“Esta casa também é minha!” – Quando a família se desfaz por causa de uma herança
— Abre a porta, mãe! — O grito do Rui ecoava pelo corredor, acompanhado pelo som seco do punho dele a bater na madeira. O relógio marcava seis da manhã. Eu ainda estava de robe, os olhos pesados de uma noite mal dormida, quando ouvi também a voz da Carla, a minha nora, mais aguda, mais fria: — Dona Teresa, não se faça de desentendida. Esta casa é do Rui também!
O meu coração disparou. A casa. A casa que o António me deixou, aquela onde vivi quarenta anos de alegrias e dores, onde vi o Rui dar os primeiros passos, onde enterrei o meu marido há apenas seis meses. Senti as pernas tremerem. Respirei fundo e abri a porta.
O Rui entrou primeiro, de cara vermelha e olhos brilhantes de raiva. Na mão, um martelo. A Carla vinha logo atrás, já a olhar em volta como se estivesse a avaliar o que podia mudar. — Isto não vai ficar assim, mãe. O pai prometeu-me que esta casa era para mim — disse o Rui, sem sequer me cumprimentar.
— O teu pai deixou um testamento — respondi, tentando manter a voz firme. — E no testamento está claro: a casa fica para mim enquanto eu viver.
A Carla bufou. — E depois? Vai deixar-nos na rua? O Rui é filho único, tem direito!
Olhei para eles e vi ali tudo o que correu mal entre nós nos últimos anos. O Rui sempre quis mais do que podia ter. A Carla nunca gostou de mim, sempre achou que eu era uma velha agarrada ao passado. Mas nunca pensei que chegássemos aqui: ao ponto de ameaças e gritos por causa de tijolos e paredes.
— Não é só uma casa — disse eu, sentindo as lágrimas a quererem cair. — É o nosso lar.
O Rui bateu com o martelo na mesa da entrada, fazendo-me estremecer. — Não me interessa! Eu preciso desta casa agora. Sabes bem que estamos aflitos com o empréstimo do apartamento em Lisboa. O banco já ameaçou penhorar tudo!
A Carla cruzou os braços. — Se não nos ajudar agora, nunca mais conte connosco para nada.
Foi então que ouvi um som estranho vindo do andar de cima. Um rangido, como se alguém estivesse a mexer-se no quarto do António. O Rui olhou para mim desconfiado.
— Quem está aí em cima?
Senti o sangue gelar-me nas veias. Não era suposto ninguém saber daquele segredo. Mas naquele momento percebi que já não podia esconder mais nada.
— Senta-te, Rui — pedi, com a voz trémula. — Há algo que tens de saber.
O Rui hesitou, mas acabou por pousar o martelo e sentar-se no sofá da sala. A Carla ficou de pé, impaciente.
— O teu pai… antes de morrer… pediu-me para cuidar da Maria.
O silêncio caiu pesado na sala. O Rui franziu o sobrolho.
— Que Maria?
Engoli em seco. — A tua meia-irmã.
A Carla soltou uma gargalhada incrédula. — Está a brincar?
— Não estou — respondi, sentindo-me encolher sob os olhares deles. — O António teve uma filha antes de casar comigo. Ela viveu sempre com a mãe em Braga, mas quando ficou doente veio para cá. Está no quarto dele desde o funeral.
O Rui levantou-se de um salto. — Estás a dizer-me que andaste estes meses todos a esconder uma estranha aqui em casa? E ainda por cima filha do pai?
— Não é uma estranha — sussurrei. — É tua irmã.
A Carla virou-se para ele: — Vês? Isto é tudo uma jogada para não nos dar a casa! Vai ver que até lhe deixou parte da herança!
O Rui estava lívido. — Sempre foste assim, mãe! Sempre preferiste os outros a mim! Agora percebo tudo!
As palavras dele cortaram-me como facas. Lembrei-me de todas as noites em que fiquei acordada à espera dele quando era adolescente, das discussões por causa das más companhias, das vezes em que tentei protegê-lo de si próprio e do mundo. E agora ali estava ele, a acusar-me de traição.
— Não sabes o que dizes… — murmurei.
Ele ignorou-me e subiu as escadas aos saltos. Ouvi-o abrir a porta do quarto do António com força. Um grito abafado da Maria ecoou pela casa.
Corri atrás dele, mas já era tarde demais. O Rui estava parado à porta do quarto, a olhar para a Maria como se visse um fantasma. Ela estava sentada na cama, pálida como cal e com os olhos enormes de medo.
— Sai daqui! — gritou ele.
A Maria encolheu-se ainda mais na cama. Eu pus-me entre eles.
— Basta! Esta casa é minha enquanto eu viver! E enquanto cá estiver, ninguém vai pôr a Maria na rua!
O Rui olhou para mim com um ódio que nunca lhe tinha visto nos olhos.
— Então escolhe: ou ela ou eu!
Senti o chão fugir-me dos pés. Como é que se escolhe entre dois filhos? Como é que se apaga uma vida inteira de mágoas e segredos?
A Carla puxou-o pelo braço: — Vamos embora, Rui! Não vale a pena perdermos tempo aqui!
Ele hesitou um segundo e depois saiu porta fora sem olhar para trás. Ouvi o portão bater com força e só então me permiti chorar.
Desci as escadas devagarinho e sentei-me no sofá da sala vazia. A Maria apareceu pouco depois, com os olhos vermelhos.
— Desculpa… não queria causar problemas…
Abracei-a com força.
— Tu não tens culpa de nada, filha.
Ficámos ali as duas em silêncio durante muito tempo. Lá fora o sol começava a nascer e eu sentia-me mais velha do que nunca.
Durante semanas não tive notícias do Rui nem da Carla. Os vizinhos começaram a cochichar sobre a “filha secreta” do António e sobre como eu tinha perdido o controlo da família. A solidão pesava-me nos ombros como uma manta molhada.
Um dia recebi uma carta registada: o Rui estava a contestar o testamento em tribunal. Dizia que eu estava incapaz de gerir os meus bens e pedia a interdição da casa até decisão judicial.
Senti-me traída como nunca antes na vida. O meu próprio filho queria tirar-me tudo aquilo por que lutei tantos anos. Liguei-lhe dezenas de vezes; nunca atendeu.
A Maria piorava de dia para dia. A doença avançava rápido e os médicos diziam-me para me preparar para o pior. Passei noites inteiras sentada à cabeceira dela, ouvindo-lhe as histórias da infância roubada e dos sonhos por cumprir.
Quando finalmente ela partiu, foi como se uma parte de mim morresse também.
No funeral só estavam eu e dois amigos dela de Braga. O Rui não apareceu; nem sequer mandou flores.
Voltei para casa sozinha e sentei-me à mesa da cozinha onde tantas vezes jantámos todos juntos em tempos melhores. Olhei à volta e vi apenas paredes vazias e memórias partidas.
Agora espero pela decisão do tribunal sem saber se amanhã ainda terei um teto onde dormir.
Pergunto-me muitas vezes: valeu a pena guardar tantos segredos? Será possível perdoar quem nos traiu? Ou será que há feridas que nunca saram?