Expulsa da Minha Própria Vida: “Não És Mãe, És Uma Maldição” – A Minha Queda e Luta pelo Meu Filho
— Sai daqui, Leonor! Não quero ver-te nem mais um segundo nesta casa! — gritou o Rui, com os olhos vermelhos de raiva, enquanto eu segurava o casaco do nosso filho, o Tomás, que dormia no quarto ao lado, alheio ao caos que se abatia sobre a nossa família.
Senti o chão fugir-me dos pés. O Rui nunca tinha levantado a voz assim comigo. Mas aquela noite, fria e húmida de novembro, parecia ter libertado todos os demónios que ele guardava dentro de si.
— Rui, por favor, não faças isto… O Tomás precisa de mim. — A minha voz tremia, quase não me reconhecia.
Ele apontou para a porta, os punhos cerrados. — O Tomás está doente por tua culpa! Desde que nasceu, nunca tiveste jeito para ser mãe. Só trouxeste desgraça para esta casa. Não és mãe, és uma maldição!
As palavras dele cortaram-me como facas. Senti o peito apertado, o ar a faltar-me. Tentei aproximar-me, mas ele recuou, como se eu fosse contagiosa. — Vai-te embora, Leonor. Agora. Ou chamo a polícia.
Saí. Saí sem mala, sem documentos, sem dignidade. Só com o telemóvel e as chaves do carro, que nem sabia se tinha gasolina suficiente para chegar a algum lado. Chovia torrencialmente. Sentei-me no carro, encostei a cabeça ao volante e chorei. Chorei como nunca tinha chorado na vida. O meu filho, o meu pequeno Tomás, estava lá dentro, sozinho, doente, e eu não podia fazer nada.
Tentei ligar à minha mãe. Ela atendeu, mas a voz dela era fria, distante. — Leonor, não venhas para cá. O teu pai não quer problemas. Já chega de confusões. — E desligou.
Tentei a minha irmã, a Inês. Mensagem lida, nenhuma resposta. Os amigos? Tinham-se afastado quando o Tomás ficou doente, como se a nossa desgraça fosse contagiosa. Senti-me completamente sozinha, como se o mundo inteiro me tivesse virado as costas.
Passei a noite no carro, estacionada à porta do prédio, a olhar para as luzes do nosso apartamento, a imaginar o Tomás a acordar sem mim. O Rui nunca soube lidar com as febres dele, com as crises de asma. Sempre fui eu a cuidar, a passar noites em claro, a correr para as urgências. E agora, de repente, era eu a culpada por tudo.
Na manhã seguinte, fui ao hospital. Não tinha para onde ir, não tinha ninguém. Sentei-me na sala de espera, a olhar para as mães com os filhos ao colo, e senti uma inveja amarga. Uma enfermeira reconheceu-me. — Leonor, está tudo bem? — Não consegui responder. Só chorei. Ela levou-me para um gabinete, deu-me chá quente e ouviu-me. — Tens de lutar pelo teu filho. Não deixes que te tirem isso. — As palavras dela foram o primeiro raio de luz naquela escuridão.
Procurei um advogado. Não tinha dinheiro, mas consegui apoio jurídico gratuito. O processo foi lento, humilhante. O Rui inventou mentiras: que eu era negligente, que não cuidava do Tomás, que tinha problemas mentais. A família dele apoiava-o, a minha ignorava-me. Cada audiência era um pesadelo. O juiz olhava-me com desconfiança, como se eu fosse mesmo uma ameaça para o meu filho.
Lembro-me de uma tarde, no tribunal, em que o Rui disse, com toda a frieza: — O Tomás está melhor sem a mãe. Desde que ela saiu, não teve mais crises. — Senti vontade de gritar, de o abanar, de lhe mostrar todas as noites em que o Tomás só adormecia com o meu colo, todas as vezes em que ele dizia “mamã, não vás”. Mas fiquei calada. O advogado apertou-me a mão debaixo da mesa. — Vai correr bem, Leonor. Aguenta só mais um pouco.
Os meses passaram. Arranjei um quarto numa pensão barata, comecei a trabalhar num café, a servir pequenos-almoços a desconhecidos. Cada euro que ganhava era para o processo, para as visitas ao Tomás, para as viagens de autocarro até ao tribunal. O Rui deixava-me vê-lo uma vez por semana, sempre sob o olhar vigilante da mãe dele, a dona Lurdes, que me tratava como uma criminosa.
— Não toques nele assim, Leonor. Vais deixá-lo nervoso. — dizia ela, sempre que eu tentava abraçar o Tomás. O meu filho olhava para mim com olhos tristes, sem perceber porque é que a mãe já não estava em casa, porque é que só podia vê-lo durante uma hora, num parque gelado, com a avó a controlar cada movimento.
Houve dias em que pensei desistir. Em que pensei que talvez o Rui tivesse razão, que talvez eu fosse mesmo uma maldição. Mas depois lembrava-me do sorriso do Tomás, das mãozinhas dele a agarrar as minhas, dos desenhos que ele fazia para mim. E continuava a lutar.
Um dia, recebi uma mensagem da Inês. — Precisas de falar? — Fui ter com ela a um café. Estava nervosa, não sabia o que esperar. Ela olhou para mim, com os olhos marejados. — Desculpa, Leonor. Fui cobarde. O pai e a mãe meteram medo a toda a gente. Mas eu sei que tu não fizeste nada de mal. — Chorámos as duas. Pela primeira vez em meses, senti que não estava completamente sozinha.
Com o apoio da Inês, consegui juntar mais provas para o tribunal. Testemunhos de vizinhos, de professores, de médicos. Mostrei que sempre fui eu a cuidar do Tomás, que nunca o abandonei. O processo arrastou-se durante quase um ano. O Rui tornou-se cada vez mais agressivo, mais vingativo. Chegou a ameaçar-me na rua, à frente do Tomás. — Se não desapareces, faço-te a vida negra. — Mas eu já não tinha medo. Já tinha perdido tudo, não tinha mais nada a perder.
Na última audiência, o juiz olhou para mim, para o Rui, para o Tomás, que estava sentado ao meu lado, a brincar com um carrinho de plástico. — O que é que tu queres, Tomás? — perguntou-lhe, com uma voz suave. O meu filho olhou para mim, depois para o pai, e disse, baixinho: — Quero a minha mãe.
Chorei. Chorei ali, à frente de toda a gente. O Rui ficou calado, a olhar para o chão. O juiz decidiu que o Tomás ficaria comigo durante a semana, com o pai aos fins de semana. Não era perfeito, mas era uma vitória. Uma vitória arrancada a ferros, à custa de noites sem dormir, de lágrimas, de humilhações.
Quando saí do tribunal, abracei o Tomás com toda a força. Ele sorriu, pela primeira vez em muito tempo. — Mamã, vamos para casa? — perguntou. E eu respondi: — Vamos, filho. Vamos para casa.
Hoje, olho para trás e pergunto-me: como é que uma mãe pode ser tratada como uma criminosa, só porque o filho adoeceu? Como é que o amor de uma mãe pode ser posto em causa por mentiras, por medos, por preconceitos? Será que alguma vez vou conseguir perdoar quem me virou as costas? E vocês, o que fariam no meu lugar?