Fugir para o Trabalho: O Refúgio de uma Mulher Portuguesa

— Outra vez vais sair tão cedo? — A voz do Rui ecoou pela cozinha, carregada de desdém, enquanto eu tentava, em silêncio, não deixar cair a chávena de café das mãos trémulas.

— O chefe pediu para chegar mais cedo hoje, Rui. — A minha voz saiu baixa, quase um sussurro, como se pedisse desculpa por existir.

Ele bufou, nem sequer levantando os olhos do telemóvel. — Sempre a mesma desculpa. Parece que preferes aquela gente do escritório a mim.

Engoli em seco. Não era mentira. O escritório era o meu refúgio, o único lugar onde podia respirar sem sentir o peso do olhar crítico do Rui. Mas nunca teria coragem de lhe dizer isso. Em vez disso, agarrei na mala e saí, sentindo o frio da manhã misturar-se com o gelo que se instalara há anos entre nós.

O caminho até ao autocarro era sempre igual: ruas estreitas de Lisboa, prédios antigos com roupa estendida nas varandas, vizinhas que me cumprimentavam com um sorriso forçado. Sabiam? Suspeitavam do que se passava dentro das paredes do nosso apartamento? Talvez sim. Talvez não. Mas ninguém perguntava nada. Em Portugal, os problemas de casa ficam dentro de casa.

No autocarro, encostei a testa ao vidro embaciado e deixei-me embalar pelo movimento. Lembrei-me de quando conheci o Rui, há quase quinze anos. Era divertido, espontâneo, fazia-me rir até às lágrimas. Onde estava esse homem agora? Quando é que se transformou neste estranho que só sabia apontar defeitos e levantar a voz?

No escritório da seguradora, a rotina era previsível: papéis para arquivar, chamadas para atender, clientes para acalmar. Mas ali sentia-me útil. A Dona Teresa, a minha chefe, era exigente mas justa. Os colegas tratavam-me com respeito. Ali ninguém me fazia sentir pequena.

— Bom dia, Ana! — sorriu a Carla, estendendo-me um pastel de nata ainda morno.

— Bom dia! — sorri de volta, sentindo um calorzinho no peito. Pequenos gestos como este faziam toda a diferença.

Durante o almoço, sentámo-nos as duas na esplanada do café em frente ao escritório. O sol batia-nos no rosto e por momentos quase consegui esquecer-me da vida lá em casa.

— Estás bem? — perguntou a Carla, olhando-me nos olhos com uma preocupação genuína.

Hesitei. Ninguém nunca perguntava isso. Ninguém queria realmente saber.

— Estou… cansada — respondi por fim, desviando o olhar.

Ela pousou a mão sobre a minha. — Se precisares de falar…

Sorri-lhe com gratidão, mas não consegui dizer mais nada. Como explicar aquele cansaço que não era só físico? Como contar que todos os dias acordava com um nó no estômago e adormecia a desejar não acordar?

À tarde, enquanto organizava uns dossiês antigos, ouvi a Dona Teresa chamar-me ao gabinete.

— Ana, senta-te aqui um bocadinho — disse ela, apontando para a cadeira à sua frente.

Sentei-me, nervosa. Será que tinha feito alguma coisa mal?

— Tenho reparado que andas mais calada ultimamente — começou ela, num tom suave. — Se precisares de uns dias…

Abanei a cabeça rapidamente. Faltar ao trabalho era impensável. O trabalho era o meu porto seguro.

— Não é preciso, Dona Teresa. Aqui sinto-me bem.

Ela olhou-me durante uns segundos longos demais e depois assentiu.

Quando cheguei a casa nessa noite, o Rui estava sentado no sofá, cerveja na mão e olhos fixos na televisão.

— Chegas tarde — disse ele sem desviar o olhar do ecrã.

— Houve muito trabalho hoje — respondi, pousando as chaves na mesa da entrada.

Ele riu-se secamente. — Claro. Trabalho… ou andas enrolada com alguém lá no escritório?

Senti o sangue gelar-me nas veias. Já não era a primeira vez que insinuava isto. A primeira vez tinha chorado durante horas; agora limitava-me a ignorar.

