de manhã. Ia ao jardim da Estrela ler um livro ou simplesmente ver as pessoas passar. Uma vez sentei-me num banco ao lado de uma senhora idosa que alimentava pombos.

— Sabe, menina — disse ela — nunca é tarde para recomeçar.

Essas palavras foram como um bálsamo. Decidi procurar emprego outra vez. Inscrevi-me num curso online de educação infantil — sempre quis trabalhar com crianças pequenas.

O Miguel não gostou da ideia.

— Vais trabalhar para quê? Não chega o que faço por esta casa? — gritou ele numa noite.
— Não chega para mim — respondi, firme pela primeira vez em anos.

A partir daí as discussões tornaram-se mais frequentes. Os miúdos começaram a passar mais tempo fora de casa. A minha mãe ligava todos os dias:

— Teresa, pensa bem no que estás a fazer…
— Mãe, pela primeira vez estou a pensar em mim.

O curso deu-me ânimo e esperança. Conheci pessoas novas, partilhei histórias parecidas com a minha. Uma colega chamada Sofia tornou-se minha amiga íntima; juntas chorámos e rimos das nossas desgraças domésticas.

Um dia recebi uma proposta para trabalhar numa creche perto de casa. Quando contei ao Miguel, ele ficou em silêncio durante minutos intermináveis.

— Faz o que quiseres — disse por fim, virando-me as costas.

Na primeira semana de trabalho senti-me viva outra vez. As crianças abraçavam-me com alegria genuína; as colegas elogiavam o meu jeito calmo e paciente. Chegava a casa cansada mas feliz.

O Miguel começou a jantar fora cada vez mais vezes. Uma noite chegou tarde e cheirava a perfume caro — um cheiro que não era meu. Não perguntei nada; já não me importava.

A Mariana aproximou-se de mim numa dessas noites:

— Mãe… desculpa se fui injusta contigo. Eu só queria que fosses feliz.
— Obrigada, filha… Eu também só queria isso.

O João demorou mais tempo a aceitar as mudanças. Um dia entrou na cozinha enquanto eu preparava o jantar:

— Mãe… tens orgulho em ti?
Fiquei sem palavras por um momento.
— Tenho… finalmente tenho.

Os meses passaram e o inevitável aconteceu: o Miguel pediu o divórcio numa manhã fria de janeiro.

— Não dá mais — disse ele, sem emoção.
— Eu sei — respondi.

Assinámos os papéis sem lágrimas nem gritos. Senti um alívio imenso misturado com medo do futuro.

A vida tornou-se mais simples e mais difícil ao mesmo tempo. Aprendi a viver sozinha, a pagar contas com o meu salário modesto, a jantar sopa instantânea quando não havia tempo para mais nada. Mas também aprendi a rir outra vez, a sair com amigas ao sábado à noite, a dançar fado sem vergonha dos meus passos desajeitados.

A Mariana foi estudar para o Porto; o João ficou comigo mais algum tempo antes de ir viver com amigos. A casa ficou vazia mas cheia de memórias novas — memórias minhas.

Hoje olho-me ao espelho e vejo uma mulher diferente: mais velha, sim; mais cansada talvez; mas finalmente dona do seu destino.

Pergunto-me muitas vezes: quantas mulheres vivem assim caladas durante anos? Quantas Teresas há por aí à espera de se reencontrarem? E vocês… já se olharam verdadeiramente ao espelho hoje?