Mãe que se recusa a cuidar dos meus filhos: A luta de uma mãe solteira portuguesa

— Não, Leonor! Já te disse mil vezes, não posso ficar com eles hoje. Tenho a minha vida, sabes? — A voz da minha mãe ecoou fria pelo telefone, cortando-me o fôlego como uma lâmina afiada.

Fechei os olhos, sentindo as lágrimas ameaçarem cair. O relógio marcava 7h15 da manhã e eu já estava atrasada para o trabalho. Os miúdos — o Tomás, a Matilde e o pequeno Duarte — ainda dormiam, alheios ao caos que era a minha vida desde que o Pedro morreu. O Pedro…

A imagem dele, deitado naquela cama de hospital depois do acidente de mota, ainda me assombra. Nunca pensei que ficaria sozinha tão cedo, com três crianças pequenas e uma vida inteira por reconstruir. Mas cá estou eu, a tentar ser mãe, pai, provedora e ainda manter alguma sanidade.

— Mãe, por favor… só hoje. O Duarte está com febre e não posso deixá-lo na creche. — A minha voz saiu trémula, quase um sussurro.

— Leonor, já te disse! Não sou tua empregada. Já criei os meus filhos. Agora quero descansar. — E desligou.

Fiquei ali, com o telefone na mão, sentindo-me mais sozinha do que nunca. O silêncio da casa era pesado. Olhei para os brinquedos espalhados pelo chão da sala, para as mochilas por preparar, para o frigorífico quase vazio. Senti-me pequena, esmagada pelo peso de tudo.

A vida em Lisboa nunca foi fácil, mas depois do Pedro partir tornou-se insuportável. O salário de auxiliar numa escola primária mal dava para pagar a renda do T2 em Chelas, quanto mais para extras ou emergências. Os amigos afastaram-se — uns porque não sabiam o que dizer, outros porque simplesmente não queriam lidar com o meu sofrimento.

A minha mãe sempre foi distante. Cresci numa casa onde o afeto era raro e as palavras duras eram regra. Quando casei com o Pedro, ela disse-me que estava a cometer um erro — ele era “bom demais” para mim, dizia ela. Agora que ele se foi, parece que ela sente que tinha razão.

— Mãe, não posso perder este emprego… — murmurei para mim mesma, sabendo que ela já não me ouvia.

O Duarte começou a chorar no quarto. Fui ter com ele, peguei-o ao colo e senti o calor da febre na sua testa. A Matilde apareceu à porta, com os olhos ainda inchados de sono.

— Mamã, hoje vais buscar-nos cedo? — perguntou ela, com aquela esperança inocente que só as crianças têm.

Engoli em seco.

— Vou tentar, filha. Mas hoje vai ser um dia difícil para a mamã.

Preparei-os à pressa. Dei-lhes pão seco com manteiga — era tudo o que havia — e vesti-os com roupas já demasiado pequenas. O Tomás reclamou das calças curtas; prometi-lhe que no próximo mês comprava umas novas, mas sabia que era mentira.

No caminho para a escola, senti os olhares dos vizinhos. Alguns cumprimentavam-me com pena; outros desviavam o olhar. Em Portugal fala-se muito de família, mas quando precisamos mesmo dela…

Cheguei ao trabalho atrasada. A diretora olhou-me com aquele ar de quem já perdeu a paciência.

— Leonor, isto não pode continuar assim. Se não consegue cumprir horários, vamos ter de repensar a sua situação aqui.

Senti um nó no estômago. Sorri forçadamente e pedi desculpa.

O dia arrastou-se entre tarefas repetitivas e preocupações constantes. Liguei à minha mãe mais duas vezes; ela não atendeu. Liguei à minha irmã, Inês — mas ela vive no Porto e tem os seus próprios problemas.

À hora do almoço sentei-me sozinha no refeitório da escola. Ouvi as colegas falarem dos filhos, das férias no Algarve, dos maridos que ajudavam em casa. Senti inveja e vergonha dessa inveja.

Quando finalmente saí do trabalho, corri para buscar os miúdos à escola e à creche. O Duarte estava pior; tossia sem parar e tinha os olhos vidrados. Fui ao centro de saúde — esperei duas horas até sermos atendidos.

— Está com uma bronquiolite ligeira — disse-me a médica. — Tem de ficar em casa pelo menos três dias.

Três dias! Como é que eu ia faltar ao trabalho? Quem ia pagar as contas?

Cheguei a casa exausta. Sentei-me no sofá e chorei baixinho para não acordar as crianças. Senti raiva da minha mãe — como podia ela virar-me as costas assim? Não era suposto as mães ajudarem as filhas?

No dia seguinte acordei com uma mensagem dela: “Não me voltes a ligar para estas coisas. Tens de aprender a desenrascar-te sozinha.” Senti-me traída.

Durante três dias fiquei em casa com o Duarte doente. Recebi uma carta da escola: estavam a considerar rescindir o meu contrato por faltas injustificadas. Liguei à Segurança Social; disseram-me que não tinha direito a subsídio porque não descontava há tempo suficiente.

O dinheiro acabou-se antes do fim do mês. Fui ao supermercado com moedas contadas; tive de escolher entre leite ou fraldas.

Numa noite dessas, depois de deitar os miúdos, sentei-me à janela e olhei para Lisboa iluminada lá fora. Pensei em fugir — deixar tudo para trás e recomeçar noutro lugar qualquer. Mas depois ouvi o Duarte tossir no quarto e soube que não podia desistir deles.

No fim-de-semana seguinte arrisquei ligar à minha mãe outra vez.

— Mãe… por favor…

Ela suspirou do outro lado.

— Leonor… eu também estou cansada. Não percebes? Passei a vida inteira a trabalhar para vos criar sozinha! Agora quero paz!

— Mas eu preciso de ti! Os teus netos precisam de ti!

— Eles são teus filhos, não meus! — gritou ela antes de desligar novamente.

Fiquei ali sentada no chão da cozinha a chorar até não ter mais lágrimas.

Os dias passaram devagar. Aprendi a pedir ajuda aos vizinhos — a Dona Rosa ficou com os miúdos uma tarde; o senhor António trouxe-me um saco de batatas do mercado. Senti vergonha por depender da caridade dos outros, mas também gratidão por ainda haver quem se importe.

Aos poucos fui reconstruindo rotinas: acordar cedo, preparar pequenos-almoços improvisados, correr para apanhar o autocarro 728 até à escola onde trabalho agora como auxiliar temporária (o contrato antigo foi mesmo rescindido). Os miúdos cresceram rápido demais; aprendi a remendar roupas e a inventar brincadeiras baratas nos jardins da cidade.

A relação com a minha mãe nunca mais voltou ao normal. Às vezes penso se algum dia conseguirei perdoá-la por me ter deixado sozinha quando mais precisei dela.

Mas também penso: será que algum dia ela conseguirá perdoar-se a si própria?

Hoje olho para os meus filhos enquanto dormem e pergunto-me: até onde somos capazes de ir pelos nossos filhos quando até a nossa própria família nos vira as costas? Será que alguma vez vamos conseguir quebrar este ciclo de solidão e falta de apoio? E vocês… já sentiram isto na pele?