Entre o Amor e o Desespero: O Dia em que Conheci o Futuro Sogro do Meu Filho
— Mãe, por favor, não faças uma cena. — A voz do meu filho, Miguel, tremia enquanto me olhava nos olhos, suplicando por compreensão. Eu sentia o sangue a ferver-me nas veias, as mãos crispadas sobre a toalha de linho branco da sala de jantar da casa dos pais da Inês.
O cheiro a vinho tinto pairava no ar, misturado com o perfume barato que a mãe dela usava. O pai da Inês, o senhor António, já estava visivelmente embriagado quando nos abriu a porta. Cambaleou, tropeçou no tapete e soltou uma gargalhada rouca: — Ora então, sejam bem-vindos! Aqui em casa bebe-se para celebrar!
Olhei para o meu marido, Rui, que me devolveu um olhar de desalento. Tínhamos passado a semana inteira a preparar-nos para este jantar. Era suposto ser o início de uma nova etapa: o nosso único filho ia casar-se. Mas tudo aquilo parecia um pesadelo.
Durante anos, envolvi-me em causas sociais. Sempre me orgulhei de ajudar crianças desfavorecidas, de lutar por famílias melhores. No trabalho, era conhecida por organizar campanhas de solidariedade e visitar lares de acolhimento. Sempre disse ao Miguel que a família era o pilar de tudo. E agora, ali estava eu, sentada à mesa com um homem que mal se aguentava em pé e que não parava de encher o copo.
— Então, dona Helena — começou ele, com a língua enrolada —, diga-me lá… O seu filho é bom rapaz? A minha Inês merece coisa fina!
A Inês baixou os olhos, corando. Notei-lhe as mãos a tremerem ligeiramente. O silêncio caiu pesado sobre a mesa. Senti uma raiva surda crescer dentro de mim. Como podia o Miguel querer casar-se numa família assim? Como podia ele escolher isto para a vida dele?
— O Miguel é um homem íntegro — respondi, tentando manter a compostura. — E espero que ambos sejam felizes.
O senhor António riu-se alto e brindou sozinho. — Felicidade! Isso é coisa que se compra?
A mãe da Inês tentou disfarçar: — António, já chega…
Mas ele ignorou-a e virou-se para o meu filho: — Olha lá, rapaz… Tu sabes ao que vens? Casar é fácil. Difícil é aguentar!
O Miguel ficou pálido. Vi-lhe nos olhos a dúvida, talvez até vergonha. Mas não disse nada. Limitou-se a olhar para a Inês como se ela fosse a única âncora naquele mar revolto.
O jantar arrastou-se entre silêncios constrangedores e tentativas falhadas de conversa. O senhor António contou histórias antigas, sempre regadas com mais vinho. Falou dos tempos em que era pescador na Nazaré, das noites passadas no cais e das discussões com a mulher. Cada frase era uma facada na esperança que eu tinha para o futuro do meu filho.
Quando finalmente nos levantámos da mesa, já passava das onze. O senhor António adormeceu no sofá antes sequer de nos despedirmos.
No carro, o Rui conduzia em silêncio. O Miguel olhava pela janela, perdido nos seus pensamentos. Eu não aguentei mais:
— Miguel, tens a certeza disto? Não vês o ambiente daquela casa? Não vês como ela sofre?
Ele virou-se para mim, os olhos marejados:
— Mãe… Eu amo a Inês. Ela não é o pai dela.
— Mas vai carregar esse peso para sempre! — exclamei, sentindo as lágrimas ameaçarem-me os olhos.
— E eu? Não carrego já o peso das tuas expectativas? — respondeu ele, num tom amargo.
Fiquei sem palavras. Nunca pensei que o meu filho sentisse isso. Sempre quis o melhor para ele… Mas será que alguma vez lhe perguntei o que ele queria mesmo?
