Na Sombra da Noite: Quando a Minha Cunhada Bateu à Porta com os Filhos

— Não faças barulho, por favor… — sussurrei para mim mesma, enquanto tentava acalmar o coração que batia descompassado. O relógio marcava quase meia-noite e a tempestade lá fora parecia querer arrancar as telhas do telhado. Foi então que ouvi as pancadas na porta, rápidas, desesperadas. O meu corpo gelou. Quem seria a esta hora?

Abri a porta devagar, com receio do que pudesse encontrar. Do outro lado, encharcada e com os olhos vermelhos de tanto chorar, estava a Ana — a minha cunhada — com os dois filhos pequenos agarrados às pernas dela. O mais novo soluçava baixinho, e a mais velha escondia o rosto no casaco da mãe.

— Marta… por favor… — a voz dela era quase um lamento — Não tinha para onde ir. O Pedro… ele…

Não precisou dizer mais nada. O nome do meu irmão, Pedro, ficou suspenso no ar como uma ameaça. Senti o peso de anos de silêncios, discussões abafadas e mágoas antigas. Ana nunca foi bem-vinda na família, pelo menos não pela minha mãe, que sempre achou que ela não era suficiente para o filho. Eu própria, confesso, nunca me esforcei muito para contrariar essa opinião.

— Entra — disse, afastando-me para lhes dar passagem. As crianças passaram por mim sem dizer palavra, olhos arregalados de medo. Ana hesitou um segundo antes de cruzar o limiar da porta, como se temesse que eu mudasse de ideias.

Fechei a porta atrás delas e conduzi-as até à sala. O cheiro a terra molhada misturava-se com o aroma do chá que tinha preparado para mim mesma, numa tentativa de acalmar os nervos naquela noite inquieta.

— O que aconteceu? — perguntei, tentando manter a voz firme.

Ana sentou-se no sofá, puxando os filhos para junto de si. — O Pedro perdeu o emprego há três meses… não te disse porque ele pediu segredo. Mas hoje… hoje foi demais. Ele chegou bêbado, começou a gritar… as crianças estavam assustadas. Eu não podia ficar lá.

Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. O Pedro sempre teve um feitio difícil, mas nunca imaginei que chegasse a este ponto. Lembrei-me das vezes em que ele me defendia quando éramos pequenos, dos verões passados juntos na casa dos avós em Trás-os-Montes. Como é que tudo se tinha desmoronado assim?

— Ficas aqui esta noite — disse, sem hesitar. — Amanhã logo se vê.

As crianças adormeceram rapidamente no quarto de hóspedes, exaustas pelo choro e pelo medo. Fiquei na sala com a Ana, ambas em silêncio durante longos minutos. O som da chuva era agora um pano de fundo para os meus pensamentos turbulentos.

— Desculpa aparecer assim… — murmurou ela, olhando para as mãos trémulas.

— Não tens de pedir desculpa — respondi, surpreendendo-me com a sinceridade da minha voz. — Somos família.

Ela sorriu tristemente. — Nem sempre me senti parte desta família.

As palavras dela atingiram-me como um murro no estômago. Lembrei-me das vezes em que a minha mãe fez comentários cruéis à mesa do jantar, das ocasiões em que eu própria virei a cara quando ela precisava de apoio. Senti vergonha.

— Talvez tenhas razão… — admiti baixinho. — Mas agora estás aqui. E eu vou ajudar-te.

O resto da noite passou devagar. Não consegui dormir. Fiquei sentada à janela da cozinha, vendo as luzes dos carros refletirem-se nas poças da rua deserta. Perguntava-me como é que uma família pode chegar a este ponto: irmãos afastados, cunhadas tratadas como estranhas, crianças apanhadas no meio de tudo isto.

De manhã cedo, antes sequer do sol nascer, ouvi passos leves no corredor. Era a Ana.

