“Este ano não vou cozinhar no Natal!” – Um Natal português entre conflitos, coragem e redenção
— Maria do Carmo, já sabes que este ano somos vinte e dois à mesa, não sabes? — A voz da minha sogra, Dona Emília, ecoava pela cozinha, misturando-se com o cheiro a cebola refogada e o tilintar dos tachos. Eu estava de costas para ela, a descascar batatas, mas sentia o peso do seu olhar crítico nas minhas costas.
— Sei, sim, Dona Emília — respondi, tentando manter a voz firme. — Mas este ano… este ano não vou cozinhar.
O silêncio que se seguiu foi tão denso que quase podia cortá-lo com a faca de cozinha. Ouvi o relógio da parede marcar cada segundo, como se o tempo tivesse parado só para assistir ao meu atrevimento.
— Como assim não vais cozinhar? — A voz dela subiu meio tom, incrédula. — Quem é que vai fazer o bacalhau? E o cabrito? E as rabanadas? Achas que isto se faz sozinho?
Virei-me devagar. As minhas mãos tremiam, mas olhei-a nos olhos.
— Não consigo mais, Dona Emília. Todos os anos sou eu que faço tudo. Passo dias na cozinha, não aproveito nada do Natal. Este ano quero estar com os meus filhos, quero sentar-me à mesa sem estar exausta.
Ela bufou, cruzando os braços.
— No meu tempo não era assim. A mulher é que tratava da casa e da família. Sempre foi assim.
Senti uma lágrima ameaçar cair, mas engoli em seco. Lembrei-me de todas as noites mal dormidas, das costas doridas, das discussões com o António — o meu marido — porque ele achava que eu exagerava. Lembrei-me dos olhares de pena das minhas irmãs quando lhes dizia que nem tinha tempo para abrir os presentes com os miúdos.
— Pois no seu tempo era assim — disse eu, baixinho. — Mas agora é o meu tempo.
A Dona Emília saiu da cozinha sem dizer mais nada. Fiquei ali sozinha, com o coração aos pulos e as mãos frias. Sabia que tinha começado uma guerra.
No dia seguinte, o António chegou a casa mais cedo do trabalho. Atirou o casaco para cima da cadeira e veio ter comigo à sala.
— O que é que fizeste à minha mãe? Está furiosa! Disse-me que estás a recusar cozinhar no Natal! — Os olhos dele estavam arregalados, como se eu tivesse cometido um crime.
— António, estou cansada. Todos os anos é a mesma coisa. Não quero passar mais um Natal fechada na cozinha enquanto vocês todos se divertem na sala. Quero estar presente.
Ele suspirou alto.
— Mas tu sabes como ela é… Se não fores tu a fazer, ninguém faz! E depois? Vamos comer sandes?
— Então talvez seja altura de alguém aprender — respondi, sentindo uma coragem nova a crescer dentro de mim.
Durante dias, a casa esteve mergulhada numa tensão quase insuportável. A Dona Emília deixou de me falar. O António andava calado, mal me olhava nos olhos. Os meus filhos, João e Matilde, percebiam que algo se passava e andavam inquietos.
Na véspera de Natal, acordei cedo como sempre. Mas desta vez não fui para a cozinha. Fiquei na cama a ouvir o silêncio estranho da casa. Às dez da manhã ouvi passos apressados no corredor e depois vozes na cozinha: era a Dona Emília e a cunhada Rosa.
— Isto é uma vergonha! — ouvia-se a Dona Emília sussurrar alto. — No meu tempo isto não acontecia!
Levantei-me devagar e fui até à cozinha. As duas estavam de avental posto, rodeadas de sacos de compras e tachos espalhados pelo balcão.
— Bom dia — disse eu, tentando soar natural.
A Rosa olhou para mim com um misto de pena e reprovação.
— Olha lá, Maria do Carmo… Não vais mesmo ajudar?
Senti um nó na garganta.
— Não vou. Mas posso ensinar-vos como se faz o arroz doce ou as filhoses, se quiserem.
A Dona Emília virou-me as costas e começou a descascar batatas com força desnecessária.
O dia passou devagar. O António saiu para ir buscar lenha e só voltou ao fim da tarde. Os miúdos brincavam no quintal, alheios à tempestade emocional dentro de casa. Eu sentei-me na sala com um livro nas mãos, mas não consegui ler uma linha.
À noite, quando finalmente nos sentámos todos à mesa — vinte e dois ao todo — senti-me estranha. Pela primeira vez em anos não estava exausta nem suada da cozinha. Olhei à volta: a comida estava boa, embora faltasse aquele toque especial que só quem faz com amor consegue dar. Mas ninguém morreu por isso.
Durante o jantar houve silêncios desconfortáveis e olhares trocados por cima dos copos de vinho. A Dona Emília mal tocou na comida. O António parecia dividido entre orgulho e vergonha de mim.
Depois do jantar, sentei-me no sofá com os meus filhos ao colo. Pela primeira vez em muitos anos abri os presentes com eles sem pressa nem cansaço. Ouvi as gargalhadas deles, vi-lhes o brilho nos olhos quando desembrulharam os brinquedos novos.
Mais tarde, quando todos já tinham ido embora ou estavam a dormir espalhados pelos sofás e colchões improvisados, fui até à cozinha buscar um copo de água. Encontrei a Dona Emília sentada sozinha à mesa, a olhar para as mãos.
— Maria do Carmo… — disse ela baixinho quando me viu entrar. — Eu sei que fui dura contigo. Mas custa-me ver as coisas mudarem assim…
Sentei-me ao lado dela.
— Eu sei que custa. Mas eu também sou mãe agora. Quero criar as minhas próprias tradições com os meus filhos.
Ela suspirou fundo.
— Talvez tenhas razão… Talvez esteja na altura de deixar ir algumas coisas.
Ficámos ali em silêncio durante uns minutos. Depois ela levantou-se e deu-me um abraço apertado — o primeiro em muitos anos sem reservas nem críticas escondidas.
Na manhã seguinte acordei leve como há muito não me sentia. O António veio ter comigo à varanda enquanto eu bebia café.
— Sabes… ontem percebi que nunca te agradeci por tudo o que fazes por nós — disse ele, envergonhado.
Sorri-lhe com ternura.
— Nunca é tarde para começar.
Agora olho para trás e penso: quantas mulheres portuguesas continuam presas às expectativas dos outros? Quantas vezes nos esquecemos de nós próprias para agradar à família? Será que vale mesmo a pena sacrificar a nossa felicidade pelo peso das tradições?