Entre o Amor e o Orgulho: Confissões de uma Sogra Portuguesa
— Não acredito que vais mesmo casar com ela, Miguel! — gritei, a voz embargada, enquanto ele fechava a porta do quarto com força. O eco do estrondo percorreu o corredor da nossa casa em Coimbra, misturando-se ao cheiro do café acabado de fazer e ao silêncio pesado que se seguiu. Fiquei ali, parada, com as mãos trémulas, sentindo-me mais sozinha do que nunca.
Desde o dia em que Miguel me apresentou a Inês, soube que algo estava errado. Não era só o facto de ela vir de uma família diferente da nossa, ou de ter ideias tão modernas sobre a vida. Era o olhar dela — aquele olhar que me atravessava como se eu fosse apenas um obstáculo no caminho dela. Tentei avisar o meu marido, António, mas ele limitava-se a encolher os ombros.
— Deixa o rapaz ser feliz, Maria. — dizia ele, sempre tão calmo, como se não visse o abismo que se abria entre mim e o nosso filho.
Na noite anterior ao casamento, não consegui dormir. Ouvia os risos abafados de Miguel ao telefone com Inês e sentia uma raiva surda crescer dentro de mim. Lembrei-me de quando ele era pequeno, dos joelhos esfolados e dos abraços apertados depois de um pesadelo. Agora, parecia-me um estranho.
No dia do casamento, vesti o meu melhor vestido azul-escuro e pus o colar de pérolas da minha mãe. Olhei-me ao espelho e tentei sorrir, mas os olhos denunciavam o cansaço e a tristeza. Quando cheguei à igreja, vi Inês rodeada pelos pais e irmãos, todos tão diferentes de nós — ruidosos, expansivos, sem cerimónia. Senti-me deslocada.
Durante a cerimónia, cada palavra do padre soava como uma sentença. Quando Miguel olhou para mim antes de dizer “sim”, vi um pedido mudo nos olhos dele. Mas eu não consegui retribuir. O orgulho falou mais alto.
Na festa, tentei misturar-me entre os convidados, mas sentia os olhares de Inês e da família dela sobre mim. A certa altura, ouvi-a comentar com a mãe:
— A sogra parece que está num funeral.
As palavras cortaram-me como uma faca. Fugi para a casa de banho e chorei em silêncio, sufocando os soluços para não chamar a atenção. Quando voltei à sala, António olhou-me com preocupação.
— Maria, por favor… não estragues este dia ao nosso filho.
Mas eu já sentia que tudo estava estragado.
Os meses seguintes foram um desfile de pequenos conflitos. Inês queria passar o Natal com a família dela; Miguel dizia que era justo alternar. Eu sentia-me traída — como se cada decisão deles fosse uma rejeição da nossa história, das nossas tradições.
Uma tarde de inverno, Miguel veio visitar-nos sozinho. Sentei-me com ele na cozinha enquanto António dormia a sesta.
— Mãe… porque é que não gostas da Inês?
A pergunta caiu como uma pedra no meio da mesa.
— Não é isso… — menti, mas ele interrompeu-me.
— É sim. E eu sinto isso todos os dias. Ela também sente. Só queria que tentasses conhecê-la melhor.
Olhei para as mãos dele — tão parecidas com as minhas — e senti uma pontada de culpa. Mas o orgulho não me deixou ceder.
— Eu só quero o melhor para ti.
Ele levantou-se devagar.
— O melhor para mim é ela. Se não consegues aceitar isso… não sei o que vai ser de nós.
Depois desse dia, as visitas tornaram-se raras. Os telefonemas eram curtos e formais. António tentava apaziguar as coisas:
— Liga-lhes tu, Maria. Convida-os para jantar.
Mas eu recusava sempre. “Se querem vir, que venham eles”, pensava eu.
O tempo passou e nasceu a minha neta, Leonor. Vi-a pela primeira vez numa fotografia enviada por mensagem. O rosto pequenino dela fez-me chorar — lágrimas de alegria e de tristeza misturadas. Queria abraçá-la, mas não sabia como dar o primeiro passo.
No batizado da Leonor, sentei-me na última fila da igreja. Ninguém reparou em mim quando cheguei; ninguém me cumprimentou quando saí. Vi Miguel ao longe, com a filha nos braços e Inês ao lado dele — uma família feliz sem mim.
À noite, sentei-me sozinha na sala escura e ouvi António ressonar no quarto. Peguei no telefone várias vezes para ligar ao Miguel, mas nunca tive coragem de marcar o número.
Os dias tornaram-se rotinas vazias: café pela manhã, novelas à tarde, jantares silenciosos com António. A casa parecia maior e mais fria sem as gargalhadas do Miguel ou os seus passos apressados pelo corredor.
Um domingo à tarde, António teve um pequeno enfarte. Fui eu quem chamou a ambulância; fui eu quem ficou horas na sala de espera do hospital sem ninguém ao meu lado. Quando finalmente consegui falar com Miguel, ele veio apressado — mas Inês ficou em casa com Leonor.
— Mãe… tens de mudar — disse ele baixinho enquanto esperávamos notícias do pai dele.
Olhei para ele e vi nos olhos dele a mesma tristeza que sentia em mim própria. Pela primeira vez em anos, abracei-o sem reservas e chorei no ombro dele.
António recuperou devagar; Miguel começou a visitar-nos mais vezes — mas nunca trazia Inês ou Leonor consigo. Senti que estava a perder tudo: o filho, a nora, a neta… e até o marido.
Uma noite chuvosa, sentei-me à janela da cozinha e escrevi uma carta à Inês:
“Querida Inês,
Sei que nunca fui fácil contigo. Sei que te magoei com o meu silêncio e com o meu orgulho. Mas quero pedir-te desculpa — por mim e pelo Miguel. Quero conhecer-te melhor; quero conhecer a minha neta. Será que ainda vamos a tempo?”
Nunca tive coragem de enviar essa carta.
Hoje olho para trás e pergunto-me: quantas famílias se destroem por orgulho? Quantas avós perdem os netos por medo de dar o braço a torcer? Será que ainda vou conseguir recuperar o tempo perdido?
E vocês? Já perderam alguém por orgulho? O que fariam no meu lugar?