Fatura do Amor: Quando o Casamento se Torna um Negócio

— Maria, precisamos falar. — A voz do Ricardo ecoou pela sala, fria como o mármore da nossa cozinha. Eu estava a preparar o jantar, cortando cebolas com a precisão de quem tenta manter a compostura, mas as mãos tremiam. Olhei para ele, esperando mais uma discussão sobre as contas da casa ou sobre o tempo que eu passava com a minha mãe doente. Mas o que ele fez a seguir foi diferente de tudo o que eu podia imaginar.

Ricardo pousou um envelope branco sobre a mesa. — Lê isto. — Disse, sem me olhar nos olhos. O silêncio era tão pesado que quase me sufocava. Abri o envelope com dedos trémulos e, ao desenrolar o papel, vi o impensável: uma fatura. Sim, uma fatura, com linhas e colunas, datas e valores. “Despesas com supermercado: 7.200€. Limpeza da casa: 3.600€. Apoio emocional: 2.000€. Tempo investido: 10.000€. Total: 22.800€.” No final, uma nota: “A pagar até ao fim do mês.”

Senti o chão fugir-me dos pés. — Isto é uma piada? — perguntei, a voz a falhar-me. Ricardo não respondeu. Limitou-se a sentar-se no sofá, a olhar para a televisão desligada, como se eu não estivesse ali. As lágrimas começaram a cair, quentes, misturando-se com o cheiro da cebola e do azeite quente. O jantar ficou esquecido.

Naquela noite, não dormi. Fiquei a olhar para o teto, a tentar perceber em que momento o nosso casamento se transformou nisto. Lembrei-me do dia em que nos conhecemos, na festa de aniversário do meu primo João, há quase vinte anos. Ele era divertido, encantador, fazia-me rir como ninguém. Casámo-nos na igreja de Santa Maria, rodeados de família e amigos. Prometemos amor eterno, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. Onde é que tudo se perdeu?

No dia seguinte, tentei falar com ele. — Ricardo, por favor, explica-me isto. — Ele suspirou, cansado, como se eu fosse um fardo. — Maria, estou farto. Sinto que tudo o que faço nesta casa é dado como garantido. Tu nunca reconheces nada. Achas que é fácil trabalhar doze horas por dia e ainda chegar a casa para ouvir reclamações? — A voz dele era dura, mas os olhos estavam vermelhos. — E tu achas que é fácil cuidar da casa, da tua mãe, dos nossos filhos, e ainda tentar manter este casamento de pé? — respondi, sentindo a raiva a crescer dentro de mim.

Os dias seguintes foram um inferno. Passávamos um pelo outro como estranhos. Os nossos filhos, Inês e Tiago, percebiam que algo estava errado. Inês, com apenas dez anos, perguntou-me: — Mãe, tu e o pai vão-se divorciar? — O meu coração partiu-se em mil pedaços. — Não sei, filha. — respondi, sem conseguir mentir.

A minha mãe, que já não saía da cama, percebeu o meu sofrimento. — Maria, não deixes que o orgulho vos destrua. Fala com ele. — Mas como falar com alguém que me envia uma fatura pelo tempo que passámos juntos?

Comecei a reparar em pequenos detalhes que antes me escapavam. Ricardo chegava cada vez mais tarde, cheirava a perfume que não era o meu. Um dia, vi uma mensagem no telemóvel dele: “Saudades tuas. Até logo.” O nome era de uma colega do trabalho, Patrícia. O mundo desabou outra vez. Confrontei-o. — Estás com outra? — perguntei, a voz a tremer. Ele hesitou, depois assentiu. — Sim. Mas não é só isso, Maria. Eu já não sei quem somos. Estamos juntos por obrigação, não por amor.

A raiva deu lugar à tristeza. Senti-me vazia, traída, usada. Passei dias a chorar, a tentar perceber onde falhei. Falei com a minha irmã, Ana, que sempre foi o meu apoio. — Maria, tu deste tudo por essa família. Não te culpes. Às vezes, as pessoas mudam. — Mas eu não queria aceitar. Não queria ser mais uma mulher abandonada, a viver de recordações e mágoas.

Ricardo sugeriu que nos separássemos. — Podemos dividir tudo a meio. Até os filhos, se quiseres. — A frieza dele magoava mais do que a traição. — Não somos objetos para dividir, Ricardo. Somos uma família. — gritei, mas ele já não me ouvia.

Os meus dias tornaram-se uma rotina de dor. Ia trabalhar, cuidava da minha mãe, tentava ser forte pelos meus filhos. À noite, chorava sozinha, abraçada à almofada. Um dia, Tiago entrou no quarto e viu-me a chorar. — Mãe, não chores. Eu estou aqui. — Abracei-o com força, prometendo a mim mesma que não ia deixar que esta dor me destruísse.

Comecei a ir a sessões de terapia. A psicóloga, Dona Teresa, ajudou-me a perceber que eu não era a culpada. — Maria, o amor não é uma transação. Não se pode pôr preço ao tempo, ao carinho, ao sacrifício. — As palavras dela foram um bálsamo para a minha alma ferida.

Com o tempo, fui recuperando a força. Decidi que não ia aceitar a fatura. Escrevi uma carta a Ricardo, dizendo-lhe tudo o que sentia. “O que vivemos juntos não tem preço. O amor que demos aos nossos filhos, as noites sem dormir, os sonhos partilhados, tudo isso é imensurável. Se para ti o nosso casamento foi um negócio, para mim foi a história da minha vida. Não te devo nada, nem tu a mim. Só te peço respeito.”

Ricardo leu a carta em silêncio. Pela primeira vez em meses, vi lágrimas nos olhos dele. — Desculpa, Maria. Fui um cobarde. Não soube lidar com a pressão, com o cansaço. Mas não te mereço. — Não respondi. Às vezes, o silêncio diz tudo.

A separação foi difícil, mas necessária. Os meus filhos foram o meu porto seguro. Com o tempo, aprendi a viver sozinha, a gostar de mim outra vez. A minha mãe faleceu pouco depois, mas partiu em paz, sabendo que eu estava a reerguer-me.

Hoje, olho para trás e vejo uma mulher mais forte, mais consciente do seu valor. O amor pode acabar, mas a dignidade fica. E pergunto-me: quantas mulheres vivem presas a relações onde o amor já não existe, apenas por medo de recomeçar? Será que vale a pena pagar o preço de uma vida infeliz, só para não enfrentar o desconhecido?

E vocês, o que fariam se recebessem uma fatura pelo vosso amor? O que é que realmente tem valor numa relação?