Filha Desconhecida: Entre o Amor Negado e o Desejo de Pertencer
— Por que é que nunca fazes nada como deve ser, Mariana? — O tom da minha mãe ecoava pela cozinha, cortando o ar como uma faca afiada. Eu tinha doze anos e acabara de deixar cair um prato no chão. O estilhaçar da porcelana parecia menos doloroso do que as palavras dela. O meu irmão, Tiago, sentado à mesa, olhou-me de lado com um sorriso de escárnio. — Deixa lá, mãe, ela é mesmo desastrada — disse ele, como se fosse uma verdade absoluta.
Naquele momento, quis desaparecer. Senti o rosto a arder e os olhos a encherem-se de lágrimas que engoli à força. Não era a primeira vez que ouvia aquelas palavras. Na verdade, eram quase uma banda sonora da minha infância. A minha mãe sempre teve um carinho especial pelo Tiago. Ele era o filho perfeito: bom aluno, educado, bonito. Eu era a filha que nunca estava à altura das expectativas dela.
O meu pai, António, era um homem calado. Trabalhava horas intermináveis como motorista de autocarros em Lisboa e, quando chegava a casa, limitava-se a sentar-se no sofá e ver televisão. Nunca intervinha nas discussões entre mim e a minha mãe. Às vezes, olhava-me com uma espécie de pena silenciosa, mas nunca disse nada em minha defesa.
Aos quinze anos, comecei a passar mais tempo fora de casa. Os meus amigos tornaram-se a minha família improvisada. A Inês, a minha melhor amiga, era quem me ouvia desabafar sobre as injustiças diárias. — Mariana, tu não tens culpa de nada — dizia ela enquanto partilhávamos um pacote de batatas fritas no jardim da escola. — A tua mãe é que não sabe ver o quanto tu vales.
Mas as palavras da Inês não conseguiam preencher o vazio que crescia dentro de mim. Cada vez que entrava em casa e via o olhar frio da minha mãe, sentia-me mais pequena. O Tiago continuava a ser o centro das atenções: ganhou prémios na escola, entrou para a universidade em Engenharia e até arranjou uma namorada bonita que a minha mãe adorava.
No meu décimo oitavo aniversário, decidi confrontar a minha mãe. O jantar estava servido e todos estavam sentados à mesa. — Mãe, porque é que nunca estás satisfeita comigo? — perguntei, com a voz trémula mas decidida.
Ela pousou os talheres e olhou-me como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo. — Mariana, tu é que estás sempre a inventar problemas. O teu irmão nunca me fala assim.
O Tiago revirou os olhos e o meu pai continuou a comer em silêncio. Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Levantei-me da mesa e saí de casa sem olhar para trás.
Durante anos, tentei construir a minha vida longe daquela casa sufocante. Fui estudar Psicologia na Universidade do Porto e aluguei um quarto minúsculo num bairro barulhento mas cheio de vida. Pela primeira vez, senti-me livre para ser quem eu era. Fiz amigos novos, apaixonei-me por um colega chamado Rui — um rapaz doce que me fazia sentir vista e ouvida.
Mas as feridas da infância não desaparecem assim tão facilmente. Sempre que algo corria mal — uma nota baixa num exame, uma discussão com o Rui — ouvia na minha cabeça a voz da minha mãe: “Nunca fazes nada como deve ser”. Era como se ela estivesse sempre ali, pronta para me lembrar do meu suposto fracasso.
Quando o Rui me pediu em casamento, hesitei. Tinha medo de não ser capaz de construir uma família saudável, medo de repetir os erros da minha mãe. Partilhei esse receio com ele numa noite chuvosa, enquanto caminhávamos junto ao Douro.
— E se eu não souber amar? E se eu for como ela? — perguntei-lhe com lágrimas nos olhos.
O Rui abraçou-me com força. — Tu não és a tua mãe, Mariana. Tu és muito mais do que aquilo que ela te fez acreditar.
Casámo-nos numa cerimónia simples, rodeados de amigos e poucos familiares. A minha mãe apareceu no último minuto, vestida de preto como se fosse um funeral em vez de um casamento. Não me deu um abraço nem me desejou felicidades. Limitou-se a cumprimentar o Tiago e a sentar-se num canto.
O tempo passou e nasceu a nossa filha, Leonor. Quando peguei nela pela primeira vez, prometi-lhe em silêncio que nunca lhe faria sentir-se invisível ou indesejada. Mas ser mãe trouxe à tona todos os meus medos antigos. Cada vez que ela chorava sem razão aparente ou fazia birra no supermercado, sentia-me invadida por uma culpa irracional: “Será que estou a falhar? Será que vou ser como ela?”
A relação com o Rui começou a deteriorar-se sob o peso das minhas inseguranças. Ele tentava ajudar-me, mas eu afastava-o sem querer. Uma noite, depois de uma discussão acesa sobre algo trivial — acho que era sobre quem devia dar banho à Leonor — ele olhou-me nos olhos e disse:
— Mariana, tu tens de resolver as coisas com a tua mãe. Não podes continuar a viver assim.
Essas palavras ficaram a ecoar na minha cabeça durante semanas. Finalmente, decidi enfrentar o passado. Liguei à minha mãe e pedi-lhe para conversarmos.
Encontrámo-nos num café perto da casa dela em Almada. Ela chegou atrasada e sentou-se à minha frente com aquele ar distante de sempre.
— O que queres afinal? — perguntou sem rodeios.
Respirei fundo e tentei manter a calma.
— Quero perceber porque é que nunca fui suficiente para ti.
Ela suspirou e desviou o olhar para a janela.
— Tu eras diferente do Tiago. Sempre foste mais sensível… Eu não sabia lidar contigo.
As palavras dela caíram sobre mim como chuva fria. Pela primeira vez percebi que talvez ela também tivesse medo — medo de não saber amar uma filha tão diferente dela própria.
— Eu só queria sentir-me amada — confessei baixinho.
Ela não respondeu imediatamente. Ficámos ali sentadas em silêncio durante longos minutos até que ela murmurou:
— Fiz o melhor que soube…
Saí daquele café sem grandes respostas nem reconciliações milagrosas. Mas algo mudou dentro de mim: percebi que talvez nunca recebesse dela o amor ou reconhecimento que sempre desejei. E talvez isso tivesse de ser suficiente para seguir em frente.
Hoje olho para a Leonor enquanto dorme e pergunto-me se algum dia ela vai sentir por mim o mesmo vazio que eu senti pela minha mãe. Tento todos os dias mostrar-lhe que é amada exatamente como é — com defeitos e virtudes.
Às vezes ainda me pergunto: será possível curar as feridas do passado sem o perdão dos outros? Ou será que só precisamos aprender a perdoar-nos a nós próprios para finalmente sermos livres?