Entre o Pão Seco e o Sonho: O Preço de Crescer com uma Mãe Poupadora
— Não, Mariana! Não vais comprar esse gelado. Já te disse que temos gelado em casa! — A voz da minha mãe ecoava pela mercearia do bairro, cortando o ar como uma navalha. Eu tinha sete anos e, naquele instante, desejei ser invisível. Os olhos da senhora da caixa pousaram em mim com pena, e eu baixei a cabeça, sentindo o rosto arder.
A minha infância foi feita de nãos. Não ao gelado, não ao vestido novo, não à ida ao cinema com as colegas. A minha mãe, a Dona Lurdes, era conhecida na rua como a mulher mais poupada do bairro de Benfica. “Ela faz render cada tostão!”, diziam as vizinhas, ora com admiração, ora com desdém. Mas ninguém sabia o que isso custava a quem vivia debaixo do mesmo teto.
Lembro-me de um inverno especialmente frio. As minhas primas tinham deixado um saco de roupas velhas lá em casa. A minha mãe remendou um casaco azul-escuro para mim, mas era dois números acima do meu. As mangas cobriam-me as mãos e eu tropeçava no forro rasgado. No recreio, as outras crianças riam-se: “Olha a Mariana, parece um espantalho!”. Eu fingia não ouvir, mas cada gargalhada era uma picada.
— Mãe, porque é que não posso ter um casaco novo? — perguntei uma noite, já na cama.
Ela sentou-se ao meu lado e suspirou fundo:
— Filha, tu não entendes agora, mas um dia vais agradecer. O dinheiro não cresce nas árvores. Eu faço isto por ti, para que nunca te falte nada importante.
Mas o que era importante? Para ela, era a conta-poupança no banco. Para mim, era sentir-me igual às outras crianças.
O meu pai morreu cedo, quando eu tinha cinco anos. A partir daí, a minha mãe tornou-se ainda mais rígida. Trabalhava como empregada de limpeza numa escola primária e fazia horas extra sempre que podia. Eu passava tardes inteiras sozinha em casa, a fazer os trabalhos de casa e a ouvir o rádio velho na cozinha.
Havia dias em que invejava os gritos das crianças no parque lá fora. Mas sabia que não podia pedir para ir brincar – “Gasta-se dinheiro em transportes e depois ainda te sujas toda!”, dizia ela.
Aos dez anos, comecei a perceber que havia algo de errado na nossa casa. Não era só a falta de luxos; era a ausência de alegria. O Natal era sempre igual: bacalhau cozido, bolo-rei comprado em promoção e prendas práticas – meias ou um caderno para a escola. Nunca brinquedos.
Um dia, ouvi a minha mãe discutir com a tia Rosa ao telefone:
— Lurdes, tu não podes privar a Mariana de tudo! Ela é só uma criança!
— Rosa, tu não percebes! Se eu não poupar agora, amanhã estamos na miséria!
Desligou o telefone furiosa e atirou-se para cima da cama. Fiquei à porta do quarto, sem coragem de entrar.
Na escola, os professores elogiavam-me: “A Mariana é tão responsável!”. Mas ninguém via o peso que eu carregava nos ombros pequenos. Quando havia visitas de estudo, eu era sempre a última a entregar a autorização – porque tinha vergonha de pedir dinheiro à minha mãe.
A adolescência trouxe novos conflitos. Quis ir ao baile de finalistas do 9º ano. Todas as raparigas falavam dos vestidos e dos sapatos novos.
— Mãe, por favor… é só uma vez na vida!
— Mariana, não sejas tola! Vais gastar dinheiro para dançar uma noite? Isso passa num instante!
Chorei sozinha no quarto nessa noite. No dia do baile, fiquei em casa a ver televisão enquanto ouvia os foguetes ao longe.
Com 16 anos arranjei o meu primeiro trabalho de verão numa pastelaria. Queria juntar dinheiro para comprar um telemóvel como os outros colegas. Quando recebi o primeiro ordenado, a minha mãe exigiu metade para “ajudar nas despesas”.
— Não podes ser egoísta! Aqui em casa todos contribuem!
Senti raiva. Pela primeira vez pensei em fugir de casa. Mas para onde iria? E se ela ficasse sozinha?
Os anos passaram e entrei na faculdade com uma bolsa de estudo. Fui viver para um quarto alugado em Lisboa. Pela primeira vez comprei um vestido novo com o meu dinheiro. Lembro-me de me olhar ao espelho e sorrir – mas também senti culpa.
A minha mãe telefonava todos os dias:
— Mariana, não gastes dinheiro em cafés! Leva lancheira!
— Sim, mãe…
No Natal desse ano voltei a casa. A mesa estava igual: bacalhau cozido e bolo-rei barato. Mas algo tinha mudado em mim. Senti pena da minha mãe – mas também raiva por tudo o que me tinha tirado.
Depois do jantar, sentei-me com ela na sala.
— Mãe… alguma vez pensaste se tudo isto valeu a pena?
Ela olhou-me surpreendida:
— Como assim?
— Cresci sem brinquedos, sem festas… Sinto que perdi a infância.
Ela ficou calada muito tempo antes de responder:
— Mariana… eu só queria proteger-te do mundo. O medo de faltar-me tudo era maior do que qualquer outra coisa.
Nesse momento vi-a como nunca antes: uma mulher cansada, cheia de medo e solidão.
Hoje tenho 32 anos e trabalho como professora primária em Setúbal. Tenho uma filha pequena e prometi a mim mesma que ela nunca sentiria o mesmo vazio que eu senti.
Mas às vezes dou por mim a dizer-lhe:
— Não precisamos disso agora…
E paro. Pergunto-me se estou a repetir o ciclo.
Será que algum dia vou conseguir perdoar verdadeiramente a minha mãe? Ou será que há feridas que nunca saram? E vocês – acham que valeu a pena sacrificar tanto pelo futuro?