Fui para a cozinha preparar o jantar em silêncio. O cheiro da cebola frita misturava-se com as memórias dos jantares felizes de outros tempos: risos à mesa, conversas longas sobre tudo e nada. Agora só havia silêncio e acusações veladas.

Durante o jantar, Rui criticou tudo: o arroz estava demasiado cozido, o frango seco, eu distraída. A certa altura levantei-me da mesa sem dizer palavra e fui fechar-me na casa de banho. Sentei-me na borda da banheira e deixei as lágrimas correrem em silêncio.

Na manhã seguinte repeti o ritual: sair cedo para evitar discussões, procurar refúgio no trabalho. Mas naquele dia algo mudou. Recebi uma mensagem da minha mãe: “Passa cá depois do trabalho. Precisamos de falar.” O tom era urgente.

Fui até à casa dela em Almada depois do expediente. Ela esperava-me à porta com um ar preocupado.

— Ana… O teu pai está pior — disse ela assim que entrei.

O meu pai sofria de Alzheimer há anos e ultimamente tinha piorado muito. Senti uma onda de culpa por não estar mais presente.

— Desculpa mãe… Tenho estado tão ocupada…

Ela abraçou-me com força. — Eu sei filha… Mas preciso de ti agora.

Prometi-lhe que passaria lá mais vezes e voltei para casa já noite cerrada. O Rui estava à minha espera na sala escura.

— Agora andas a sair todas as noites? — perguntou ele num tom frio.

— Fui ver os meus pais — respondi cansada.

Ele levantou-se de repente e atirou o comando da televisão contra a parede.

— Sempre desculpas! Nunca estás aqui! Para quê casar se querias viver sozinha?

Senti um medo antigo apertar-me o peito. Não era só tristeza; era terror de que aquela raiva explodisse noutra coisa qualquer.

Nessa noite dormi mal, acordando sobressaltada com cada ruído da casa. De manhã saí ainda mais cedo do que o costume e fui direta ao escritório.

No trabalho tentei concentrar-me mas não conseguia afastar os pensamentos negros. A Carla percebeu logo que algo não estava bem e arrastou-me para fora do edifício durante a pausa da manhã.

— Ana… tens de fazer alguma coisa por ti — disse ela baixinho. — Não podes continuar assim.

Olhei-a nos olhos e senti as lágrimas ameaçarem cair outra vez.

— Tenho medo… E se ele fizer alguma coisa? E se eu não conseguir sozinha?

Ela apertou-me as mãos com força.

— Não estás sozinha. Eu ajudo-te no que for preciso. E tens a tua mãe também…

Nesse dia fui falar com a Dona Teresa e pedi uns dias de férias. Ela nem hesitou: “Vai descansar, Ana. Cuida de ti.” Saí do escritório com um peso enorme nos ombros mas também com uma réstia de esperança.

Passei esses dias em casa da minha mãe, ajudando-a com o meu pai e tentando recuperar forças. Longe do Rui senti uma paz que já não conhecia há anos. Comecei a pensar seriamente em separar-me dele, mas o medo ainda falava mais alto: medo do julgamento dos outros, medo da solidão, medo do desconhecido.

Quando voltei finalmente a casa para buscar algumas roupas, encontrei o Rui sentado à mesa da cozinha com os olhos vermelhos de raiva ou talvez de choro — nunca saberei ao certo.

— Vais mesmo deixar-me? — perguntou ele num tom quase infantil.

Sentei-me à sua frente e pela primeira vez em muitos anos olhei-o nos olhos sem medo.

— Preciso de pensar em mim agora, Rui. Preciso de respirar…

Ele baixou a cabeça e ficou em silêncio. Saí dali sem olhar para trás.

Agora escrevo esta história sentada no quarto onde cresci, rodeada pelos cheiros e sons da infância. Não sei o que me espera amanhã; não sei se terei coragem para seguir este caminho até ao fim ou se vou voltar atrás por medo ou solidão.

Mas pergunto-me: quantas mulheres portuguesas vivem presas em silêncios iguais ao meu? Quantas fogem todos os dias para o trabalho só para poderem respirar? Será que algum dia teremos coragem de escolher ser felizes?