Entre Dois Mundos: O Silêncio da Minha Voz na Família do Miguel
— Não percebo, mãe, porque é que a Ana recebe sempre tudo de mão beijada e nós nem um tupperware de sopa temos no frigorífico — ouvi o Miguel desabafar, a voz tensa, enquanto eu fingia arrumar as compras na cozinha da sogra. O cheiro do bacalhau com natas enchia a casa, mas o meu estômago estava apertado demais para pensar em comida.
A Dona Lurdes nem sequer olhou para ele. Continuou a mexer o molho, os olhos fixos na panela, como se o Miguel fosse apenas mais um ruído de fundo. — Cada um tem o que merece, filho. A Ana ajuda-me muito cá em casa. Tu e a tua mulher estão sempre ocupados com os vossos trabalhos — respondeu ela, com aquele tom frio que me fazia sentir ainda mais pequena.
A Ana era a mulher do irmão do Miguel, o Pedro. Sempre sorridente, sempre pronta a dar um jeito na casa da sogra, mas também sempre pronta a receber elogios e prendas. No Natal passado, a Dona Lurdes ofereceu-lhe um serviço de chá Vista Alegre. Para mim, um par de meias de lã. Sorri e agradeci, mas por dentro senti-me humilhada.
Lembro-me de uma noite em particular. O Miguel chegou a casa cansado do trabalho e encontrou-me sentada no sofá, os olhos vermelhos de tanto chorar. — O que foi agora? — perguntou ele, já sem paciência para mais dramas.
— Sinto-me invisível nesta família — confessei, a voz embargada. — Faço tudo para agradar à tua mãe, mas nunca sou suficiente. A Ana é sempre a preferida. Até quando precisamos de ajuda com o nosso filho, ela arranja desculpas. Mas para a Ana está sempre disponível.
O Miguel suspirou e sentou-se ao meu lado. — Eu sei que não é justo. Mas sabes como é a minha mãe… Ela tem as suas manias. Não vale a pena stressares com isso.
Mas valia. Porque cada pequeno gesto, cada palavra atravessada à mesa de jantar, cada olhar de desdém da Dona Lurdes era uma ferida aberta. E eu sangrava em silêncio.
No aniversário do nosso filho Tomás, convidei toda a família para um lanche em nossa casa. Preparei tudo com carinho: bolo caseiro, sanduíches, sumos naturais. A Dona Lurdes chegou atrasada e trouxe um presente enorme para o filho da Ana — um carrinho telecomandado caríssimo — e para o Tomás… um livro usado. Vi o olhar triste do meu filho e senti uma raiva surda crescer dentro de mim.
Depois da festa, enquanto arrumava a cozinha sozinha (porque a Ana já tinha ido embora e a sogra estava sentada no sofá a ver televisão), ouvi o Miguel discutir com o irmão no corredor.
— Achas normal isto? O Tomás é teu sobrinho também! — dizia o Miguel.
— Não te metas nisso — respondeu o Pedro, encolhendo os ombros. — A mãe faz o que quer.
Senti-me tão sozinha naquele momento. Como se estivesse numa ilha rodeada de gente que não me via nem ouvia.
Houve uma noite em que não aguentei mais. Liguei à minha mãe, em lágrimas.
— Filha, não deixes que te tratem assim — disse ela, com aquela voz doce que sempre me acalmou em criança. — Tu vales tanto quanto qualquer outra pessoa nessa família. Não te esqueças disso.
Mas era difícil acreditar nisso quando tudo à minha volta gritava o contrário.
Certa vez, tentei conversar com a Dona Lurdes. Esperei até estarmos sozinhas na cozinha e respirei fundo.
— Dona Lurdes… Posso perguntar-lhe uma coisa?
Ela olhou-me por cima dos óculos.
— Diga lá.
— Sinto que não sou bem-vinda aqui… Que nunca sou suficiente para si. Gostava de perceber se fiz alguma coisa errada.
Ela sorriu de lado.
— Não é nada disso, menina Rita. Só acho que cada um tem o seu lugar nesta família. E o seu é ao lado do Miguel e do Tomás. Eu já tenho quem me ajude cá em casa.
Fiquei sem palavras. O meu lugar era ao lado do Miguel e do Tomás… Mas não junto dela? Não fazia parte daquela família?
Os meses passaram e fui-me afastando cada vez mais das reuniões familiares. O Miguel tentava convencer-me a ir aos almoços de domingo, mas eu inventava desculpas: trabalho acumulado, dores de cabeça, cansaço do Tomás.
Um dia, o Tomás perguntou-me:
— Mãe, porque é que a avó gosta mais do primo João do que de mim?
O nó na garganta apertou-se ainda mais.
— Não é isso, querido… A avó gosta de ti à sua maneira — menti-lhe, porque não sabia como explicar-lhe aquela injustiça.
O Miguel começou a ficar impaciente com o meu afastamento.
— Vais deixar que a minha mãe estrague tudo entre nós? — perguntou ele numa noite em que discutimos até tarde.
— Não sou eu que estou a estragar nada! Só quero sentir-me respeitada! Só quero sentir que faço parte desta família!
Ele abanou a cabeça e saiu de casa para esfriar a cabeça. Fiquei sozinha na sala escura, abraçada ao Tomás que dormia no meu colo.
No trabalho também comecei a sentir o peso desta tristeza. Os colegas perguntavam porque andava tão calada, tão distante. Uma vez até chorei na casa de banho depois de receber uma mensagem da sogra: “Não se esqueça de trazer o bolo para o aniversário do João.” Nem um obrigado.
A gota de água foi num Natal em que decidi não ir à casa da sogra. Fiquei em casa com o Tomás e preparei um jantar simples só para nós os três. O Miguel foi sozinho à ceia familiar e voltou tarde, com ar cansado e triste.
— A minha mãe perguntou por ti — disse ele sem convicção.
— E tu? Defendeste-me?
Ele não respondeu.
Naquela noite percebi que tinha de mudar alguma coisa em mim. Que não podia continuar à espera da aprovação da Dona Lurdes ou da aceitação da Ana ou do Pedro. Que tinha de ser eu a definir o meu valor.
Comecei a investir mais em mim: voltei ao ginásio, inscrevi-me num curso de fotografia (sempre adorei captar pequenos momentos), comecei a sair mais com amigas antigas. Aos poucos fui recuperando a alegria e a confiança.
O Miguel percebeu essa mudança e começou também ele a tentar aproximar-se mais de mim e do Tomás. Passámos mais fins-de-semana fora, só os três. E foi aí que percebi: talvez nunca venha a ser aceite pela família dele como gostaria… Mas tenho uma família só minha: eu, o Miguel e o Tomás.
No último aniversário do Tomás, fizemos uma festa pequena só com amigos próximos e alguns familiares meus. A Dona Lurdes não apareceu nem ligou. Pela primeira vez não chorei por causa disso.
Às vezes ainda dói pensar em tudo o que perdi por tentar agradar aos outros. Mas hoje sei que mereço amor e respeito — mesmo quando vêm só de mim mesma.
Pergunto-me muitas vezes: quantas mulheres vivem assim caladas nas suas famílias? Quantas aceitam migalhas quando merecem banquetes? Será que algum dia vamos aprender todas a exigir aquilo que realmente merecemos?