Não corras para o altar, Mariana! – A fuga de uma noiva da família tirânica do noivo
— Mariana, não te esqueças de sorrir quando entrares na igreja. — A voz da minha mãe ecoava pelo corredor, enquanto me apertava o vestido com mais força do que o necessário. O tecido branco sufocava-me, mas era o olhar dela, carregado de expectativa e medo, que me fazia querer fugir dali.
O relógio marcava nove da manhã. Lá fora, Lisboa acordava devagar, indiferente ao caos que se passava dentro da minha cabeça. O meu pai batia à porta do quarto, ansioso:
— Mariana, o António já chegou. Está tudo pronto para o grande dia!
Grande dia. Era assim que todos lhe chamavam. Mas para mim, era o dia em que sentia que estava a perder a última réstia de mim mesma.
Desde que comecei a namorar o António, tudo mudou. No início, era só ele e eu — passeios pelo Chiado, tardes de conversa à beira-rio, sonhos partilhados ao luar. Mas rapidamente percebi que, com ele, vinha um pacote completo: a mãe dele, Dona Teresa, sempre a criticar as minhas escolhas; o pai, Senhor Álvaro, a exigir respeito e tradição; a irmã mais nova, Beatriz, a competir por atenção.
Lembro-me do primeiro jantar em casa deles. Dona Teresa olhou para o meu vestido e disse:
— Mariana, querida, aqui em casa gostamos de roupas mais discretas.
Sorri e engoli em seco. Queria agradar. Queria ser aceite. Mas cada tentativa era um passo atrás na minha própria identidade.
Os meses passaram e os preparativos para o casamento tornaram-se uma batalha diária. A lista de convidados foi ditada pela família do António. O menu escolhido por Dona Teresa. Até as flores — sempre sonhei com margaridas — foram trocadas por rosas vermelhas porque “fica melhor nas fotografias”.
A minha mãe tentava consolar-me:
— Filha, casamento é assim mesmo. Temos de ceder um bocadinho.
Mas eu sentia que já tinha cedido tudo.
Na véspera do casamento, tive uma discussão feia com o António. Ele queria que eu deixasse o meu emprego numa editora para me dedicar à família dele e aos futuros filhos.
— Mariana, é só um trabalho. A minha mãe precisa de ajuda na loja e tu és perfeita para isso.
— E os meus sonhos? — perguntei-lhe, com lágrimas nos olhos.
Ele desviou o olhar:
— Os teus sonhos podem esperar.
Nessa noite não dormi. Olhei para o teto do meu quarto de infância e perguntei-me quando é que tinha deixado de ser dona da minha vida.
Agora, sentada em frente ao espelho, vejo uma mulher vestida de branco mas com os olhos vazios. A minha melhor amiga, Sofia, entra no quarto sem bater:
— Mariana… estás bem?
Abano a cabeça. Ela aproxima-se e segura-me as mãos:
— Não tens de fazer isto se não quiseres.
As palavras dela são como um sopro de ar fresco numa sala abafada. Mas penso nos meus pais lá fora, nos convidados à espera, no António à porta da igreja…
— Não posso fugir agora — murmuro.
Sofia olha-me nos olhos:
— Podes sim. Se não fores feliz hoje, quando vais ser?
Oiço os passos apressados da minha mãe no corredor:
— Mariana! Está na hora!
Levanto-me devagar. O vestido pesa toneladas. O coração bate descompassado. Olho pela janela e vejo Lisboa lá fora — livre, indiferente ao meu drama.
De repente, sinto uma força dentro de mim que já não reconhecia há muito tempo. Pego na mão da Sofia:
— Ajuda-me a sair daqui.
Ela sorri e pega nas minhas sapatilhas escondidas debaixo da cama. Tiro os saltos altos e sinto-me mais leve. Saímos pela porta das traseiras da casa dos meus pais, atravessamos o jardim e corremos até à rua.
O táxi espera-nos na esquina. Entro sem olhar para trás. O telemóvel vibra sem parar — chamadas da minha mãe, do António, da Dona Teresa. Ignoro todas.
No banco do táxi, começo a chorar compulsivamente. Sofia abraça-me:
— Fizeste o mais difícil: escolheste-te a ti própria.
O taxista olha-nos pelo retrovisor:
— Para onde vão?
Respiro fundo:
— Para a praia da Costa da Caparica.
O mar sempre foi o meu refúgio. Quando chegamos à praia, tiro o vestido e fico só com a roupa simples que trouxe por baixo. Sento-me na areia fria e olho para as ondas.
Sofia senta-se ao meu lado:
— E agora?
— Agora vou descobrir quem sou sem todos eles a dizerem-me o que fazer.
Passam horas até ter coragem de ligar aos meus pais. A minha mãe atende em lágrimas:
— Mariana! Onde estás? Estás bem?
— Estou bem, mãe. Preciso de tempo para mim.
Ela soluça:
— O António está desfeito…
— Mãe… eu nunca fui feliz ao lado dele. Só tentei agradar-vos a todos.
Há um silêncio pesado do outro lado da linha. Finalmente ela diz:
— Se é isso que precisas… eu vou respeitar.
Desligo e sinto um peso a sair-me dos ombros.
Nos dias seguintes, fico em casa da Sofia em Almada. O António tenta ligar-me várias vezes. Manda mensagens longas, cheias de mágoa e raiva:
“Como pudeste fazer-me isto? Fiz tudo por ti!”
Mas será que fez mesmo? Ou será que só queria uma mulher moldada à imagem da família dele?
A Dona Teresa aparece à porta da casa dos meus pais dois dias depois:
— Isto é uma vergonha! A Mariana destruiu a nossa família!
O meu pai defende-me pela primeira vez:
— A Mariana merece ser feliz à maneira dela.
Pela primeira vez sinto que alguém me vê verdadeiramente.
Volto ao trabalho na editora semanas depois. Os colegas recebem-me com abraços apertados e sorrisos sinceros. Sinto-me em casa pela primeira vez em muito tempo.
À noite escrevo no meu diário:
“Quantas vezes deixamos de ser quem somos só para agradar aos outros? Quantas vezes sacrificamos os nossos sonhos pelo medo de dececionar?”
A vida não voltou ao normal — mas talvez nunca tenha sido normal antes disto. Estou a aprender a viver por mim e para mim.
E tu? Já alguma vez sentiste que estavas a perder-te só para agradar aos outros? Até onde irias para te reencontrares?