Mudámos as fechaduras para a minha sogra não entrar em nossa casa – quando os sonhos de uma pessoa destroem uma família
— Não quero voltar a vê-la aqui, Miguel! — gritei, com a voz embargada, enquanto as lágrimas me escorriam pelo rosto. O Miguel olhou-me, cansado, como se já não tivesse forças para discutir mais. Do outro lado da porta, ouvia-se o som dos saltos da Dona Lurdes a afastarem-se pelo corredor do prédio. O cheiro do seu perfume ainda pairava no ar, misturado com o aroma do café que ela insistia em fazer todas as manhãs na nossa cozinha, como se a casa fosse dela.
Nunca pensei que o casamento pudesse ser tão difícil. Quando conheci o Miguel, há oito anos, ele era um rapaz simples, de sorriso fácil e mãos calejadas do trabalho no talho do pai. Eu, Ana Sofia, filha de professores primários de Setúbal, sempre sonhei com uma vida tranquila, longe de grandes luxos, mas cheia de amor e respeito. O Miguel parecia partilhar desse sonho. Mas havia uma sombra constante: Dona Lurdes.
Desde o início, ela deixou claro que eu não era o que tinha imaginado para o filho. “O Miguel merece mais, Ana. Precisa de alguém que o faça subir na vida”, dizia-me, com aquele tom passivo-agressivo que só as sogras portuguesas sabem usar. No início, tentei agradar-lhe: levava-lhe bolos caseiros, ajudava-a nas limpezas da casa dela, ouvia as suas histórias intermináveis sobre os tempos em que era costureira para senhoras da alta sociedade de Lisboa.
Mas nada era suficiente. Quando comprámos o nosso pequeno apartamento em Almada, com muito esforço e um empréstimo que ainda hoje nos tira o sono, ela apareceu no dia seguinte com um molho de chaves na mão. “Assim posso vir ajudar-vos quando quiserem”, disse, sorrindo. O Miguel achou graça. Eu senti um arrepio.
Os meses passaram e a presença dela tornou-se cada vez mais sufocante. Aparecia sem avisar — às vezes de manhã cedo, outras vezes à noite — e criticava tudo: a forma como arrumava a loiça, as marcas dos produtos de limpeza, até a cor das cortinas que escolhemos juntos na feira de domingo. “Se tivesses escolhido uma mulher com mais gosto…”, dizia ao Miguel quando pensava que eu não ouvia.
O pior foi quando engravidei da Matilde. Em vez de alegria, senti medo. Dona Lurdes começou a aparecer todos os dias, trazendo sacos de compras com roupas caras para o bebé e listas intermináveis de conselhos não solicitados. “A minha neta não vai vestir essas roupas baratas do supermercado!”, exclamou um dia, atirando para o chão um body que eu tinha comprado em promoção.
O Miguel tentava apaziguar: “Deixa estar, mãe… A Ana sabe o que faz.” Mas eu via nos olhos dele a dúvida a crescer. As discussões começaram a ser diárias. Eu sentia-me cada vez mais sozinha na minha própria casa.
Uma noite, depois de uma discussão especialmente violenta — Dona Lurdes tinha aparecido com uma senhora da igreja para “abençoar” a casa porque achava que eu estava a afastar o filho dela de Deus — sentei-me no chão da cozinha e chorei como há muito não chorava. O Miguel entrou e ficou parado à porta.
— Ana… não sei o que fazer. É a minha mãe.
— E eu? — perguntei-lhe, entre soluços. — Eu sou tua mulher! A tua família agora sou eu e a Matilde!
Ele não respondeu. Ficou ali parado, como se estivesse preso entre dois mundos.
No dia seguinte, tomei uma decisão. Fui à drogaria do senhor António e comprei um novo conjunto de fechaduras. Quando o Miguel chegou do trabalho, já as tinha mudado.
— O que é isto? — perguntou ele, incrédulo.
— A partir de hoje, só entra aqui quem nós quisermos. Esta casa é nossa.
Ele ficou furioso. Gritou comigo como nunca antes tinha feito. Disse que eu estava a destruir a família dele, que era egoísta e ingrata por tudo o que a mãe dele tinha feito por nós.
— Fez alguma coisa por nós ou por ela própria? — atirei-lhe à cara. — Ela quer controlar-nos! Não vêes?
Durante semanas mal nos falámos. O ambiente em casa era insuportável. A Matilde chorava muito e eu sentia-me cada vez mais culpada. Será que estava mesmo a ser egoísta? Será que devia ter aguentado mais?
Dona Lurdes fez questão de dramatizar tudo perante a família: ligou às tias do Miguel, chorou no café do bairro, contou aos vizinhos que eu era uma bruxa que lhe roubou o filho. A minha mãe ligava-me todos os dias preocupada: “Filha, não te deixes ir abaixo… Mas tenta compreender também o lado do Miguel.” Eu compreendia — mas quem compreendia o meu?
O Natal desse ano foi um pesadelo. Fomos à casa dos pais do Miguel e ninguém me falou durante todo o jantar. A Matilde ficou ao colo da avó quase toda a noite; eu sentia-me uma estranha na minha própria família.
Os meses passaram e as feridas não sararam. O Miguel começou a chegar mais tarde do trabalho; dizia que precisava de tempo para pensar. Eu sabia onde ele estava: na casa da mãe dele, onde tudo era como ela queria.
Um dia, depois de mais uma noite sozinho em casa com a Matilde febril ao colo, percebi que não podia continuar assim.
— Miguel, ou ela ou eu — disse-lhe quando chegou a casa.
Ele olhou-me nos olhos e vi ali um medo antigo — medo de crescer, de cortar o cordão umbilical.
— Preciso de tempo — respondeu apenas.
Arrumei algumas roupas minhas e da Matilde e fui para casa dos meus pais em Setúbal. Durante semanas não ouvi nada dele. Só soube por uma vizinha que Dona Lurdes andava a dizer que eu tinha abandonado o lar.
Quando finalmente nos encontrámos para falar sobre o futuro da nossa família, já não éramos os mesmos. O Miguel parecia mais velho; eu sentia-me exausta.
— Ana… desculpa — murmurou ele. — Nunca quis magoar-te.
— Mas magoaste — respondi-lhe. — E magoaste-nos aos três.
Hoje vivemos separados. A Matilde vai alternando entre as duas casas; tento protegê-la das intrigas e das mágoas dos adultos. Dona Lurdes continua a ligar-me de vez em quando — ora para me insultar, ora para pedir desculpa entre lágrimas.
Às vezes pergunto-me se poderia ter feito algo diferente. Se teria sido possível construir uma ponte entre os sonhos dela e os meus. Ou será que há pessoas que simplesmente não conseguem aceitar que os filhos têm direito à própria felicidade?
E vocês? Acham que há limites para o amor de mãe? Ou será que às vezes é preciso mesmo fechar portas — literalmente — para salvarmos aquilo que somos?