Entre o Amor e o Orgulho: Confissões de uma Sogra Portuguesa

— Maria, por favor, tenta perceber o meu lado! — A voz do meu filho, João, ecoava pela sala, carregada de frustração. Eu estava sentada à mesa da cozinha, as mãos trémulas a segurar uma chávena de chá que já não sentia quente. O cheiro do café acabado de fazer misturava-se com o aroma amargo da minha ansiedade.

— João, não é uma questão de perceber ou não. É uma questão de sentir — respondi, tentando controlar as lágrimas que ameaçavam cair. — Tu eras o meu menino, o meu orgulho. E agora… agora parece que já não preciso de ti.

Ele olhou-me, os olhos castanhos tão parecidos com os meus, mas cheios de uma determinação que nunca reconheci. — Mãe, eu amo a Sofia. E tu devias tentar conhecê-la melhor, em vez de julgar sem razão.

Sofia. O nome dela era como um espinho cravado no meu peito. Desde o início, nunca consegui aceitar aquela rapariga de cabelos curtos e ideias modernas, tão diferente das mulheres da nossa família. Lembro-me do primeiro jantar em que ela veio cá a casa. A minha irmã, Teresa, ainda comentou: — Aquela miúda não tem jeito para nada, Maria. Nem sabe fazer um arroz de pato! — E eu, envergonhada, sorri, mas por dentro sentia-me traída. O João sempre gostou de tradições, de domingos em família, de fado e de sardinhadas no quintal. Como podia ele apaixonar-se por alguém que nem sabia distinguir um bacalhau à Brás de um arroz de marisco?

No dia do casamento, o salão estava cheio de gente. Os primos, os vizinhos, até o padre da nossa paróquia. Todos sorriam, brindavam, dançavam. Só eu, sentada a um canto, sentia o peso do mundo nos ombros. A minha mãe, já velhinha, apertou-me a mão e sussurrou: — Maria, não deixes o orgulho falar mais alto que o amor. — Mas eu não consegui ouvir. Ou melhor, não quis ouvir.

A festa passou como um sonho mau. Cada vez que via o João sorrir para a Sofia, sentia uma pontada de ciúme, como se ela me tivesse roubado o meu filho. No final da noite, quando todos já tinham ido embora, fiquei sozinha na sala, a olhar para as flores murchas e os copos vazios. Senti-me vazia também.

Os meses passaram e a distância entre mim e o João foi crescendo. Ele vinha menos vezes a casa, e quando vinha, trazia sempre a Sofia. Eu tentava ser cordial, mas cada conversa era um campo de batalha disfarçado de chá das cinco. — Sofia, queres mais um pouco de bolo? — perguntava, com um sorriso forçado. — Não, obrigada, Dona Maria. Estou de dieta. — E eu, por dentro, pensava: “Dieta? Aqui em casa ninguém faz dieta!”

As discussões começaram a ser mais frequentes. Uma vez, o João levantou a voz comigo, coisa que nunca tinha feito. — Mãe, chega! Não posso continuar a viver entre ti e a Sofia. Ou aceitas a nossa relação, ou então… — Ele não terminou a frase, mas eu percebi o que queria dizer. O medo de perder o meu filho era maior do que qualquer orgulho, mas mesmo assim não consegui dar o braço a torcer.

A minha irmã Teresa dizia-me: — Maria, estás a perder o teu filho por teima. Lembra-te do que passámos com o pai. — O nosso pai, homem duro, nunca aceitou o marido dela, e acabaram por se afastar durante anos. Eu prometi a mim mesma que nunca faria o mesmo, mas agora via-me a repetir a história, como se fosse um destino inevitável.

Um dia, recebi uma chamada do João. — Mãe, vamos ter um bebé. — O meu coração saltou de alegria, mas logo a seguir veio a sombra: — Espero que consigas ser uma avó presente, mas só se conseguires aceitar a Sofia como parte da família.

Fiquei noites sem dormir, a pensar no que fazer. Lembrava-me do João em pequeno, a correr pelo quintal, a pedir colo, a rir-se das minhas histórias. Agora, era um homem feito, com a sua própria família. E eu, presa ao passado, incapaz de avançar.

No batizado da minha neta, Matilde, tentei aproximar-me da Sofia. — Parabéns, Sofia. A Matilde é linda. — Ela olhou-me, desconfiada, mas sorriu. — Obrigada, Dona Maria. — O João, ao ver-nos, sorriu também, mas havia tristeza nos seus olhos. Senti que, apesar dos meus esforços, a barreira entre nós continuava ali, invisível mas intransponível.

Os anos passaram e a distância tornou-se rotina. O João ligava de vez em quando, mas as visitas eram raras. A Matilde crescia, e eu via-a apenas em fotografias enviadas pelo telemóvel. A solidão foi-se instalando, silenciosa, como uma humidade que corrói as paredes da alma.

Uma noite, sentei-me à janela, a olhar para as luzes da cidade. Oiço a voz da minha mãe, como um eco distante: — Maria, não deixes o orgulho falar mais alto que o amor. — Senti as lágrimas a correrem-me pelo rosto. Tantos anos perdidos, tantas palavras por dizer.

Peguei no telefone e marquei o número do João. — Filho, desculpa. Desculpa por tudo. Quero conhecer melhor a Sofia, quero fazer parte da vossa vida. — Do outro lado, ouvi um silêncio, seguido de um suspiro. — Mãe, ainda vamos a tempo. — E naquele momento, percebi que o amor é mais forte do que qualquer orgulho.

Agora, escrevo estas palavras com a esperança de que alguém, algures, aprenda com os meus erros. Será que ainda vou conseguir recuperar o tempo perdido? Será que o amor de mãe é suficiente para curar as feridas do passado? O que fariam vocês no meu lugar?