Os dias seguintes foram um tormento. No trabalho, as colegas perguntavam como tinha corrido o jantar e eu sorria mecanicamente. Em casa, evitava falar sobre o assunto com o Rui. Sentia-me dividida entre proteger o meu filho e respeitar as escolhas dele.
Uma noite, ouvi vozes baixas vindas do quarto do Miguel. Aproximei-me e ouvi-o ao telefone com a Inês:
— Não ligues ao meu pai… Ele sempre foi assim…
— Mas tu mereces melhor — disse ele.
— Eu só quero ser feliz contigo…
Senti um nó na garganta. Aquela rapariga estava presa numa família desfeita, mas tinha esperança no amor do meu filho. E eu? Estava eu a ser egoísta?
No domingo seguinte, a Inês veio cá jantar connosco. Trouxe um bolo feito por ela e um ramo de flores para mim.
— Obrigada por me receberem — disse ela timidamente.
Durante o jantar, contei-lhe histórias do Miguel em pequeno: como adorava construir castelos de areia na praia da Figueira da Foz, como chorou quando perdeu o primeiro dente.
A Inês sorriu e os olhos brilharam-lhe de ternura.
Depois do jantar, ficámos as duas na cozinha a arrumar a loiça.
— Sei que não foi fácil aquele jantar… — começou ela.
— Não foi mesmo — respondi honestamente.
Ela suspirou:
— O meu pai tem problemas com álcool há muitos anos… Já tentei tudo… Mas ele não muda. A minha mãe aguenta porque tem medo de ficar sozinha.
Olhei para ela e vi-me refletida naquela fragilidade: quantas vezes aguentei coisas só por medo? Quantas vezes exigi perfeição ao Miguel porque queria protegê-lo do mundo?
— Sabes… — disse-lhe — eu só quero que sejas feliz com o meu filho.
Ela sorriu e abraçou-me.
Naquela noite não dormi. Fiquei a pensar em tudo: nas crianças dos lares que visitei, nos pais ausentes ou violentos que conheci nessas visitas… E agora via-me confrontada com uma realidade igual dentro da minha própria família.
Os preparativos para o casamento avançaram devagar. O senhor António continuava ausente ou embriagado nas reuniões familiares. A mãe da Inês chorava baixinho quando falávamos dos planos para a cerimónia.
Uma semana antes do casamento, recebi uma chamada da Inês:
— Dona Helena… O meu pai foi internado outra vez… Bebeu demais e caiu nas escadas…
Fui ter com ela ao hospital de Santa Maria. Encontrei-a sentada sozinha no corredor frio, as mãos entrelaçadas no colo.
— Ele vai ficar bem — tentei confortá-la.
Ela abanou a cabeça:
— Não sei se consigo continuar assim…
Sentei-me ao lado dela e segurei-lhe as mãos:
— Tens de pensar em ti agora… E no Miguel.
Ela chorou baixinho no meu ombro.
No dia do casamento, chovia torrencialmente em Lisboa. A igreja estava cheia de flores brancas e rostos ansiosos. O senhor António apareceu à última hora, sóbrio mas abatido. Não disse palavra durante toda a cerimónia.
Quando os noivos trocaram votos, vi nos olhos deles uma força que nunca tinha visto antes: uma vontade de lutar contra tudo e todos para serem felizes.
No final da festa, aproximei-me do senhor António:
— Espero que consiga encontrar paz na sua vida…
Ele olhou-me nos olhos pela primeira vez:
— Perdi tudo por causa do vinho… Espero que eles não percam nada por minha culpa.
Fui para casa naquela noite com o coração apertado mas também aliviado. Percebi que não podemos escolher as famílias dos nossos filhos nem protegê-los de todas as dores do mundo. Só podemos estar lá quando eles precisarem de nós.
Agora pergunto-me: será que fiz bem em lutar tanto contra este casamento? Ou devia ter confiado mais no amor deles? Quantos de nós tentamos controlar o destino dos nossos filhos sem perceber que só eles podem escrever a sua própria história?