— Marta… preciso de falar contigo — disse ela, com uma urgência nova na voz.

Sentei-me à mesa e ela ficou de pé à minha frente.

— Eu não posso voltar para casa do Pedro — começou ela, olhos fixos nos meus. — Ele precisa de ajuda, mas eu preciso proteger os meus filhos. Não tenho ninguém em quem confiar… só tu.

O peso daquela responsabilidade caiu sobre mim como uma avalanche. Eu própria estava desempregada há dois meses; vivia com o subsídio de desemprego e alguns biscates que ia fazendo como tradutora. A minha mãe estava doente e precisava de cuidados constantes; eu era a única filha disponível para ajudar. Como podia eu acolher mais três pessoas na minha casa?

— Não sei se consigo… — confessei, sentindo as lágrimas ameaçarem cair.

Ana ajoelhou-se à minha frente e pegou nas minhas mãos.

— Por favor… só até eu arranjar trabalho e uma casa para nós. Eu faço tudo o que for preciso: limpo, cozinho, ajudo com a tua mãe…

Olhei para ela e vi o desespero nos olhos dela. Vi também algo mais: coragem. Uma força que eu própria já não sabia se tinha.

Nesse momento ouvi a porta do quarto abrir-se e as crianças apareceram no corredor, ainda meio adormecidas. A mais velha olhou para mim com uma esperança tímida.

— Tia Marta… podemos ficar contigo?

O nó na garganta apertou-se ainda mais. Lembrei-me da infância deles: aniversários esquecidos pela família do Pedro, presentes trocados às escondidas porque a avó não queria saber deles. Lembrei-me do Natal passado em silêncio depois da discussão entre o Pedro e o meu pai.

Levantei-me e abracei as crianças.

— Podem ficar o tempo que precisarem — disse finalmente.

Durante semanas vivemos todos juntos naquela casa pequena demais para tanta gente e tanto passado mal resolvido. A minha mãe resmungava todos os dias sobre “aquela mulher” ter invadido o nosso espaço; eu tentava manter a paz entre todos enquanto procurava trabalho e ajudava Ana a encontrar um emprego também.

Houve dias em que pensei desistir: quando o dinheiro faltava para as compras; quando as crianças choravam com saudades do pai; quando Ana desabava comigo à noite na cozinha porque sentia que nunca ia conseguir recomeçar.

Mas houve também momentos bons: risos partilhados ao jantar; tardes passadas no parque; pequenas vitórias como o primeiro recibo do novo emprego da Ana numa pastelaria local; ou o dia em que as crianças trouxeram desenhos para me agradecerem por ser “a melhor tia do mundo”.

O Pedro tentou contactar-nos várias vezes. Ligava bêbado durante a noite ou aparecia à porta aos gritos. Tive medo por nós todas; cheguei mesmo a chamar a polícia numa dessas ocasiões. A minha mãe dizia que eu estava a destruir a família ao escolher o lado da Ana; mas eu sabia que estava apenas a proteger quem precisava de mim naquele momento.

Com o tempo, as coisas começaram a estabilizar-se. Ana conseguiu arrendar um pequeno apartamento perto da escola das crianças; eu arranjei um trabalho temporário numa editora; a minha mãe acabou por aceitar que aquela era agora também a nossa família.

No entanto, nada voltou a ser como antes. O Pedro acabou internado numa clínica de reabilitação depois de uma tentativa desesperada de reconciliação com Ana ter terminado em violência. A culpa pesava-me nos ombros: será que devia ter feito mais por ele? Será que traí o meu próprio irmão?

Hoje olho para trás e vejo tudo com outros olhos: percebo que não há respostas fáceis quando se trata de família. Que às vezes proteger alguém significa magoar outro; que perdoar não é esquecer; que amar é também saber dizer basta.

Pergunto-me muitas vezes: teria feito diferente se soubesse o que sei agora? E vocês? Até onde iriam para proteger quem amam?